quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Fragmentar a sociedade, projeto conservador



Para Márcio Pochmann, terceirização geral, em debate na Câmara e STF, reflete projeto de oligarquias financeira e agrária, que já não tem projeto para país — exceto punção da riqueza e trabalho


Por Carlos Drummond, na Carta Capital


A universalização da terceirização, seja a aprovada pelos deputados e em tramitação no Senado, seja a da proposta em análise no Supremo Tribunal Federal, é a uberização da força de trabalho, chama a atenção Marcio Pochmann, presidente licenciado da Fundação Perseu Abramo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Faz parte do projeto da nova elite agroexportadora, que mantém a desigualdade, em contraposição às propostas fragmentadas da parcela da sociedade que gravita em torno dos serviços e está nas ruas, explica o economista da Unicamp na entrevista a seguir.

Como a terceirização cresceu?

Marcio Pochmann: No fim dos anos 1980, início dos 1990, da recessão do governo Collor e da abertura comercial, expuseram o parque produtivo brasileiro à competição internacional sem condições adequadas. Isso culminou em uma reação dos empresários para reduzir custos. A terceirização permitia às empresas concentrar-se nas atividades finalísticas e repassar as atividades-meio, fugindo do modelo fordista em que a empresa fazia tudo. Esse era o discurso que veio de fora. 


A terceirização, segundo as empresas, aumenta a produtividade.

A terceirização aumentou muito com a desregulamentação dos anos 1990, do governo Fernando Henrique basicamente como mecanismo de redução de custos e precarização do trabalho. Nesse período, o País não teve ganhos de produtividade. A partir do ano 2000, com o ambiente econômico mais favorável, houve uma ampliação do setor produtivo, com empregos não terceirizados entramos em um ambiente de quase pleno emprego nos melhores momentos.

A recessão estimula a terceirização?

Ela voltou a ganhar espaço no ambiente recessivo, de forte pressão sobre os custos das empresas. O projeto aprovado na Câmara e agora à disposição dos senadores é o inverso do defendido por juristas, especialistas, trabalhadores e sindicatos, de regular a atividade terceirizada de modo a comprometê-la com o ganho da produtividade em vez da redução de custos. A legislação em tramitação não é para os terceirizados, é para universalizar os não terceirizados. 

Como vê essa perspectiva?

Associo a universalização da terceirização ao processo de uberização da força de trabalho no Brasil. A ideia do serviço de táxi desregulamentado do Uber é inviabilizar impostos e tributos. O governo está preocupado com fundos públicos para financiar a Previdência, mas a terceirização certamente vai implicar menos arrecadação para o Estado. É coerente com a proposta de relação direta entre patrão e empregado. Descarta-se o sindicato, não há regulação. É uma volta ao século 19. 

Quais seriam as perspectivas?

Vivemos uma fase de reavaliação do projeto de redemocratização do Brasil dos anos 1980. Acreditávamos que a democracia poderia ser uma possibilidade de mudança, mas ela não permite isso, toda conquista vai por água abaixo. De 1981 a 2016, a economia brasileira cresceu 2% ao ano em média. Isso dá 0,6% per capita. Estamos num ciclo de decadência da industrialização, que começou nos anos 1980. Hoje a indústria representa 7% do PIB. É uma fase longa de decadência econômica, mas também política, dos valores culturais, dos relacionamentos, das instituições, algo muito maior. Olhamos o curto prazo, o cotidiano, mas há um movimento maior nisso. 

Que movimento seria esse?

Os partidos e os sindicatos são vinculados ao mundo industrial, mas estamos numa sociedade de serviços, onde há quase o mesmo tipo de relação existente na sociedade agrária, sem laços. A situação não propicia compromissos de médio e longo prazo. É uma sociedade gelatinosa, não converge para absolutamente nada. Veja o exemplo de Campinas, que teve uma base industrial operária. Hoje, 21% do emprego da classe trabalhadora está ligado a dez shopping centers. É o mundo dos serviços.

Reúne o trabalhador não empregado, mas parceiro ou sócio, que ganha em razão das vendas. Os assalariados da faxina, limpeza, segurança e manutenção. Os vendedores das lojas de grife, do MacDonald’s, dos cinemas. Não tem nada que os una, circulam sob o mesmo teto sem diálogo, não são companheiros, não são colegas. O shopping é uma agregação de empreendimentos sem identidade. É a situação pós-moderna, de fragmentação socioeconômica. Muito diferente da situação da fábrica. Os trabalhadores não se conhecem, mas há ali a figura do dono ou do diretor-geral, que define o salário.

Qual seria a alternativa?

Estamos diante de uma crise de projeto da sociedade brasileira. Há o caminho da elite dirigente, proveniente de um projeto do passado, primário-exportador. A fração nova dessa elite está em parte do Centro-Oeste e do interior do Nordeste, onde se localiza boa parte dos 30% dos municípios brasileiros que cresce mais de 7% ao ano por causa do agronegócio. Essa elite não existia até os anos 1980, é resultado das opções que o País fez, do ajuste exportador, da valorização cambial, do investimento público nas pesquisas da Embrapa. Há um êxito aí, mas aponta para um rumo que não é o de uma nação desenvolvida, mas o de um Brasil que reproduzirá as desigualdades.

É um projeto que não gera riqueza suficiente para repartir de forma digna, justa. Em contrapartida, há o outro lado do País, urbano e dependente dos serviços. Aí existe a possibilidade de formação de outra maioria, que não se identifica hoje com partidos e sindicatos, depende da eficiência do Estado e quer serviços decentes e ética na política. Esse pessoal está nas ruas, tem uma crítica e se manifesta, mas isso não resulta em liderança, proposições, numa instituição que possa dar conta dessa realidade. Não consegue convergir para um projeto. Há, portanto, o embate desses dois projetos, em disputa para superar o modelo velho, que está em crise.


domingo, 25 de setembro de 2016

Memórias do cárcere




Incluir na "ESTANTE"

Por Marcelo Freixo 


Costumo dizer que os presídios são nossos centros de amnésia. No interior de seus muros, entulhamos o que desejamos esquecer. Nesse psiquismo carcerário, tentamos enjaular nossas desumanidades, contradições e sadismos.


A memória não é constituída apenas pelas lembranças mas também pelos esquecimentos. Esquecer-se pode ser uma escolha, um ato político. Esse esforço de memória seletiva explica o motivo de os 23 anos do massacre do Carandiru, ocorrido em 2 de outubro de 1992, não serem devidamente lembrados.

Na canção “Haiti”, Caetano Veloso escarneceu o silêncio sorridente diante do massacre de 111 presos indefesos, quase todos pretos ou quase brancos quase pretos de tão pobres. Já no interior dos muros, o efeito da chacina foi bem diferente do riso silencioso.

O massacre foi um divisor de águas dentro do sistema penitenciário brasileiro. Acompanhei isso de perto porque à época tinha 25 anos, cursava História e trabalhava como professor voluntário num presídio em Niterói.

O projeto tinha uma turma para alfabetização de adultos e duas para quem não concluíra o ensino fundamental. Não havia alunos com o segundo grau completo. Alguns anos depois, presidi o Conselho da Comunidade, responsável por fiscalizar as prisões.

Essas experiências me fizeram ser chamado para mediar várias rebeliões, que se multiplicavam devido ao colapso das penitenciárias do Rio. Em todas era possível sentir a herança do Carandiru. As negociações se tornaram mais tensas. Os detentos passaram a fazer reféns por acreditarem que assim poderiam evitar um novo massacre. O Carandiru agravou a cultura violenta nas prisões.

Vinte e três anos se passaram, tragédias se repetiram e nós não conseguimos discutir seriamente o papel do sistema penitenciário. Ainda é difícil mostrar o óbvio: a violência nas cadeias alimenta a violência fora delas. Nossas prisões são lugares muito caros para tornar as pessoas piores.

Punimos muito e mal. A população carcerária brasileira cresceu 317% entre 1992 e 2013. São 600 mil detentos, quase 40% deles ainda não foram julgados. Mesmo assim, muita gente insiste que somos o país da impunidade e pede o endurecimento penal. Isso só ocorre porque condenamos principalmente os invisíveis, pretos ou quase brancos quase pretos de tão pobres. As prisões têm cor e classe.

Certa vez, depois de negociar por dois dias o fim de uma rebelião em Bangu, um preso me disse: “Tem uma coisa que o senhor precisa entender. As prisões são pedaços das favelas. É por isso que as coisas acontecem assim aqui e lá”. A música de Caetano é certeira. A exclusão não começa no sistema prisional, ele apenas a consolida.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelo-freixo/2015/10/1693227-memorias-do-carcere.shtml


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A desigualdade e a educação depois do golpe


Por Otaviano Helene  


Durante duas décadas, entre 1980 e 2000, o Brasil disputou as piores posições no quesito concentração de renda. Os demais países nessa macabra disputa eram Honduras, África do Sul, Chile e Paraguai, entre alguns outros poucos, todos conhecidos por suas histórias não democráticas e de grande violência institucional. Por volta de 1990, o Brasil chegou a ser o país com a pior distribuição de renda entre todos aqueles para os quais havia informações disponíveis. Essa lamentável situação foi resultado da combinação da longa história brasileira de exclusão e segregação, do projeto imposto pela ditadura militar e da consequente crise econômica que se seguiu após seu fim.

Embora na última década e meia tenha havido uma melhora na distribuição de renda no Brasil, como estávamos em uma situação muitíssimo ruim e essa melhora foi muito tímida e baseada em instrumentos de abrangência limitada, ainda estamos entre os dez ou doze países mais desiguais do mundo e, claro, em péssima companhia.

Pelo desejo daqueles partidos e setores sociais que usurparam e apoiaram a usurpação da presidência da República, o Brasil deve retroceder no que diz respeito à distribuição de renda; afinal, quando as políticas que esses partidos e setores defendem estavam em pleno vigor no país, nossa desigualdade era maior e não mostrava tendências de melhoria sistemática, como ilustra a figura.



Ser um dos países mais desiguais do mundo não é coisa pouco grave, pois uma boa distribuição de renda é condição sine qua non para se construir um país democrático, soberano e desenvolvido e garantir a todos uma boa qualidade de vida (1). Se ao final do período ditatorial pudemos ter o sonho de que em algumas décadas conseguiríamos construir tal país, os últimos 30 anos e o recente golpe mostram que falta muita luta para que esse sonho possa se realizar.

A educação é uma condicionante

A educação básica poderia – e deveria – ser um instrumento para enfrentar a desigualdade e contribuir para a construção de um país mais agradável no futuro. Entretanto, no Brasil, isso não acontece. Ao contrário: o sistema educacional atua exatamente de forma a reproduzir em seu funcionamento as desigualdades econômicas e sociais.

As escolas dos mais pobres são muito piores do que as escolas dos mais ricos; seus professores têm condições de trabalho muito mais precárias; a quantidade de anos de estudo dos estudantes economicamente mais desfavorecidos é muito menor do que a de seus colegas mais ricos. A educação formal das crianças mais pobres começa em uma idade avançada, termina cedo e se restringe a poucas horas diárias de atividade escolar, inexistindo recursos extraescolares, como aulas particulares, atividade esportiva orientada, acompanhamento psicológico, cursos de línguas, viagens culturais etc., coisa comum nos segmentos mais favorecidos.

O valor monetário do investimento educacional em favor dos mais pobres e dos mais ricos dá uma ideia de quão desigual é a educação desses dois grupos. Os investimentos educacionais na educação de uma criança ou jovem pertencente ao contingente formado pela terça parte mais pobre pode não chegar aos trinta mil reais ao longo de toda a vida, ficando, não raramente, ainda bem abaixo disso. No outro extremo, entre os mais ricos, esses investimentos superam, e não raramente em muito, os 500 mil reais.

O fator de discriminação e exclusão dessa diferença educacional é enorme, como revelam, por exemplo, os resultados do ENEM, exame que se tornou um vestibular nacional e serve de porta ou de barreira para o futuro: não há uma única escola classificada entre as de nível socioeconômico baixo ou muito baixo pelo INEP (padrão que engloba a maioria da população brasileira), cujos estudantes tenham tido um desempenho equivalente à média observada nas escolas classificadas como de nível socioeconômico muito alto.

Se, além disso, considerarmos que entre os contingentes classificados como tendo nível socioeconômico baixo ou muito baixo, concluir o ensino médio é uma rara exceção, vemos o poder discriminador e excludente do nosso sistema educacional. Ou seja, não há nenhuma chance – a menos das raríssimas exceções individuais – que uma criança que faça parte da metade mais pobre da população tenha sucesso em sua vida escolar (2).

Com essas características, o sistema educacional brasileiro reproduz a desigualdade atual e constrói as bases para a desigualdade futura, não deixando sequer uma fresta ou um atalho para sua superação.

Triste conclusão

Considerando os perfis ideológicos daqueles que assumiram a presidência da República, por que e de que forma o fizeram, sem que sejam intensificadas as lutas em defesa da democracia, não pode haver nenhuma esperança de superação das desigualdades nacionais, inclusive no sistema educacional. Demonstrações de como esses setores veem o sistema educacional têm surgido de forma cada vez mais frequente.

Exemplos não faltam. O projeto “escola sem partido” e a forma violenta que seus defensores utilizam para defendê-lo; a posição do secretário de estadual de educação pública paulista, que é contra a educação pública paulista (!), pois entende que apenas segurança e justiça devem ser funções do Estado, sendo que “tudo o mais (educação inclusive), deveria ser providenciado pelos particulares”; a PEC 241, que impede que os gastos públicos – origem dos recursos para a educação pública – cresçam além da inflação, quando as necessidades de recursos crescem não apenas com a inflação, mas, também, com o crescimento da população, com o crescimento das exigências educacionais e com o crescimento do PIB, são apenas alguns exemplos recentes do que pode vir por aí.

Os discursos “dinheiro tem, o problema é a gestão”, “só poderemos aumentar os recursos para a educação pública quando acabar com a corrupção” (este, repetido inclusive por aqueles que participam alegremente das formas mais sórdidos de corrupção, entre elas a sonegação de impostos e de contribuições sociais); “se acabar com o desperdício, a educação pública melhorará”; “dinheiro, tem, o problema é que está mal distribuído”, entre outros do mesmo tipo, tão comuns em passado recente e que não haviam desaparecido de todo, voltarão.

A menos que haja uma mobilização suficientemente intensa na defesa da educação pública, da superação das desigualdades e no enfrentamento dos usurpadores da democracia.

Notas:

1) Sobre a dependência dos indicadores de bem estar social com a desigualdade na distribuição de renda, ver, por exemplo, o vídeo “como a desigualdade econômica prejudica as sociedades”, um TED Talk apresentado pelo professor Richard Wilkinson, acessível em https://www.youtube.com/watch?v=BJkH89aCDo4

2) É necessário lembrar que os trabalhadores que fazem parte da metade mais pobre da população recebem da ordem de um salário mínimo ou menos por mês e que a renda domiciliar per capita nesse setor é inferior a cerca de R$ 500 por mês; a renda familiar per capita da quarta parte mais pobre da população é inferior a cerca de cem reais por mês.


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Não existe neutralidade na educação


Por Nei Alberto Pies


Afirmações fundamentalistas e simplistas tendem constituir falsas verdades. Caso típico das absurdas afirmações dos que defendem as ideias de uma "escola sem partido”. O viés do debate que se coloca deve ser mesmo pela afirmação das diferentes ideologias, mesmo daqueles que imaginam ser possível existir neutralidade na educação, dizendo ser possível "uma escola sem partido”. Eles também agem por ideologia.

Verdade é que não existe a possibilidade de uma educação neutra. Os diferentes conhecimentos sempre se apresentam permeados por diferentes ideologias. Mesmo quando tratamos de métodos, estes nunca são isentos de ideologia. As ideologias são as diferentes ideias que estão em permanente disputa na sociedade. Quando se tornam fortes, chamamos as mesmas de ideologias dominantes. Se as ideologias estão na sociedade, como não estarão na escola? A escola nunca foi e nunca será uma redoma de vidro; sempre será o reflexo e espelho da sociedade.

A educação sempre acontece em dois movimentos: ou para manter o "status quo”, deixando tudo como está ou ser uma ferramenta de emancipação humana, afirmação das liberdades e transformação da realidade. Pelas ideias que defendemos e pelas atitudes que tomamos podemos ser avaliados como liberais ou conservadores, libertários ou opressores, democráticos ou autoritários.

A alegação de que professores das escolas da rede de ensino fundamental e de ensino médio fazem doutrinação política-ideológica carece de qualquer fundamento. Pois, vejamos. Os professores sempre exercem certa influência sobre seus alunos, mas jamais a ponto de doutrina-los. O poder da educação é muito mais relativo do que imaginamos. Paulo Freire, nosso grande pedagogo brasileiro, entendeu o papel da educação: "a educação não muda o mundo. A educação muda pessoas e as pessoas (se quiserem)mudam o mundo”. O discernimento e o conhecimento dos alunos, com tantas outras informações e vivências, jamais os coloca na condição de doutrinados. Quem acha que os jovens estão perdidos é porque não fez nenhuma visita aos estudantes que ousaram ocupar suas próprias escolas.

O alvo deste movimento da "escola sem partido” parece mesmo ser o ataque à dignidade, reputação e liberdade de cátedra dos professores. Uma espécie de ditadura institucionalizada, agora com força em leis e regimentos. Uma forma de mudar radicalmente a escola que afirmamos e construímos nos últimos 30 anos, com fundamentos reformistas e progressistas, sem perguntar nada aos maiores interessados: os professores, os alunos e a comunidade escolar como um todo (pais, mães, funcionários, comunidade geral). Com que segurança trabalharão os professores sabendo que, a qualquer hora, por motivos adversos e alheios ao seu controle, terão de explicar e justificar a forma e o conteúdo que estão trabalhando nas salas de aula? Com que método trabalharão? Como abordarão os temas sociais não previstos como violência, drogas, sexualidade, construção de relações de solidariedade e paz e direitos humanos? Ainda haverá a possibilidade de escolher livros didáticos (mais de um livro didático já trará problemas ideológicos). O que apresentarão de conteúdo aos estudantes sempre terá que ter fonte e autoria, mas o que fazer quando os estudantes perguntarem pela opinião do professor? Em caso de dúvidas sobre a neutralidade ou não dos conteúdos, a que instâncias o professor recorrerá? Serão proibidos o uso de anéis, de símbolos ou adereços religiosos no corpo e nas vestimentas dos professores? Ainda será possível assumir-se professor e educador? O que faremos com nossos Projetos Políticos e Pedagógicos e com Regimentos Escolares que descrevem o que desejamos construir, através da educação, como ser humano, como sociedade e como escola num viés crítico, emancipatório e libertário (mesmo que na prática ainda tenhamos dificuldades de realizar práticas democráticas e emancipatórias na escola)?

O político na educação não é o ideológico-partidário. O político na educação refere-se sempre às ações e intervenções na sociedade, ou seja, possibilidades de mudança concreta na vida das pessoas. Por isso, talvez, ninguém fale sobre o verdadeiro temor dos defensores desta absurda ideia de controlar a escola pública, para que ela não tenha qualidade social. "Quando se nasce pobre, estudar é o maior ato de rebeldia contra o sistema”. No atual momento histórico, os pobres, os filhos de trabalhadores ousaram formar-se na faculdade. Aí, bem, aí já é demais, não acham?

A defesa da democracia e da liberdade de expressão de todos são os maiores contra-argumentos da "escola sem partido”. Os fundamentalistas, que se dizem sem ideologia, não passarão! Nós, os professores, com liberdade para ensinar, "passarinhos”.

A escola tem de ser um lugar de livre pensamento! Não existem soluções para a coletividade fora da democracia e da política.


Nei Alberto Pies é Professor de rede municipal e estadual. Ativista de direitos humanos


FONTE: ADITAL

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Partidos, pragmatismos e ideologias



Por Nei Alberto Pies


O pragmatismo está mesmo matando a essência da política: a construção do bem comum.

Nas últimas décadas, aprendemos fazer política através dos partidos. Fundamos e construímos partidos como ferramentas de mudança e transformação social.

Hoje, os partidos no Brasil não fazem mais alianças programáticas e ideológicas, mas somente acordos de interesses pela tomada do poder, o que empobrece a política e a torna um grande balcão de negócios e de interesses. O pragmatismo não concebe mais a construção de um capital social ou a manutenção deste junto aos eleitores. O pragmatismo impõe-se para sufocar a diversidade dos pensamentos. O pragmatismo opera resultados, não importando-se com os processos.

O que acontece em Brasília reproduz-se, em larga escala, em nossos municípios. Surgem então, perguntas emblemáticas: a) Os partidos perderam sua função de organizar propostas e programas para governar nossas cidades? b) É possível fazer política fora dos partidos? c) Será agora a grande mídia, o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal que darão os ordenamentos jurídicos, organizativos e políticos da política?

As circunstâncias do momento histórico colocam em cheque quase tudo o que aprendemos sobre política e organização social. Desaprendemos fazer política? Desconsideraremos, por definitivo, as mentes críticas, as organizações e movimentos sociais, os lutadores que ainda estão a fim de organizar a sociedade com base na cidadania, nos direitos humanos e sociais, nas oportunidades de estudo, cultura e trabalho para todos?

Fato é que, fora da política não há soluções que promovam a liberdade e a democracia. Fora da política reina a ditadura. Antes tarde que mais tarde, resistamos pelas práticas democráticas que nos permitiram experimentar uma cidadania com mais oportunidades para todos e a construção de cidades que respeitem as vontades e a necessidades dos seus habitantes. As cidades não podem ser concebidas como reinados; elas devem conceber o debate, a pluralidade e a prática cotidiana da democracia.

As práticas sociais e políticas sempre devem ser construídas com a baliza dos méritos e métodos. Democracia é poder do povo e deve ser exercida todos os dias, em todas as instâncias e respeitando todas as ideologias.



Nei Alberto Pies
Professor de rede municipal e estadual. Ativista de direitos humanos


FONTE: Adital

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Porque sou candidato a vereador do Recife


Por Aluizio Moreira



Professor universitário, atuei na politica desde estudante do ensino médio militando nos quadros do PCB, passando pela universidade, pelo exercício da docência, até meu afastamento da política partidária em 1988. Hoje, com muita honra, o Partido me convocou, mais uma vez à luta, lançando minha candidatura a uma vaga na Câmara Municipal  da cidade do Recife.

Longe de ser um projeto pessoal, sou candidato a vereador porque como grande parte da população do meu país, do meu Estado, do meu município, cansamos da velha forma de fazer politica, ouvindo promessas não cumpridas. que vão da melhoria do sistema de esgotos e calçamento de ruas, à melhoria da educação e da saúde. 

Somos convocados sempre para escolher senadores, deputados, prefeitos e vereadores, e nada acontece, a não ser perda dos direitos de quem trabalha, de quem se aposenta. Continuamos mendigando saúde para todos, educação para todos, segurança para todos, melhoria das condições de vida, e continuamos sem perspectiva de futuro, pois a elite no poder, a serviço do capital, sempre cria obstáculos, promove retrocessos a cada conquista que o povo alcance, seja através dos poderes constituídos, seja através de golpes de todos os matizes (civil, militar e político-parlamentar)

Precisamos de mudanças efetivas que jamais virão por iniciativa do Governo. As mudanças só acontecerão com o povo organizado nas suas comunidades, nas suas associações, nas suas universidades, no seu trabalho, nos seus sindicatos, nos seus bairros, ou seja, o Brasil só será um país de todos quando conquistar o Poder Popular, rumo ao socialismo.

Pretendo transformar meu mandato, abrindo as portas da Câmara para todos os cidadãos do meu município, mas também indo ao encontro do cidadão nas comunidades, nas associações, nos sindicatos, nos bairros.

Clamo todos homens e mulheres que fazem parte da população do Recife, de qualquer credo político ou religioso, de qualquer classe ou camada social, sem distinção de raça, de cor, de opção sexual, a exercerem o voto com a  perspectiva de mudança de rumos para este município, este Estado, este País, não apenas mudando  os homens e os partidos que eternamente se revezam no poder, mas mudando os programas de governo, os modos de gestão priorizando os trabalhadores, os menos favorecidos e os excluídos.

Isto tudo não é tarefa para uma pessoa só. As mudanças estão nas mãos de todos nós, do Povo trabalhador organizado e com certeza a verdadeira democracia, vai muito além do depósito do voto numa urna, passa também, pelo exercício pleno da verdadeira cidadania. 

A verdadeira democracia não está no Poder que como eleitores, delegamos aos outros, mas no Poder que construiremos todos nós, juntos: do apanhador de papelão e resíduos sólidos ao operário, aos trabalhadores rurais, aos sem terras, aos sem tetos, às minorias excluídas, à intelectualidade deste País.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Olimpíadas 2016: O desporto é o que menos importa


Por  Mauro Iasi*     


Os Jogos Olimpicos do Rio de Janeiro não cumpriram as metas fixadas pelo Comité Olímpico.
Para poupar energia a pira Olímpica foi muito menor do que o previsto.O tratamento do esgoto lançado na Baia da Guanabara não atingiu metade da meta estabelecida. As obras de limpeza dos rios da bacia de Jacarepagua foram paralisadas em 2015, apesar de a empresa responsável ter recebido 235 milhões de reais. Mais de 77000 pessoas foram desalojadas das suas residências para criar terrenos destinados a futura especulação imobiliária. Não obstante a mobilização de 85000 policias, a segurança das delegações funcionou muito mal. Muitos atletas foram assaltados e roubados dentro e fora da Vila Olímpica.-O desporto, como lembra Mauro Iasi, foi no Rio16 o que menos importou aos organizadores.
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Um pouquinho, sinhá, só um pouquinho. Uma parte não se mostra naquilo que se apresenta como imagem ideológica. Seleciona-se, assim como os atletas em busca do índice olímpico, aquilo que aparecerá na imagem refletida do real.

Este é um Brasil que canta e é feliz, este é um país em que uma menina negra da favela chega ao ouro, este é um país que se esforça muito, luta diariamente vencendo obstáculos. Este é um Brasil, no entanto, que canta porque é triste, no qual crianças negras são abatidas a tiros nas favelas, em que os juízes saem para jantar com os vencedores, um país em que se trabalha muito e se ganha pouco enquanto poucos ficam com quase tudo. Como nas Olimpíadas.

Como em toda imagem ideológica, as Olimpíadas também mostram e demonstram muito naquilo que escondem. Não é uma mera falsidade, pura manipulação. Isto aqui, sinhô, é bastante do Brasil. Os jogos são um funil seletivo no qual passam apenas os melhores entre os melhores, os campeões, os semideuses olímpicos, que disputam poucos lugares no pódio e só um pode ser de ouro. A livre concorrência entre indivíduos desiguais em condições, igualados pelas regras comuns da disputa. Iguais em direito, desiguais de fato. Indivíduos, heróicos, enfrentando dificuldades até alcançar os louros da vitória.

Mas, isso é o óbvio. Uma outra dimensão se insinua de forma mais sub-reptícia. Há vagas especiais para aqueles que não atingiram os índices, para que todos os países participem como convidados, há equipes para abrigar os refugiados e, depois, há as Paraolimpíadas. Todos os círculos, de todas as cores, se irmanam num abraço como as argolas do mágico que com perícia esconde o truque. A mensagem para o mundo é a importância de cuidar da natureza e do equilíbrio ambiental, a paz mundial, assim como a importância da educação e do cuidado com as crianças.

Vejam, não há nada de errado neste discurso, assim como não há nada de errado nos jogos, na emoção da disputa, no reconhecimento do esforço dos atletas, na beleza dos esportes. A dimensão ideológica atua em outra dimensão que exige um pouco de distanciamento.

Os jogos que defendem o equilíbrio ambiental, por exemplo, não cumpriram com suas metas. Fizeram uma Pira Olímpica menor, para economizar energia, mas na conta da compensação de carbono resta um déficit de 31% por conta do replantio insuficiente de mudas em relação a emissão de gases associados às obras para receber o evento. O esgoto jogado na Baía da Guanabara, cuja promessa seria tratar 80%, não chegou nem à metade da meta. A limpeza e canalização dos rios da bacia de Jacarepaguá, segundo os dados da “Jornada de lutas: Jogos da Exclusão”, tiveram suas obras paralisadas no final de 2015, com um ano de atraso no prazo previsto, e sem nenhum resultado, apesar das empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia terem abocanhado a bagatela de R$ 235 milhões pelas obras.

Enquanto se festeja a inclusividade dos jogos, a generosa inclusão de nações sem índice olímpico ou a oportunidade para refugiados (alguns vindos de países que foram bombardeados pelas nações européias que depois se negaram a recebê-los em seus territórios), os megaeventos desalojaram mais de 77 mil pessoas desde 2009. No Rio de Janeiro, inúmeras famílias foram desalojadas na Vila Autodromo, Vila Recreio II, favela Metro Mangueira, Vila Harmonia e outras muitas apenas para criar terrenos vazios para a futura especulação imobiliária.

Pombinhas de papel simbolizam a paz no mundo e a cidade é tomada pelo exército e a polícia. A ocupação na Maré, durante a copa do mundo em 2015, consumiu R$ 599 milhões em 15 meses. Os organizadores dos “Jogos da Exclusão” estimam que entre 2010 e 2016 a prefeitura do Rio investiu R$ 303 milhões em programas sociais em todas as favelas da cidade. O conjunto dos gastos com segurança podem chegar aos 3 bilhões de reais. Os assassinatos cometidos por policiais cresceram 135% em um ano.

Pessoas são retiradas dos estádios por expressar sua posição contra o governo ilegítimo instalado em Brasília e uma lei da mordaça cai sobre os atletas. Enquanto os fogos iluminavam a noite da cidade, a policia descia a porrada nos manifestantes em outro canto.

Mas, o que o esporte tem a ver com tudo isso? Ele não é o culpado pelas razões que levam aos meus queixumes políticos, nem com a ganância das grandes empresas que esfolam mercantilisticamente o evento. Essa é uma questão difícil.

Atletas treinam muito e com dedicação, uns com mais apoio, outros sem nenhum, mas o que importa é que neles podemos ver, algumas vezes, isso que um certo Barão, Pierre de Coubertin, chamou de “espírito olímpico”. E isso é muito bom de se assistir e deve ser ainda mais legal participar. Mas, pesa como maldição de todo “espírito” habitar um “corpo”, objetivar-se e, em certas condições, estranhar-se. A materialidade olímpica é a intensa utilização desse valor de uso para servir de base para o seu valor de troca. Sua transformação em mercadoria, sua mercantilização intensa, independe das formas próprias de seu valor de uso e muito menos das intenções de seus protagonistas, aliás como em todo processo de produção de mercadorias.

O esporte é o que menos importa. O Ministério do Esporte, que quase nunca usa a verba que lhe é atribuída, disponibilizou cerca de 190 milhões para bolsas para aqueles que alcançam índices e podem disputar vagas no esporte de competição. É quase o valor pelo qual o Maracanã foi vendido, cerca de 180 milhões a serem pagos em 30 anos, apesar das obras terem chegado ao estratosférico valor de 1,34 bilhão. Programas de massificação do desporto, formação, estruturas de qualidade, como sempre são abandonados e seus recursos mínguam.

Ao final, as medalhas distribuídas, os lucros das empreiteiras, dos conglomerados de comunicação, dos monopólios envolvidos contabilizados, nossa emoção catártica realizada, a cidade voltará ao seu “normal”. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro seguirá sua crise, os professores do ensino fundamental seguirão com seus salários atrasados, as carcaças de estruturas descartáveis apodrecerão como testemunhas silenciosas do desperdício e da ostentação.

Ai sinhô, ai, ai, sinhá… tem mais uma coisa que está aqui e vai seguir depois:
É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça ai, ai
E não se entrega não.

(Publicado no Blog da Editora Boimtempo em 10 de Agosto de 2016)


*Mauro Iasi é escritor, dirigente do Partido Comunista Brasileiro e foi candidato à Presidência da República


FONTE: ODiario.info

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