sexta-feira, 8 de outubro de 2021
domingo, 19 de setembro de 2021
Paulo Freire, 100: Em busca de outra autoridade pedagógica
No centenário do educador brasileiro, um convite
para repensar o papel do mestre. Em vez de lógicas disciplinantes, uma educação
libertadora requer também outra gramática de poder, que promova o diálogo e a
construção coletiva
Por Roberto Rafael Dias da Silva
Escrever sobre o centenário de Paulo Freire,
considerando minha formação em Pedagogia e meu envolvimento com as questões
educacionais, apresentou-se para mim nas últimas semanas como uma tarefa
inadiável. Freire ocupa um espaço fundamental em nossas prateleiras; não
somente pela difusão internacional de seu pensamento, mas também pela
necessidade de produzir conhecimento em Educação colocando-o em nosso horizonte
de reflexões. Justapondo-se ao seu pensamento, refutando suas hipóteses ou
reelaborando seu repertório de indagações, as últimas gerações de educadores
precisaram colocar o pensamento freiriano em permanente reflexão. Há que se
reconhecer também – e isto ainda é um aspecto bem significativo – o quanto suas
obras são recorrentemente mencionadas e cada vez menos estudadas. Ou ainda,
como destacou o professor Flávio Brayner, no campo educacional construímos
certo culto à personalidade do mestre, acompanhado de uma gradativa
institucionalização de sua obra.
Reconheço a crítica realizada pelo professor
Brayner e tais argumentos servirão de balizas intelectuais para a reflexão que
farei neste texto. Isto é, sob o ethos do pensamento
freiriano, evitarei uma posição de fidelidade para colocar em debate um aspecto
que considero central nas obras do pedagogo brasileiro, qual seja: o
redimensionamento da autoridade educativa. Certamente podemos
ingressar no grande conjunto de suas obras por caminhos variados, considerando
o alargado percurso de estudos elaborado por Freire e seus comentadores.
Escolho examinar – e defender – uma concepção de autoridade que se deriva do
repertório de estudos freirianos e que, contemporaneamente, ainda nos permite
caracterizar um modo de relação pedagógica em nosso país.
A publicação da Pedagogia do Oprimido,
no contexto das tensões políticas experienciadas na América Latina na década de
1960, atribuiu visibilidade para questões que respondiam aos desafios
educativos de nosso continente. A crítica da educação bancária – centrada no
professor e em sua necessidade de transmitir conteúdos – bem como o advento de
uma educação problematizadora – baseada no diálogo, na inconclusão dos seres
humanos e nos temas geradores derivados de sua condição existencial – renovaram
a pedagogia latino-americana. O contexto das lutas democráticas, as demandas
pelo enfrentamento das desigualdades e a difusão da teologia da libertação
serviam de contexto para a emergência de um novo léxico para delinear a
formação humana.
Alvo de inúmeras controvérsias, a relação
educando-educador proposta na obra de Freire ainda é o tema que mais me instiga
a considerar em minhas elaborações educativas. “Ninguém educa ninguém”, “o
diálogo começa na busca do conteúdo programático” ou “os homens se libertam em
comunhão” são expressões que – ainda que muito repetidas (a ponto de quase se
tornarem clichês, como lembra Brayner) – recolocam em debate a temática da
autoridade daquele que educa. Teria Freire abdicado da defesa do ensino e do
lugar do mestre? Teria Freire fabricado um educador com vocação política e
pouco compromisso com a qualidade do ensino? Sua pedagogia foi incapaz de
tornar-se efetiva, ficando circunscrita a modelos alternativos e pedagogias
populares? Irei responder de forma negativa a todas essas indagações, uma vez
que Freire – com uma perspectiva humanista – permite-nos recolocar em debate a
controversa questão da autoridade.
Richard Sennett na obra Autoridade,
publicada originalmente no ano de 1980, auxilia-nos a pensar sobre os laços
afetivos das sociedades modernas. Tais laços afetivos têm consequências
políticas e a autoridade é uma dessas expressões emocionais do poder.
Considerando a ambiguidade destes laços, bem como a dimensão contextual
referente aos modos pelos quais cada sociedade constrói seus vínculos, vamos
reconhecendo que a partir das mutações culturais da década de 1960 somos
desafiados a pensar sobre a autoridade. No contexto pós-guerra e das variadas
ditaduras que ocorreram no século XX, importante destacar que se consolidou uma
espécie de medo ou negação da autoridade.
As imagens modernas acerca do exercício da
autoridade supõem o uso da força, a capacidade de guiar os outros, os modos de
disciplinar ou a capacidade superior de julgamento, como bem descreveu Richard
Sennett. A autoridade, enfim, remete-se a uma força sólida, um refúgio para
nossa proteção ou um guia que nos coloque no melhor caminho. Mais que um mero
exercício de poder, a autoridade é um processo de tradução social (e subjetiva)
das práticas de governo. Podemos aderir ou rejeitar, obedecer ou transgredir,
defender ou substituir tais práticas, como é de nosso conhecimento. Importante
destacar que todas essas características ou dimensões poderiam ser atribuídas
ao professor, pelo menos em sua forma engendrada na Modernidade.
Com a consolidação dos regimes democráticos, no
final do século XX, a questão da autoridade é retomada; desta vez buscando
sinalizar para o seu reconhecimento na vida pública. Relendo alguns clássicos
do pensamento social, Sennett defenderá na obra mencionada que as figuras
públicas da autoridade precisam ser legíveis e visíveis. Isto é, “os cidadãos
devem ler juntos, devem observar a situação da sociedade e discuti-la entre
si”. Neste momento, julgo oportuno voltar a Freire e reconhecer a
potencialidade política de sua definição da autoridade pedagógica, uma
definição enraizada nas lutas educativas de nosso continente.
“Ninguém educa ninguém” pode ser interpretada como
um ideal democrático da escola brasileira, na medida em que nossos modos de
autoridade sejam legíveis e visíveis. Com Freire encontramos uma redefinição do
papel do mestre e não o seu esmaecimento como sinalizam alguns filósofos
contemporâneos. Nas palavras do pedagogo, “educador e educando (liderança e
massas), co-intencionados à realidade, se encontram numa tarefa em que ambos
são sujeitos no ato, não só de desvelá-la e, assim, criticamente conhecê-la,
mas também no de recriar este conhecimento”. Sem vincular-me ao culto à
personalidade – aspecto destacado por Brayner que procurei evitar – reconheço
que os escritos freirianos trouxeram importantes contribuições para um
redimensionamento da autoridade pedagógica. A busca por construir uma escola democrática,
capaz de enfrentar as condições desiguais da América Latina, continua sendo
nosso desafio e para isso Freire seguirá sendo um interlocutor fundamental.
Acompanhados da potencialidade de seu pensamento, ainda precisamos reinscrever
a aprendizagem para nossas crianças e jovens em uma gramática mais aberta e
plural.
_____________
Referências:
BRAYNER,
Flávio. Para além da educação popular. Campinas: Mercado de Letras,
2018.
SENNETT,
Richard. Autoridade. 2a ed. Rio de Janeiro: Record,
2012.
SILVA,
Roberto Rafael Dias da. Sennett & a Educação. Belo Horizonte:
Autêntica, 2015.
FONTE: Outras Palavras
sábado, 11 de setembro de 2021
E o 11 de setembro chileno?
Por Aluizio Moreira
Data
fatídica essa do 11 de setembro! O Chile tambem teve o seu 11 de setembro.
Exatamente em 11 de setembro de 1973, tropas do exército chileno sob o comando do General Pinochet, bombardeavam o Palácio La Moneda em Santiago. O Presidente Salvador Allende, democraticamente eleito, que se encontrava reunido com membros do governo, fora ali mesmo morto, em circunstâncias ainda não esclarecidas (suicídio ou assassinato?). Iniciava-se uma das mais sangrentas ditaduras militares na America do Sul, que duraria 17 longos anos.
Cifras da ditadura: 3.197 vítimas. Dessas 1.197 pessoas desaparecidas.Cálculos mais otimistas, estimam 100 mil o número de torturados.Cerca de 500 mil presos políticos, exilados e exonerados.
Segundo Norbert Ahrens em artigo publicado no dia 10 do corrente na página Calendário Histórico da edição eletrônica do jornal alemão DEUTSCHE WELLE (1):
Em reunião no Salão Oval da Casa Branca, Agustin Edwards, proprietário do jornal El Mercurio, se reuniu com Nixon e com Kissinger, começando a planejar o golpe. Kissinger afirmou que era preciso “salvar o povo chileno das suas loucuras”. Essa articulação desembocou no golpe, na destruição da ditadura chilena e na instauração do regime mais feroz que o Chile conheceu. (2)
No dia 10 setembro de 2011, enquanto rendia-se tributo às vítimas do World Trade Center e a data desperta um grande movimento de comoção e solidariedade internacionais, no Chile, nesta mesma data, em cerimônia privada que reuniu familiares e amigos, aconteceu o traslado dos restos mortais do ex-Presidente Salvador Allende para o Mausoleu da família Allende Bussi.
Paralelamente, o Museo de La Memoria y los Derechos Humanos, preparou para o dia 11 a exibição de 2 mil fotografias dos mortos pela ditadura de Pinochet. Trata-se de “una homenje audiovisual para los hombres y mujeres muertos por la violencia de Estado entre El 11 de septiembre de 1973 y el 10 de marzo de 1990.”
Pouquíssimos órgãos de comunicação (impressa e/ou virtual) lembraram-se desse fato. Como esquecerão os milhares de mortos no Afeganistão e no Iraque.
________
(1) www.dw-world.de/dw/article/0,2144,319346,00.html Acesso em
10.Set.2011
(2) www.cartamaior.com.br/templates/blogMostrar.cfm?blog_id=1&alterarHomeAtual=1 Acesso
em 10.Set.2011
sábado, 4 de setembro de 2021
Bolsonaro e seus ministros erguem o túmulo da Educação
"O resultado tem sido o desmonte do setor, tocado por quem ultrapassa as fronteiras da mediocridade", analisa Gilvandro Filho, do Jornalistas pela
Por Gilvandro Filho, para
o Jornalistas pela Democracia
O governo Bolsonaro tem imposto
ao Brasil péssimos gestores públicos, nas mais diversas áreas. Mas, no que se
refere à Educação, as escolhas têm sido a dedo e os resultados, desastrosos.
Numa área básica da vida nacional, os quadros que têm aparecido são bizarros
exemplos do bolsonarismo mais atrasado e rasteiro. O resultado tem sido o
desmonte do setor, tocado por quem ultrapassa as fronteiras da mediocridade e entulhando a galeria de ex-secretários de nomes que, em um governo sério,
sequer seriam lembrados para o cargo.
Ao todo, entre os que chefiaram a pasta e os que foram sem nunca terem sido, cinco bolsonaristas de estirpe podem juntar aos seus currículos a passagem, mesmo que de raspão, pelo Ministério de Educação do governo que menos olhou para o setor na História. Metade deles foi parida da verve anticomunista, antiglobalista e terraplanista do “filósofo” e astrólogo amador Olavo de Carvalho, mentor da ala ideológica do governo e padrinhos escancarado de pelo dois ex-ministros, o colombiano Ricardo Velez Rodriguez e Abraham Weintraub, de sofrida memória.
Ricardo Velez, o primeiro ministro da Educação de Bolsonaro, cometeu um número tão grande de parlapatices, para seus três parcos meses de gestão, que acabou caindo. Destaque para o pedido que fez a professores para filmar os alunos cantando o Hino Nacional e recitando o slogan de Bolsonaro, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. O ridículo da ideia não a permitiu prosperar e ele pediu o boné logo depois.
Abraham Weintraub era mais perigoso e foi um dos mais ideológicos dos ministros de Bolsonaro. Caiu por excesso de confiança, pois às vezes pensava ser o próprio presidente da República. Colecionou palavras e atos polêmicos, alguns de cunho racista, todos nitidamente antidemocráticos. Na famosa reunião ministerial de 21 de abril de 2020 (a da “boiada” do ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles), foi autor da recomendação para prender os ministros do Supremo Tribunal Federal. "Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF", declarou, no encontro. Caiu meio que pra cima. Ainda ocupa cargo no Banco Mundial e manteve por um bom tempo o irmão Arthur como importante assessor do Planalto.
No time dos ex-quase-futuros
ministros da Educação, o professor Carlos Decotelli foi o número um em
bizarrice. Anunciado 13 dias após a saída de Weintraub, não chegou a tomar
posse. Foi-lhe fatal a revelação de que mentiu ao enxertar no currículo cursos
e títulos que não possuía e que Bolsonaro, pomposamente, citou na TV ao
anunciar seu novo ministro. “Decotelli é bacharel em Ciências Econômicas pela
UERJ, mestre pela Fundação FGV, doutor pela Universidade de Rosário, Argentina,
e pós-doutor pela Universidade de Wuppertal, na Alemanha”, declamou o “mito”.
Não era bem assim. As duas universidades estrangeiras desmentiram a conversa
mole e o professor foi “desescolhido”.
E há um caso de recusa, o do
empresário Carlos Feder, que chegou a ser anunciado por Bolsonaro, mas declinou
do convite. Uma sequência de escolhas equivocadas e gestões desastradas que
tornaram a Educação na era Bolsonaro um peso morto em termos de qualidade e
importância histórica. Coisas pelas quais o setor, que já teve à Paulo Freire,
Darcy Ribeiro e Fernando Haddad, sempre primou. O governo Bolsonaro constrói a
façanha de ser o túmulo da Educação.
Mas, pelo visto, o atual chefe
da pasta, o pastor protestante Milton Ribeiro, vai além. Com seu estilo tosco e
inacreditavelmente retrógrado, tem mantido a tradição da linhagem bolsonarista,
e se superado. Rancoroso e radicalmente evangélico (“terrivelmente evangélico”
é outro requisito criado por Bolsonaro, mas para ocupantes do STF por ele
indicado), tem marcado a sua gestão por atitudes de um viés de extrema-direita
que deixa o citado Olavo no chinelo.
Em seu ideário e discurso,
Ribeiro coleciona bizarrices. Já defendeu a universidade “para poucos”.
Universidade que ele, antes mesmo de ser ministro, já entendia como reduto de
“sexo sem limites”. Em vídeos mais antigos , já apareceu defendendo um
feminicida que, segundo ele, “confundiu paixão com amor”, ou pregando
castigo físico para educar crianças. Um “democrata”. Repleto de aspas.
A última de Milton Ribeiro foi
se envolver em bate-boca com a filha do ex-jogador e hoje senador Romário. Ivy,
portadora de síndrome de down, enquadrou o ministro após este ter cometido o
despautério de questionar o “inclusivismo” ao afirmar, na TV Brasil, que
misturar crianças deficientes com alunos sem a mesma condição “atrapalha” o
aprendizado desses últimos. Romário, que tem a defesa da criança com
deficiência como bandeira desde o nascimento na filha caçula, reagiu primeiro,
chamando o ministro de “completo idiota” e “imbecil”. Ribeiro reagiu à moda
bolsonarista, dizendo que a sua frase foi “tirada de contexto”. Mas coube a Ivy
rebater, com doçura, as patadas do ministro, a quem acusou de “mal educado”.
"Sabe, eu tenho síndrome
de Down, sou uma pessoa com deficiência, e sou estudante. Eu estudo para ter um
futuro e ajudar o meu país. Eu não atrapalho ninguém", fulminou a pequena
Ivy, que se mostrou uma craque na sensibilidade, na sagacidade e no bom senso.
Como o pai sempre foi na bola. Como o ministro nunca foi, em nada disso.
Gilvandro Filho Jornalista e compositor/letrista, tendo passado por veículos como Jornal do Commercio, O Globo e Jornal do Brasil, pela revista Veja e pela TV Globo, onde foi comentarista político. Ganhou três Prêmios Esso. Possui dois livros publicados: Bodas de Frevo e “Onde Está meu filho?”
FONTE: https://www.brasil247.com/blog/bolsonaro-e-seus-ministros-erguem-o-tumulo-da-educacao
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
Em defesa da liberdade acadêmica
Os poderosos de hoje não têm força para dar cabo da existência física de professores, mas eles têm o desplante de atentar contra a nossa reputação e fazem de tudo para nos intimidar
Por Eugenio Bucci
No dia 23 de outubro
de 1975, Ana Rosa Kucinski Silva, professora do Instituto de Química da
Universidade de São Paulo (USP), foi demitida por “abandono de função”. Um ano
e meio antes, em 22 de abril de 1974, aos 32 anos, havia caído nas mãos da
repressão da ditadura, que fez dela uma desaparecida política. Mesmo assim, a
burocracia universitária, solícita para cima e implacável para baixo, resolveu
demiti-la de forma desonrosa. Colegas de Ana Kucinski protestaram – aos
resmungos, como era possível naqueles tempos –, mas não houve jeito. A militante
da Ação Libertadora Nacional (ALN), depois de perder a vida nas masmorras,
perdeu o título de professora da USP. Sua demissão, com carimbos e rubricas
sobre papel timbrado, marcou de vergonha a história da USP.
Naqueles anos de
chumbo, até mesmo empresas privadas encontraram maneiras de proteger seus
empregados perseguidos pelos órgãos de segurança do regime. Jornalistas de
esquerda escaparam da morte porque contaram com a ajuda não só de seus
camaradas, mas também de seus patrões. Na USP, entretanto, não foi assim. Já
nas primeiras listas de cassação, os medíocres invejosos comemoravam, silentes,
nutrindo seu carreirismo estulto. É possível que, no episódio Ana Kucinski,
algum sabujo tenha confidenciado em surdina algo como: “Mas ela também era muito
radical”. Outro talvez tenha aconselhado os pares a não “afrontar” ou
“arrostar” os militares. Foi um desastre indigno e voluntário. Ao se dobrar
para os camburões e os coturnos, a USP entregou mestres e estudantes aos
cachorros, que depois os abandonaram aos abutres.
Uma universidade que
não defende a vida de seus quadros não sabe a que veio, perde a identidade. Uma
universidade que fecha os portões para os sonhos de seus estudantes, que faz
pouco da integridade de quem dá aulas e imagina ter sua substância não no
saber, mas em repartições movidas por anônimos robóticos, é uma filial de
açougue.
Agora, aqui estamos
nós, os professores universitários que não morreram. Estamos sob risco. Não
cometamos os mesmos erros do passado. O poder que aí está quer nos calar,
enquanto procura pôr na rua os calhambeques a que chama de blindados, para
golpear a democracia. A visão militarista do ensino produz estragos e mais
estragos. Esta semana, o ministro da Educação declarou que os reitores das
universidades federais “não precisam ser bolsonaristas, mas também não precisam
ser esquerdistas, não podem ser lulistas”. O ministro quer um quartel em cada
escola.
Fiquemos atentos. Se
pactuarmos com o arbítrio que se desinibe, estaremos entregues aos cachorros
simbólicos e seus abutres.
É verdade que os
poderosos de hoje não têm força para dar cabo da existência física de
professores, mas eles têm o desplante de atentar contra a nossa reputação e
fazem de tudo para nos intimidar. Entre tantos ataques, o mais eloquente é o
que se move contra o professor Conrado Hübner Mendes, da Faculdade de Direito
da USP. Autor de vários textos na imprensa, colunista do diário Folha
de S. Paulo, ele é acusado de calúnia, injúria e difamação por autoridades
identificadas com o presidente da República. O procurador-geral da República,
Augusto Aras, move um processo criminal contra ele. O ministro do Supremo
Tribunal Federal Kassio Nunes, indicado por Bolsonaro, requisitou uma
investigação.
Para complicar, a USP
viu-se diretamente enredada na perseguição. No início de maio, Aras solicitou
formalmente à Reitoria que o professor fosse punido pela Comissão de Ética da
casa. O ofício do procurador-geral, que pretende criminalizar absurdamente a
liberdade de expressão e de imprensa, chegou à Cidade Universitária há três
meses e até agora não recebeu a negativa categórica que merece. A demora
preocupa.
A direção da USP tem
enfrentado com firmeza as sandices autocráticas do governo federal. Nesse caso,
porém, tarda. Difícil entender por quê. Será por obra de miudezas e intrigas
mesquinhas? Será que agora, como em 1975, se ouvem nos bastidores dos órgãos
colegiados comentários do tipo “não é hora de bater de frente com as
autoridades” ou “ele também é muito radical”? Será essa a explicação para a
lentidão?
Não, não pode ser. O
que está em jogo aqui não é se os artigos do professor são mais ou menos
agressivos, não é o melindre das autoridades. O que está em jogo é uma questão
de princípio. Ou a universidade assume a defesa da liberdade acadêmica, ou
ficará sitiada e será apenas obediente, como quer o ministro da Educação.
Conrado Hübner já
recebeu solidariedade expressa de seus colegas, de dezenas de instituições e de
renomados intelectuais do Brasil e do exterior. Só lhe falta o apoio das mais
altas instâncias da USP. Esse apoio não falhará, sabemos que não falhará, mas a
demora realmente preocupa.
Em 22 de abril de
2014, 40 anos depois do desaparecimento de Ana Rosa Kucinski Silva, o instituto
onde ela lecionava reconheceu o erro, revogou a demissão e pediu desculpas à
família. No caso de Conrado Hübner, todos temos certeza, a espera por justiça
não será tão longa.
*Eugênio
Bucci é professor titular na Escola de
Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros livros, de A superindústria do
imaginário (Autêntica).
FONTE: https://aterraeredonda.com.br/em-defesa-da-liberdade-academica/
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
As três frentes de ataque às universidades
Os neoliberais sonham privatizá-las. Os fascistas não escondem seu rancor pela Ciência. E os patrimonialistas rejeitam sua democratização política e racial. Indispensável à reconstrução do país, ensino superior é acossado. Como resistir?
Por Thiago R. Rocha
Nos
últimos anos, em meio à programação diária de absurdos com a qual nos
habituamos a viver no Brasil contemporâneo, a educação, infelizmente, tem tido
um grande destaque, sempre nos fazendo confrontar com discussões sazonais sobre
dois temas centrais: do final de 2020 para o início do ano, o recorde no corte
de verbas em relação ao exercício anterior e, alguns meses depois, as denúncias
sobre o risco de as universidades pararem por – justamente – falta de verba.
Mas
existem sempre também, obviamente, os eventos “extraordinários” que refletem a mencionada
falta de financiamento e revelam o quanto o projeto de destruição, a “boiada da
barbárie”, avança a todo vapor. O último deles veio à tona com a recente “pane”
nos servidores do CNPq que tirou do ar a plataforma Lattes e cujos dados não
sabemos ainda se poderão ser recuperados. Esses eventos, por mais que
absolutamente graves, representam apenas a ponta do iceberg. O fenômeno em si
não é novo no Brasil, mas o nível de aceleração da degradação parece sê-lo.
O
projeto de destruição da universidade pública no nosso país – e,
consequentemente, das condições de se fazer ciência – vem de longa data e
sempre operou, de modo geral, a partir de duas grandes frentes de ataque:
a neoliberal, que nos acompanha mais fortemente desde o final do
século passado, mas que tinha arrefecido ao longo dos governos do PT para
retornar fortemente com Temer; e a ideológica que, também com
seus “vai e vens” históricos, ganha uma força nunca vista antes com a eleição
de Jair Bolsonaro. Nos dois casos, como em quase todos os outros temas, Temer
representa apenas uma ponte para Bolsonaro, mais ou menos como uma jogada
ensaiada em uma partida de vôlei, em que um levanta na medida para o parceiro
cortar.
Porém,
justamente porque essas duas frentes de ataque normalmente andam juntas e se
complementam, essa definição acaba sendo ainda um tanto imprecisa, pois, além
de não se tratar de coisas separadas, o pretexto neoliberal não é menos
ideológico do que o nível “ideológico” propriamente dito. Se quisermos ser mais
exatos, portanto, precisamos reorganizar e renomear essas categorias, incluindo
também uma outra questão, que aparentemente contradiz as duas mencionadas, mas
é quem em última instância cria uma conexão entre ambas as frentes e as
transforma em uma coisa só, ao proporcionar o salto que vai do rancor à negação
absoluta. Neste caso, recolocando o problema, teríamos:
1) A ideologia neoliberal, que sempre viu o
investimento em educação como gasto desnecessário e nunca se conformou com o
fato de o Brasil ser um dos poucos países onde o ensino superior inteiramente
gratuito ainda resiste; 2) a ideologia patrimonialista de
bases racistas e classistas, ancorada acima de tudo na cultura do privilégio
que não aceita abrir os espaços para outras camadas da sociedade; 3) o
ápice da ideologia neofascista, que utiliza-se do rancor gerado pelos
mencionados enfrentamentos ao patrimonialismo para levar às últimas
consequências a barbárie nua e crua como política de Estado, tendo a
universidade como seu principal bode expiatório.
As
três camadas estão intimamente conectadas e são facetas indissociáveis do mesmo
problema, que é a tentativa de controle máximo da sociedade e seus recursos por
parte da elite, o que passa necessariamente pela destruição do pensamento
crítico e se materializa, num nível talvez nunca visto antes, no atual governo.
No
caso da primeira frente de ataque, ela sempre esteve presente
na nossa história, mas toma um grande fôlego no terceiro quartel do século XX,
com os experimentos ultraneoliberais, particularmente na América Latina.
Discorrer sobre o papel da ditadura militar neste aspecto, que muitas vezes é
vendida como tendo sido embasada em um projeto desenvolvimentista de nação, mas
que, para além das excrescências políticas e sociais que conhecemos muito bem,
foi quem começou abrir o país como laboratório dos “Chicago boys”,
tiraria o foco do texto.
Porém,
indo direto às contradições essenciais aqui e já fazendo uma comparação entre
as políticas educacionais na ditadura e no pós-ditadura, podemos dizer: por um
lado, os militares buscaram destruir tudo que se aproximasse
de um pensamento crítico mínimo ao mesmo tempo que construíam algumas
universidades; e, por outro, o período do pós-ditadura nos
trouxe a (ideia de) democracia de volta enquanto consagrava a ideologia neoliberal
como modelo econômico inquestionável no país – o que nos dá a impressão de que
talvez sempre tenhamos um preço a pagar pelas coisas boas que nos acontecem.
Afinal, quem não se lembra das grandes “doações” do patrimônio público (sob a
nomenclatura de “privatizações modernizantes”) da era FHC, incluindo o projeto
de entregar de bandeja também, aos farejadores de dinheiro, as universidades?
Passando
para a segunda frente de ataque, ancorada no patrimonialismo
de sempre e na ideologia exclusivista da elite e da classe média que aspira a
ser elite, a universidade começa a ser um “problema” de fato para essas classes
quando, especialmente no fim da década de 1990, o governo federal, ainda com
FHC, começa a discutir políticas públicas para democratizar em certa medida o
acesso às universidades que eles mesmos buscavam destruir, o que culmina, mais
adiante, felizmente, em programas bem definidos de cotas raciais e
socioeconômicas levadas a cabo de forma efetiva nos governos do PT. Aqui, o
rancor da elite com as universidades começa a entrar numa fase preocupante,
especialmente por se tratar de um governo de esquerda abrindo as universidades
para quem, supostamente, não deveria jamais ter o direito de pisar em uma.
Até
então, os argumentos de desmoralização da universidade, embora já existissem
aos montes, não eram tão difundidos, com exceção de certas caricaturas que se
faziam dos cursos de ciências humanas de forma geral e dos militantes de
esquerda em específico. Mas a situação chega mesmo ao nível do descontrole no
pós-2014 e com toda a movimentação em torno do golpe de 2016, a partir do
pretexto mais do que cínico da “escola sem partido”. Essa foi a fase final da
“transição”, por assim dizer, que abriu o caminho para o cenário que levou Jair
Bolsonaro à Presidência da República, com a tarefa, entre outras, de destruir o
“comunismo”, que, segundo ele e seus seguidores, é maquinado dentro da
universidade pública para ser difundido para o resto da população – sendo o
termo “comunismo” aqui, evidentemente, o guarda-chuva utilizado para
caracterizar qualquer coisa que se coloque contra a barbárie absoluta.
De
certa forma, a “preocupação” que não deixa dormir uma elite de tendências
neofascistas e consumida pelo ódio faz sentido no seguinte ponto: a
universidade funciona, de fato, como uma espécie de muro de contenção das
ideias mesquinhas e autoritárias que ela defende, assim como a própria escola
deveria, desde a infância, formar indivíduos capazes de “se esquivar”, ou mesmo
de se “descontaminar”, dessas ideias que nunca deixaram de circular na
sociedade, especialmente no ambiente de socialização primária que é a família.
E
se, neste sentido, para a elite, a universidade é um antro de “esquerdistas”, é
porque, numa explicação simples e direta, mas suficientemente precisa, quanto
mais os indivíduos estudam, quanto mais eles entendem o funcionamento da
sociedade em que vivem e quanto mais começam a produzir conhecimento sobre
essas descobertas, mais eles tendem a se afastar dessa concepção reacionária de
mundo que boa parte da elite defende: ou seja, mais esses indivíduos gostam da
democracia e de tudo que ela proporciona, como a proposta de uma maior
igualdade entre as pessoas; em suma, mais eles se identificam com as ideias de
esquerda.
Não
foi, portanto, por acaso que, entrando efetivamente na terceira frente
de ataque – a mais virulenta de todas, o ponto final desse processo de
embrutecimento –, o rancor da democratização do acesso se transformou num ódio
muito mais amplo e profundo, o que levou à defesa explícita da destruição da
universidade. A essa altura, esta não poderia mais ser outra coisa senão um
lugar de pura balbúrdia e tráfico de drogas, onde as salas de aulas serviam
apenas como palco de orgias, de modo que todos os frequentadores das
universidades, quase sem exceção, passaram a ser tachados de grandes
pervertidos cujo único propósito de vida é destruir a integridade moral da
família tradicional brasileira. Tudo isso, apesar de a
universidade continuar sendo frequentada em boa parte pela própria classe média
raivosa que seguramente nunca viu, nas universidades em que seus membros sempre
estudaram, nenhum resquício de quaisquer desses delírios. Mas a realidade,
nesse momento, já havia se tornado também um acessório desimportante e mesmo
indesejado.
O
problema, no fim das contas, é que, como é a universidade pública que produz
praticamente a totalidade do conhecimento de ponta que circula no país, a
pandemia levou a situação ao limite do absurdo, no momento em que os cavaleiros
da morte e da ignorância se sentiram obrigados a jogar de uma vez por todas na
lata do lixo não apenas as universidades, mas todo o conhecimento científico
que só pode ser produzido ali, incluindo, neste caso, as próprias áreas de
pesquisa historicamente poupadas e que o próprio capitalismo pretendia deixar
intactas (as áreas de exatas, da saúde, das tecnologias etc.), por serem as que
continuam rendendo muito dinheiro.
Por
um lado, sim, a pandemia veio a calhar para o projeto de destruição das
universidades, a partir do pretexto tradicional da falta de orçamento (a frente
de ataque número 1) que buscava encobrir um pouco o ímpeto neofascista dos que
estão atualmente no poder (comprometidos acima de tudo com a frente de ataque
número 3). Tanto que em agosto de 2019, na calada da noite – e, não por acaso,
o problema só foi percebido no início do ano seguinte, quando a medida entrou
em vigor –, o MEC lançou a Portaria 1.469, que proibia, a partir de janeiro de
2020, de forma ilegal e inconstitucional, a contratação de qualquer servidor
por parte das Instituições Federais de Ensino.
O
argumento era destruir a autonomia financeira das universidades apenas
temporariamente, enquanto a lei orçamentária não fosse sancionada, no início do
ano; mas as mentiras foram apenas se amontoando e a coisa se revelou
interminável: assinada a lei, o problema passou a ser uma questão de respeito a
certos limites orçamentários; depois inventaram que as universidades
dependeriam de uma autorização de vagas por parte do MEC; por fim, quando a tão
esperada “liberação” das vagas aconteceu, a bomba foi jogada no colo dos
reitores: a partir dali, eles poderiam até contratar, mas desde que aceitassem
correr o risco de responder por crime de responsabilidade fiscal. Até hoje, boa
parte desses aprovados seguramente ainda não foi contratada. E eu, que tomei
posse em março de 2020, só estou aqui para contar essa história por conta da
coragem do reitor da UFPA, Emmanuel Tourinho, de peitar esses ataques absurdos.
Mas,
voltando ao argumento em relação à pandemia, a verdade é que, por outro lado,
ela também acabou escancarando de forma muito explícita a importância das
universidades e deixou nu o projeto nefasto de sociedade que pretende aniquilar
toda e qualquer produção de conhecimento fidedigno. Hoje, alguém minimamente
comprometido com os dados da realidade ainda tem dúvidas de que o único
resultado possível dessa empreitada é a desigualdade brutal, a morte e a
destruição?
O
problema por trás disso tudo é que, ao buscar destruir uma parcela da sociedade
– “a universidade esquerdista” ou qualquer outra imagem estereotípica que se
faça daqueles que lutam por um país melhor –, você abre a porteira para a
destruição de uma sociedade inteira, mais ou menos como um câncer cuja
metástase vai se espalhando de forma rápida, intensa e aleatória. Esse é o
risco de embarcar no fascismo com o objetivo aparentemente “estratégico” de
eliminar aqueles de quem eu também não gosto, achando que o fascismo pode ser
controlado ou mantido no ambiente restrito que me agrada. Isso vai totalmente
de encontro à lógica destrutiva do fascismo, que é sair eliminando tudo que
encontra pelo caminho, até chegar ao ponto de eliminar a si mesmo, quando já
não houver mais nada a ser destruído.
A
imagem poética disso, já muito bem difundida, nos é oferecida por Brecht de
forma magistral em seu poema “É preciso agir”: as pessoas começaram a ser
“levadas”, uma a uma, mas o eu lírico não se importou porque se sentia a salvo
pelo fato de não ser uma delas, até que chegou sua hora e já não havia ninguém
que pudesse se importar com ele.
Hoje,
com a negação absoluta de qualquer conhecimento científico por parte dos que
nos governam – o que tem se revelado cada vez mais apenas mais um pretexto para
ganhar muito dinheiro à custa de nossas vidas –, uma parte não negligenciável
dos médicos, para citar um exemplo escandaloso, que se achavam totalmente
imunes à destruição fascista, provavelmente estão se sentindo, no caso dos que
ainda se mantêm atrelados à essência científica da sua profissão, como o eu
lírico de Brecht.
Assim
também está se sentindo a elite golpista pontualmente arrependida – certos
setores da mídia, do mercado, dos partidos de direita tradicionais –, que
embarcou no bolsonarismo de forma “estratégica” para destruir a esquerda e se
apropriar de uma vez por todas do patrimônio público, mas acabou ela mesma
sendo atropelada no meio do caminho e jogada no mesmo pacote dos “esquerdistas”
que elas tanto odeiam. Hoje, se não defendemos a barbárie, não tem jeito, somos
todos “comunistas”, nesse Brasil em transe em que só cabem dois tipos de
pessoas: os que colaboram com o regime (mesmo que de cima do muro) e os que
resistem a ele e o combatem.
No
meio de toda essa catástrofe social, política, econômica, civilizacional e
sanitária, é a universidade pública brasileira e os institutos de pesquisa
(também públicos) que, em boa medida, apesar de todos os ataques, têm
conseguido segurar um pouco a “barra” dessa tragédia que poderia infelizmente
ser muito maior, assim como poderia ter sido muito menor se as universidades e
as outras instituições estivessem funcionando do modo que elas deveriam
funcionar.
O
retorno social, político, econômico, tecnológico e civilizacional que as
universidades dão à sociedade brasileira é incalculável, e é por isso que,
hoje, mais do que nunca, precisamos preservá-la e defendê-la até as últimas
consequências, mas sempre tomando todos os cuidados para não cairmos em mais
uma armadilha dos golpistas “light”, defensores da frente de ataque
número 1, que são os grandes responsáveis por nos encontrarmos nesse buraco
aparentemente sem fim.
Por isso, para defender esse patrimônio que representa um dos maiores sustentáculos da democracia no nosso país – o que o combate à pandemia comprova muito bem –, não podemos jamais perder de vista que, se não é possível reconstruir a democracia sem colocar a universidade no seu devido lugar, esse processo jamais poderá ser conduzido pela segunda via de direita – sob o pseudônimo de “terceira via” ou “centro” –, cuja única diferença em relação aos fascistas é o fato de se utilizar de métodos mais “discretos” e de se apresentar numa roupagem mais “cheirosa”.
FONTE: Outras Palavras
segunda-feira, 2 de agosto de 2021
Radiografia do desmonte da Ciência brasileira
Universidades públicas lideraram 2 mil iniciativas
contra a covid-19, mas governo quer cortes de 32%. Fundo de desenvolvimento
científico perderá 4,8 bilhões; CNPq cortará mais bolsas. Não basta exaltar
ciência, é preciso lutar por investimentos
Em
maio deste ano [2020] escrevi ao Nexo Jornal como o
subfinanciamento e o desmonte da Ciência, Tecnologia & Inovação limitavam o
enfrentamento da pandemia da COVID-19. Ainda assim, esperançamos e
nos mobilizamos enquanto sociedade pela valorização da Ciência para superarmos
o cenário pandêmico — chegando a afirmar que a pandemia nos ensina que sem Ciência não há futuro.
Evidente que a comunidade científica ocupou a linha de frente junto aos
profissionais da saúde em todo país, porém, ainda assim, os cortes de bolsas
seguem ocorrendo e diversas pesquisas estão sendo interrompidas. Será que
realmente estamos aprendendo algo enquanto sociedade?
Desvalorização
em números
Em
todo país, as Universidades Públicas brasileiras foram responsáveis por mais de 2.000 iniciativas contra os efeitos da pandemia
da COVID-19, resultando em milhões de vidas beneficiadas direta ou
indiretamente pela vasta produção de equipamentos de proteção individual,
respiradores, além de inovações tecnológicas, estudos e pesquisas que não se
intimidaram em dar suporte à sociedade (mapeamento das iniciativas contra COVID-19).
Apesar
de todo empenho, os cortes para 2021 no Ministério da Ciência, Tecnologia e
Inovações (MCTI) chegam a 32%, se comparado a 2020. A perda
maior é de R$ 4,8 bilhões para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (FNDCT), além de cortes em bolsas do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – como aponta a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC).
Destacando
as bolsas do CNPq como exemplo, a redução de recursos chega a 64% no
próximo ano. Na prática, o orçamento de 2021 prevê garantir apenas 4 meses de
bolsas de pesquisa, pois 60,55% dos recursos dependeriam de eventual e incerta
aprovação de créditos suplementares pelo Congresso. Atualmente, a Capes concede
bolsas a 100 mil pesquisadores e o CNPq financia 80 mil bolsas de pesquisa (Agência Senado).
Em
alguns estados a realidade não é diferente. Segundo levantamento (Folha de São Paulo), mais de um
terço dos estudos e pesquisas publicados em todo o país sobre a COVID-19
(38,7%) tiveram a participação das universidades públicas estaduais paulistas.
Ainda assim, o Governo do Estado tentou aprovar o trecho do PL 529/2020 que previa confiscar mais de
um bilhão de reais do caixa das universidades públicas estaduais paulistas, com
o argumento de promover “ajuste fiscal e equilíbrio das contas públicas”.
Mesmo
após mobilização da sociedade contra a tentativa de confisco, uma manobra no
Orçamento de 2021 também proposta pelo Governo do Estado – via PL 627/2020 — busca reduzir em 30% o
financiamento da Fapesp e da pesquisa científica estadual, cortando R$ 454,7
milhões de projetos científicos, inclusive em andamento. Tal valor, no entanto,
poderia pagar um ano inteiro de 54.465 pesquisas de iniciação científica (R$
695,70 por mês) ou 18.547 bolsas anuais de mestres e doutores pesquisadores (R$
2.043 por mês).
Sobre
as bolsas, aliás, há quem insista em uma falsa ideia de que são um “privilégio”
pago com dinheiro público. Pelo contrário, um pesquisador
universitário, por exemplo, recebe uma bolsa de R$ 400,00 mensais; valor que há
anos não tem reajuste, que não conta com décimo terceiro, licença, seguro de
vida, férias ou quaisquer direitos trabalhistas (Nexo Jornal). Além, tal pesquisador não pode
ter qualquer vínculo empregatício, sendo obrigado a se dedicar exclusivamente
para a pesquisa em que é bolsista. Isto é, cortes e contingenciamentos
significam, muitas vezes, a suspensão de toda e qualquer fonte de renda de um
pesquisador — além da interrupção da pesquisa.
Porém,
se as universidades estão sempre a postos e tais pesquisadores se dedicam
exclusivamente para a produção científica brasileira, por que tal empenho não
se reflete na construção de um orçamento que fortaleça e valorize a Pesquisa,
Ciência, Tecnologia & Inovação?
Quem
tem medo da Ciência?
Ciência
não se faz do dia para a noite, apenas para atender à um imediatismo de
ocasião. Não é possível, também, interromper uma pesquisa por falta de
financiamento e depois retomá-la no mesmo ponto. Com Ciência, Tecnologia &
Inovação é necessário investimento programático, estratégico, ininterrupto, de
qualidade e progressivo para que conhecimentos diversos estejam mobilizados e a
postos para com a sociedade nos mais diversos cenários.
Não
é possível também existir um suposto apoio de ocasião. Além, não basta apenas
dizer apoiar a Ciência, é preciso defender seu financiamento. Pois, ou se
valoriza na prática a Ciência como elemento central para a superação de crises
e plataforma para construção de uma sociedade mais saudável, ou será apenas
discurso.
No
entanto, não faltaram figuras públicas que aproveitaram da onda em ascensão
para fazer da Ciência um slogan ao buscar legitimar decisões em meio à crise.
Tão grave quanto polarizar com a cloroquina e desmobilizar uma eventual
vacinação contra COVID-19, por exemplo, é fazer uso oportunista da Ciência para
surfar na narrativa em alta e, ao mesmo tempo, usar o “ajuste fiscal e
equilíbrio das contas públicas” como desculpa para desmontar o financiamento
público da Ciência.
Até
porque, ainda que se ignore todo potencial e transformação que o acesso a
conhecimentos científicos traz para a sociedade, é impossível chamar Ciência
apenas de gasto e negar que investimentos em Ciência, Tecnologia & Inovação
trazem ganhos futuros, impulsionando toda uma cadeia produtiva e agregando
valor econômico ao país.
Porém,
enquanto tentam uberizar a Ciência brasileira, é preciso estar
atento e forte enquanto sociedade, pois ainda que a comunidade científica entre
em campo para estar na linha de frente, tal protagonismo não garante
automaticamente um orçamento justo. Além, não se trata de uma batalha única,
pois a disputa por uma sociedade que use a Ciência como plataforma de promoção
de justiça social deve ser travada diariamente por todos nós.
Assim,
a provocação está em construir uma mobilização contínua de valorização da
Ciência, da divulgação e da popularização científica em nosso cotidiano,
envolvendo organizações, associações e principalmente a sociedade como um todo
na discussão dos rumos e desafios do que é público e comum da pólis.
Até porque, se mesmo em meio a pandemia nos deparamos com ainda mais cortes e
com tamanha desinformação negacionista circulando para legitimar tal desmonte,
o que restará se não nos colocarmos diariamente no papel de defesa da Ciência
brasileira?
Ergon Cugler é pequisador da USP (Universidde de São Paulo), associado ao OIPP (Obsevatorio Interdiciplinar de Politicas Públicas) e ao Getip (Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública) da Each (Escola de Artes, Ciêncis e Humanidades), e também Representante da Sociddade Civil na Comissão da Agenda 2030 da ONU para São Paulo.
FONTE: Outras Palavras
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