quarta-feira, 9 de julho de 2014

Cientistas pedem suspensão imediata de licenças para o cultivo de transgênicos


Adital



Uma carta aberta assinada por mais de 815 cientistas de 82 nacionalidades está dando a volta ao mundo. O texto comprova, por meio de evidências científicas, os prejuízos causados pelos organismos geneticamente modificados (OGM) à biodiversidade, à segurança alimentar e à saúde humana e animal. Baseados no princípio da precaução, os cientistas pedem a proibição de qualquer tipo de patente de forma de vida e processos vivos, alertando para a necessidade de suspensão imediata da venda e do cultivo dos transgênicos em todo o mundo.

Os cientistas pedem a suspensão das licenças ambientais para cultivos de transgênicos por pelo menos cinco anos para a realização de pesquisas públicas exaustivas, com a justificativa de que as patentes de formas de vida e processos vivos "ameaçam a segurança alimentar, promovem a biopirataria dos conhecimentos indígenas e dos recursos genéticos, violam os direitos humanos básicos e a dignidade, o compromisso da saúde, impedem a pesquisa médica e científica e são contra o bem-estar dos animais”.

Ao contrário do que vem sendo propagado, o cultivo de transgênicos não traz qualquer benefício para agricultores e consumidores; pelo contrário, os cultivos transgênicos exigem o uso de maior quantidade de herbicidas e proporcionam menos rendimento econômico para os agricultores. Uma estatística baseada em 8.200 testes de campo do cultivo transgênico mais popular - a soja - mostrou que a soja transgênica rende 6,7% menos e requer duas a cinco vezes mais herbicidas do que as variedades não modificadas geneticamente, apontam na carta.

Outra grave consequência do cultivo de transgênicos diz respeito ao potencial de transferência horizontal de genes, que inclui a difusão de genes marcadores de resistência a antibióticos, a ponto de tornarem incuráveis algumas doenças infecciosas e promoverem a criação de novos vírus e bactérias causadores de doenças e mutações. Por isso, as atuais técnicas que exploram processos vivos não são consideradas confiáveis, mas sim "incontroláveis e imprevisíveis”.

A carta revela ainda que memorandos secretos da Administração dos Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos deixam claro que foram ignoradas as advertências dos seus próprios cientistas de que a engenharia genética é um novo ponto de partida e introduz novos riscos. Além disso, o primeiro cultivo transgênico liberado para comercialização – o tomate Flavr Savr – não passou nos testes toxicológicos.

O DNA transgênico não é transmitido apenas pela ingestão do alimento geneticamente modificado. Há evidências de que essa transmissão pode acontecer apenas pelo contato com a poeira e o pólen das plantas transmitidas pelo ar durante o trabalho agrícola e o processamento de alimentos, ocasionando sérios riscos para aqueles que manipulam os alimentos geneticamente modificados.

Além dos prejuízos direitos à saúde, o cultivo de transgênicos ampliaria as desigualdades sociais e impediria a expansão de uma agricultura sustentável e garantidora da segurança alimentar. Por outro lado, os cientistas relembram que já foram comprovados em estudos a produtividade e os benefícios sociais e ambientais da agricultura ecológica e familiar, de baixos insumos e completamente sustentável. Esse modelo contribui mais para a ampliação do desenvolvimento econômico, para a conservação da biodiversidade e é apontado como a melhor forma possível de se combater a fome e a pobreza.


FONTE:  Adital

domingo, 6 de julho de 2014

Manifestos populares, o ‘inimigo interno’ da vez




Por Carlos Eduardo Pestana Magalhães
  


O debate com o secretário da segurança pública Fernando Grella aconteceu na Praça da Sé, região central da cidade de São Paulo, mas sem a presença dele ou de nenhum representante da secretaria. Presentes ao evento estavam o Movimento Passe Livre, que chamou o debate, Comitê Popular da Copa, Mães de Maio, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Favela do Moinho, Sindicato dos trabalhadores do Metrô e da USP, Movimento de Moradia da Região Central e o padre Júlio Lancellotti. A presença de um representante da Comissão Justiça e Paz foi notificada pelo Padre Lancellotti.

Cadeiras foram colocadas na praça, bem ao lado do Tribunal de Justiça, para cada representante das entidades falarem. O tema do debate era a Criminalização dos Movimentos Sociais; o atual desrespeito ao Estado de Direito por parte do governo federal, estadual e municipal; a escalada da repressão brutal, violenta, covarde e desproporcional da polícia militar paulista; as constantes prisões de advogados, o impedimento do trabalho dos defensores nas delegacias, o desrespeito na forma como são tratados pelas polícias; a ilegalidade do inquérito n° 1/2013, por não apurar nenhum crime específico, mas sim para fazer um banco de dados dos manifestantes para torná-los suspeitos de qualquer coisa; e contra as prisões arbitrárias de Fábio Hideki e Rafael Marques, com provas de flagrante forjadas pela polícia.

Entre 150 e duzentas pessoas participaram do debate e até as 17 horas, nada aconteceu, apesar do enorme e desproporcional cerco da polícia militar paulista na Praça da Sé. Algo semelhante só aconteceu durante a ditadura civil e militar de 64, quando das missas do operário Santo Dias e do jornalista Vladimir Herzog. O batalhão do choque, com suas vestimentas cinza, colete a prova de bala, armadura chamada de "Robocop", capacetes com viseira, escudos transparentes, sacolas com bombas, escopetas com balas de borracha (de borracha não tem nada, são balas comuns revestidas com uma fina camada de borracha e, por isso, dependendo de onde acertam, podem matar ou ferir gravemente) e as tarjetas de (não)identificação com a sequência alfanumérica semelhante a um chassi de automóvel, nos uniformes. Fica praticamente impossível identificar, mesmo que visualmente, qualquer soldado da PM. Literalmente, eles são os verdadeiros mascarados nas ruas.

Havia um clima de expectativa com relação ao que a PM faria. Do lado esquerdo da escadaria da Catedral da Sé, para quem está de frente a ela, soldados do choque formaram uma barreira impedindo a passagem de qualquer pessoa. Mais ao fundo, perto das escadas rolantes da estação do Metrô da Sé, mais policiais parados. Em frente do Tribunal de Justiça, carros e ônibus da PM estavam parados com inúmeros soldados do lado. Parecia, sem exagero, uma praça de guerra, onde os inimigos eram cidadãos fazendo um debate público e nada mais.

Cada vez fica mais claro que o conceito de inimigo interno, criação da época da guerra fria e totalmente incorporado na lei de segurança nacional da ditadura - lei esta que continua em vigor, por incrível que pareça, em que pese o país ser uma democracia liberal burguesa representativa -, está cada vez mais em voga no cenário nacional. Desta vez não são mais os opositores da ditadura na luta armada ou não, mas são quaisquer tipos de manifestações populares, de ruas, sindicais, que atentem contra o status quo na área federal, estadual e municipal.

Nem é preciso mais a presença das forças armadas na repressão, apesar de que elas podem ser chamadas a atuar repressivamente a qualquer momento. Não sendo necessário, basta a ação das polícias militares, criação da ditadura como força auxiliar do exército para combater inimigos internos do Estado, e não para policiar. E é exatamente isso que vem sendo feito em quase todos estados do país.

Nas falas, havia um consenso de que o país tem uma política de Estado (federal, com apoio estadual e municipal) para reprimir qualquer forma de organização popular que possa prejudicar o que quer que seja do atual status quo.



Carlos Eduardo Pestana Magalhães – Gato, é membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo.


FONTE: Correio da Cidadania

terça-feira, 1 de julho de 2014

As gurus da beleza negra na internet


O ramo da beleza tem ganhado cada vez mais visibilidade na internet. Mas qual espaço – e o papel – das blogueiras, vlogueiras e “youtubers” negras nesse território?



Por Jarid Arraes 


Há um novo nicho de mercado que vem ganhando cada vez mais espaço online: o ramo de beleza. Muitas garotas sonham em criar um blogue ou um canal no Youtube e com isso conseguir ganhar dinheiro para se sustentar, além de receber produtos enviados pelas empresas em troca de resenhas e propagandas. No Brasil, esse mercado vem tomando força e hoje já existem muitas jovens blogueiras que se tornaram celebridades na internet. É importante debater, no entanto, sobre a relevância social desses novos cargos e profissões e a forma como continuam a reproduzir velhos preconceitos. Entre tantos estereótipos de gênero, a heteronormatividade e o estímulo ao consumo, destaco as questões raciais.

Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 50% das pessoas brasileiras se identificam como pretas ou pardas; ou seja, mais da metade da população do país se reconhece como negra. Mas apesar do povo brasileiro ser bastante miscigenado e não se parecer tanto assim com o ideal de beleza branco europeu, nota-se que as moças que ganham mais visibilidade e dinheiro com blogues e redes sociais são, em sua maioria, brancas, loiras, magras e de classe social média ou alta. Mas por que será?

Beatriz Andrade, do blogue Jeitinho Próprio 
O ramo da blogagem sobre beleza, primeiramente, acaba ficando restrito somente às entusiastas com boas condições financeiras, pois para começar a falar de cosméticos e cabelo é necessário algum investimento inicial com produtos. Somente assim é possível chamar atenção de alguma loja ou empresa, que consequentemente pode vir a enviar mercadorias em troca de divulgação. Não é preciso muita investigação para descobrir que há uma grande disparidade de renda no Brasil, que se concentra em uma minoria branca da população.

Em segundo lugar, pouquíssimos produtos são feitos para mulheres que não se enquadram nesses padrões de beleza. São poucas as marcas de maquiagem que fabricam cosméticos para atender tons de pele mais escuros, assim como os produtos para cabelos são predominantemente voltados para promover os cabelos lisos. Por isso é tão difícil encontrar uma blogueira ou youtuber negra, de cabelos naturais e, especialmente, de pele escura.

É possível traçar hipóteses para explicar essa ausência ou falta de visibilidade das blogueiras e youtubers negras. Afinal, elas existem – só não fazem tanto sucesso como as loiras. Ao fazermos um resgate histórico e sociocultural, revela-se que a internet ainda não é acessível a todos. Mas acima de tudo, resta a hipótese de que o público simplesmente prefere assistir a quem se encaixa no padrão de beleza branco e magro.

É essencial pesquisar e estudar mais profundamente essa área; afinal, um novo campo está se abrindo para as mais diversas vertentes do conhecimento. Para dar o pontapé inicial, vejamos o que algumas blogueiras e vlogueiras negras têm a dizer sobre o assunto.

Colaboração e sororidade entre mulheres negras

Rosângela José é uma vlogueira de 35 anos formada em Administração de Empresas. Sua experiência com o universo da beleza negra feminina na internet começou em 2009, quando decidiu parar de alisar os cabelos. Estimulada por amigas com quem já conversara a respeito de maquiagem, Rosângela começou a gravar vídeos e hoje é tida como referência por várias garotas no mundo virtual. “Eu acredito que as dicas compartilhadas no meu canal, o modo como eu lido com meu cabelo incentiva outras meninas e mulheres negras, até pelo retorno que tenho de algumas, através de comentários, e-mails e mensagens no Facebook”, reconhece. E ela está completamente certa; sua representatividade foi inspiradora o bastante para Beatriz Andrade, designer gráfica de 27 anos, que também é guru de beleza: “Ela é um mega exemplo, transborda  autoestima, ela é demais e sou super fã!”.

Fernanda Chaves, do blogue Cantinho
da Nanda
Os laços que essas mulheres, a princípio desconhecidas, criam entre si podem muitas vezes ser invisíveis e distantes, mas também podem culminar em parcerias que despertam debates políticos e sororidade. Um exemplo disso é o vídeo que Rosângela gravou com outra youtuber negra, a Fabiana Lima, do canal “Beleza de Preta”. Em meio a relatos de experiências pessoais e falas politizadas, as duas blogueiras levantam questões pertinentes para todas as mulheres negras, independente de qualquer interesse em cosméticos e produtos capilares.

Assim, fica perfeitamente evidente a relevância social da temática. Afinal, falar de “beleza” não é, necessariamente, falar de coisas fúteis e superficiais. Para as blogueiras negras, esse assunto é, em primeiro lugar, uma chamada de atenção para o ativismo social, especialmente os movimentos feministas e negros.

Resistência ao racismo

Para as blogueiras negras do ramo, não é nenhuma novidade: são frequentes os episódios em que o racismo se fez presente em seus canais e páginas. Passando-se por simples comentários ofensivos, até perseguições mais severas, quase todas as entrevistadas constataram ter presenciado racismo e que existe, de fato, preferência pelas moças brancas e loiras para divulgar e trabalhar com cosméticos.

No entanto, apesar das dificuldades, para algumas blogueiras os comentários positivos servem de fortalecimento – é o caso de Fernanda Chaves, mãe e dona de casa de 26 anos. Nanda – como é conhecida na internet – define-se como “neutra” quando o assunto é política, mas lamenta que ainda existam coisas como racismo e machismo. Ainda assim, ela salienta que as mulheres negras, em suas palavras, devem fazer a parte que lhes cabe e “mostrar que não são piores do que ninguém”.

Gill Vianna, do blogue Coisas de Uma Cacheada
A youtuber Gill Viana, que trabalha exclusivamente com os assuntos estéticos na internet, parece concordar com a ideia de que a melhor resposta para o racismo é fazer um bom trabalho. “Existe racismo em todos os lados e no YouTube e no mundo da blogosfera não seria diferente. Acho que vai de cada uma ir lá e buscar seu lugar ao sol, mostrando com seu trabalho que é tão capaz como outra qualquer”, diz a blogueira de 28 anos.

Beleza politizada

A paulistana Maraisa Fidelis é uma das blogueiras negras mais conhecidas no mundo dos
Maraisa Fidelis, do blogue Beleza Interior
cosméticos e, para ela, toda a questão é bem objetiva: “Você faz o seu trabalho e quem decide a audiência é o público. Se te assistem, as empresas te olham; se não te assistem, as empresas não te olham. Simples assim.” Apesar de reconhecer que há poucas mulheres negras protagonizando o mundo virtual da beleza no Brasil, Maraisa diz que nunca sofreu discriminação e que se esforça para não envolver assuntos como racismo em seu blogue, pois prefere deixar seu espaço voltado somente para os assuntos estéticos.

Não obstante, a fala de Maraisa não pode ser tomada como fechada, uma vez que ela mesma reconhece a importância de seu trabalho no fortalecimento da autoestima de garotas negras. E não é à toa: há cerca de oito meses, a blogueira resolveu assumir seu cabelo natural e hoje embeleza o Youtube com seu crespo empoderado. Apesar de seu blogue não ser direcionado apenas às meninas de cabelo cacheado, certamente há muitas garotas que se sentem representadas e fortalecidas para seguir o exemplo deixado pela vlogueira.

Fernnandah Oliveira, do blogue Criloula
Já Fernnandah Oliveira, mais conhecida como Criloura, foi uma das entrevistadas mais politizadas e seguras de sua fala. A assistente social de 36 anos domina o universo dos cabelos e maquiagens, mas também participa ativamente de grupos de discussão sobre machismo e racismo. Suas perspectivas são bem diferentes das de Maraisa: “Penso que a beleza está dentro de um processo de subjetividade da autoestima e da aceitação. A partir deste viés é possível apresentar como a cidadania, enquanto espaço e processo de reconhecimento e garantia de direitos e deveres, está diretamente ligada neste processo”, afirma. De modo similar, ela considera necessário expor e mexer nas feridas deixadas pelo racismo nos canais de beleza. “Para quem duvida, é só contar o número de blogueiras e vlogueiras negras que estão entre as tops e as brancas. É disparado ver como há uma diferença em números e qualidade, sobre a inserção de mulheres e homens negros neste universo de blogs e vlogs de moda e beleza”.

Michelle Shirai, do canal Mi Shirai
Ainda sobre os possíveis vínculos entre a política e a beleza, a vlogueira Michelle Shirai, brasileira de 30 anos que mora no Japão, declara que nunca sofreu discriminação online, mas entende de forma muito positiva a sua influência política sobre sua audiência: “Meu trabalho com os vídeos não é só falar de beleza, mas também de encontrar a verdadeira identidade, crespa, cacheada, negra de pele escura ou clara, ter orgulho dos traços e formas. Envolve respeito e a minha união com muitas outras blogueiras e youtubers negras. Dá força, coragem e amor próprio de não ligar pro que a sociedade acha ou impõe como deveríamos nos vestir, ou usar os cabelos”.

Como pode-se perceber, a importância e a influência do trabalho das blogueiras e youtubers para as mulheres negras é evidente, até mesmo para aquelas que não são engajadas politicamente contra o racismo e a misoginia.

A beleza do ativismo

É extremamente importante que todas as mulheres negras que trabalham com moda, cabelo e cosméticos na internet saibam do potencial que seus espaços possuem para gerar transformação social. Essas ferramentas são tão pertinentes que, mesmo sem a intenção das blogueiras, as pessoas que as acompanham não permanecem as mesmas após assistirem a seus vídeos e verem suas fotos.

Infelizmente, ainda é impactante ver mulheres negras seguras de si, ostentando seus cabelos naturais e sem vergonha de seus traços faciais. Afinal, somos todos condicionados a valorizar e apreciar somente a beleza branca. Para as crianças negras envolvidas por nossa cultura, é ainda mais importante que esse trabalho continue a ser feito, possibilitando para elas uma autoestima muito mais segura e livre do racismo internalizado.

Nesse aspecto, todas as blogueiras entrevistadas falam sobre isso e, de certa forma, acabam sendo ativistas por meio do seu trabalho. Beatriz Andrade consegue definir esse processo quando diz que “a medida que compreende-se a autoestima, diminui-se o pré-conceito, pois o autoconhecimento provoca uma liberdade que nem o racismo ou machismo são suficientes para manter no cativeiro interior”. Sua mensagem, assim como de todas as outras gurus, é de que cada mulher negra se aceite e se ame, que supere as violências sofridas desde que veio ao mundo e que, a partir daí, mostre a que veio. Se isso não é militância, nada mais é.

Rosângela José, do blogue Negra Rosa, Rosa Negra


(Crédito da ilustração de capa: Paula Portella)


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Plano Nacional de Educação ratifica política de privatização da educação



Redação Tribuna Classista



O Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê metas para serem implementadas no decênio 2011-2020, foi aprovado no plenário da Câmara dos Deputados. Em seu texto final, o plano prevê uma política de destinação do dinheiro público para as empresas privadas, que comercializam serviços na área do ensino. Os 10% do PIB aprovados para o financiamento na educação não serão exclusivamente destinados para a rede de ensino pública, indo na contramão da garantia da educação gratuita, pública, laica, de qualidade socialmente referenciada para toda a população, em todos os níveis.

De acordo com o PNE aprovado, o investimento na educação será ampliado progressivamente: um mínimo de 7% do PIB no quinto ano de vigência da lei, e 10% do PIB ao fim do período de dez anos. Ou seja, a aplicação, além de não ser exclusiva para a educação pública, será gradual. Esse investimento, da forma como é apresentado, não funciona, pois o financiamento precisaria ser imediato para começar a resolver os problemas da educação pública, afinal, as demandas de 2024 serão maiores. O Brasil continua com índices de analfabetismo em torno de 10% e a qualidade de ensino continua precarizada, com crianças, jovens e adultos não se apropriando do conhecimento. Os problemas são para agora, não para daqui dez anos.

Além disso, o texto final aponta que os recursos também serão utilizados para financiar a educação infantil em creches conveniadas, a educação especial e programas como o de acesso nacional ao ensino técnico e emprego (Pronatec), bolsas em faculdades privadas (Universidade para Todos – ProUni), financiamento estudantil (Fies) e bolsas para estudo no exterior (Ciência sem Fronteiras). Essa proposta de financiamento para a ‘educação’, de forma generalizada, permite um esquema de privatização, fazendo com que o empresariado possa gerenciar, por dentro, as verbas públicas da educação, por meio da concepção do público não-estatal, que é o que o governo reforça com as parcerias público-privadas e os contratos de gestão. A formação escolar se desenvolveria de acordo com as exigências do empresariado.

O governo já havia aprovado cinco bilhões de reais para o Fundo de Financiamento Estudantil, através de medida provisória, e também definido o perdão da dívida trabalhista das particulares em troca de bolsas. O que o governo está fazendo é a privatização fatiada e o PNE vem para ratificar essa política. A destinação de quase cinco bilhões de reais para educação privada, que abre crédito extraordinário de R$ 4,9 bilhões para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), foi aprovada no mês de maio, através da Medida Provisória (MP).

No texto do PNE, foram incluídos alguns jogos de palavras com repercussões a respeito de para onde efetivamente irá o financiamento, quando sai da perspectiva de ensino público e entra na perspectiva de ensino gratuito, que é a grande jogada de investimento do setor privado, como o Sistema S, formado por entidades que oferecem cursos gratuitos em áreas da indústria e comércio, como uma forma de complementação de conhecimento, preparatório para o mercado de trabalho. Quando o PNE trata de financiamento, ele diz que é para educação pública e para o ensino gratuito, que são os programas Prouni, Pronatec, entre outros. Porque o público, para eles, necessariamente não é o estatal. O PNE reforça também toda a política do REUNI, é uma reafirmação da precarização do ensino universitário e do ensino geral, ou seja, da educação como um todo.

O governo aprovou o PNE sem ter passado sequer pela Conferência Nacional de Educação (Conae), organizada pelo próprio governo. É um plano que foi construído com o reforço da iniciativa privada, da bancada parlamentar das escolas particulares. Somos contra o uso do dinheiro público para a rede privada de ensino, que cada vez mais concentra sua prioridade no lucro, concebendo a educação como mercadoria. O texto aprovado não atende às reivindicações da sociedade trabalhadora e dos movimentos sociais, ratificando apenas de modo claro as ações que já estão sendo implementadas pelo governo federal.


Originalmente publicado na Tribuna Classista:
Blog: http://tribunaclassista.blogspot.com.br


domingo, 22 de junho de 2014

A Copa da politização



Muito mais que instrumento político de governo, a realização de um mundial no Brasil se tornou mote para a conscientização da própria sociedade: "A Copa não é um problema a ser enfrentando, mas revela quais precisam ser"


Por Ivan Longo


Em outubro de 2007, depois de travar uma intensa campanha junto à FIFA, o ex-presidente Lula conquistou o que era um antigo sonho de outros governistas e de boa parte da população: a vinda de uma Copa do Mundo ao Brasil. O que Lula provavelmente não esperava, entretanto, é que em 2014, ano de realização do tão sonhado mundial, haveria uma parcela da sociedade rejeitando o evento e se colocando contra os investimentos que foram realizados, justamente no país onde o futebol tem um peso simbólico e cultural tão grande.

A organização do evento, assim como gastos passaram a ser questionados. Flávio de Campos, doutor em história social e coordenador do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da Universidade de São Paulo), explica o questionamento: “A gente está em uma politização tremenda da sociedade brasileira e uma politização que em poucos momentos da história do Brasil foi vista.”

Para o historiador, dentro desse cenários, as bandeiras, diversas, se encontram nas ruas. “não há nenhum setor social, nenhuma demanda que não esteja sendo colocada na pauta. Investimentos públicos, a questão do espaço urbano, das remoções, moradia, mobilidade urbana, todas essas questões cruciais vieram à tona em um contexto relacionado ao futebol”, analisa pesquisador, que vê o país dividido em duas torcidas: “Uma um pouco tímida, constrangida, mas que vai torcer pelo Brasil e uma torcida mais visível, apesar de minoritária, que está torcendo contra. Então, temos um contraste: uma mobilização intensa e uma desmobilização torcedora.”

O presidente da FIFA, Joseph Blatter, anunciando a
vitória do Brasil como sede da Copa de 2014.
(Foto: Wikimedia Commons)

Para o antropólogo Enrico Spaggiari, que também faz parte do Ludens, apesar de reconhecer que as deficiências na organização do evento, o pesquisador acredita que o mundial da Fifa é o que permitiu que as pessoas se dessem conta da carência estrutural do país.

“As pessoas estão tomando consciência disso, de que elas conseguem se manifestar, mostrar repúdio à Copa e ao mesmo tempo separar o que vem acontecendo para a sua realização ao que já  vem acontecendo há vários anos. A população começou a perceber que o Mundial, mais do que o grande problema, é o grande revelador dessa falta de estrutura no Brasil”, explica Spaggiari.

A consciência e a mobilização em torno do que precisa ser combatido no país a partir da experiência da vinda da Copa do Mundo mostra que o evento, diferentemente do que diz alguns setores da imprensa, não é um instrumento político do Governo, como foi na Copa de 1970. Na ocasião, o regime militar se apropriou do sucesso nos gramados da seleção brasileira com o intuito de prover a integração nacional e passar a ideia de um país grande, poderoso e do qual a população deveria sentir orgulho. O cenário, hoje, no entanto, é completamente diferente e, se funciona como ferramenta política, trata-se de uma ferramenta da própria população para reivindicar suas demandas, e não mais dos governantes.

O pesquisador Flávio de Campos ainda vai além neste sentido. Para o historiador, toda e qualquer tentativa de colocar a Copa como um instrumento político por parte do Governo vem da própria oposição e que, nesse sentido, isso é completamente incabível.

O general-presidente Emílio Garrastazu Médici ergue
a taça de campeão da Copa do Mundo de 1970
(Foto: reprodução) 
“Em 1970 você tem o sucesso do Brasil nos gramados como um elemento que ajudaria a alimentar ainda mais essa ideia de Brasil grande. Estávamos no contexto do ‘milagre econômico’, da ditadura, do cerceamento de liberdades, violação de direitos humanos… Nesse momento eu acho incrível e também criminoso como alguns setores da imprensa tentam comparar 1970 com 2014″, afirma Campos, que enumera as diferenças. “Primeiro por que não vivemos mais em um regime de exceção, estamos em um período de plena liberdade democrática. Em segundo lugar, quem mais está politizando a Copa do Mundo não é o Governo, são as oposições, sejam elas as burguesas ou as mais à esquerda. Quem está utilizando o evento do ponto de vista da instrumentalização política não é o Governo Federal que, aliás está tímido nesse sentido”, afirmou o historiador.

Campos, inclusive, lembra que a Copa do Mundo no Brasil está cercada de erros em organização em detrimento de investimentos em outros setores da sociedade, mas que a culpa não deve ser depositada integralmente no Governo Federal. “Uma questão crucial é a percepção que a população está tendo desta Copa. A impressão é que toda a culpa dos erros desse evento devam ser depositadas na conta da Dilma. Mas essa conta toda não é do Governo Federal. Ela tem que ser distribuída com uma série de governos estaduais e prefeituras, de diversas siglas, que também são responsáveis pelos atrasos nas obras de infra-estrutura, de mobilidade e até mesmo agiram, em alguns momentos, por meio da sabotagem”, ressaltou, tomando como exemplo os gastos com a construção desnecessária de novos estádios, como no caso do Mineirão, em Minas Gerais, que foi completamente destruído para a construção de uma nova arena durante a gestão do governador Aécio Neves (PSDB).

Com tantas manifestações contrárias à Copa e em prol de legados para o país, o que muitas pessoas esquecem  é que talvez, o maior legado deixado pelo evento, não seja novas estações de metrô, estádios ou hospitais. Como explica Spaggiari.

“Quando pensamos em legado, sempre nos vem à mente algo concreto. Mas podemos falar de vários legados possíveis. O maior que vejo nesta Copa é o protagonismo político do esporte. Se a gente for fazer uma retomada histórica, o esporte nunca teve o papel político que tem agora. Mais do que um instrumento político, as pessoas tomaram o futebol como uma questão política. Haja visto a formação dos comitês populares da Copa, a articulação dos movimentos sociais. Isso, invariavelmente, é um grande e o maior legado”, analisou Enrico Spaggiari.

Manifestação em São Paulo questionando os gastos
com a Copa do Mundo. (Foto: Mídia Ninja)

Esse legado veio como resultado justamente da luta daqueles que acreditavam que não haveria legados. Ainda que não tenham concretizado o jargão que “não vai ter Copa”, conquistaram de forma latente a crítica e o questionamento e, se tem algum setor da sociedade que depois dessa Copa não será mais o mesmo, este setor é o esporte.

Para o pesquisador Flávio de Campos, torcer pela seleção brasileira, não invalida qualquer tipo de reivindicação. “Eu acho que a questão mais importante que essa Copa trouxe à tona é a necessidade da ação política. Apesar do descrédito que nós temos hoje com os nossos representantes no executivo e no legislativo, há uma valorização da política, mesmo que não seja plenamente consciente. Eu duvido que teríamos uma discussão como essa se a Copa não fosse realizada no Brasil nesse momento. Isso é o legado de uma Copa democrática”.


FONTE: Revista Fórum Semanal

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Plano Nacional de Educação aprovado. E agora?


Lei que sociedade exigiu, e Congresso finalmente votou, combina compromisso com qualidade com abertura à inovação. Mas a batalha decisiva está na implantação das políticas


Por Cleomar Manhas


Se a educação sozinha não pode mudar a sociedade,
tampouco sem ela a sociedade muda.
Paulo Freire



Aprovou-se o Plano Nacional de Educação (PNE) depois de três anos e cinco meses de tramitação.  Até onde nossa vista alcança, foi um projeto que recebeu intensa incidência política, fazendo história. Recebeu cerca de três mil emendas logo em sua primeira parada na Comissão Especial instalada na Câmara dos Deputados para sua análise.

Todas as organizações da sociedade civil voltadas ao tema da educação estiveram presentes e atuantes. Destaque para a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que brilhantemente conseguiu garantir em uma das metas o Custo Aluno-Qualidade, indicador que fará com que a União faça a complementação do Custo Aluno nos locais que não conseguirem atingir o valor mínimo. Destaque ainda para as organizações estudantis como UBES- União Brasileira dos Estudantes Secundaristas e UNE- União Nacional dos Estudantes que lotaram os plenários e fizeram muito barulho bom de se ouvir.

Esta intensa mobilização, garantindo um processo de negociação com a participação de todos os agentes políticos e de todas as forças da sociedade responsabiliza, também, todos e todas com a aplicação e com o controle social do Plano, cada um com o seu papel. A nós, como sociedade, cabe fiscalizar, monitorar, incidir para que a sua implementação ocorra de forma a promover a educação como direito humano. É comum ouvirmos que mais dinheiro não garante uma boa gestão. Claro que não, mas é preciso mais dinheiro sim, e muito, pois em inúmeros  lugares desse país gigante ainda estamos na idade da pedra lascada.

Em recente processo de formação do projeto Onda- Adolescentes em Movimento Pelos Direitos, desenvolvido pelo Inesc em escolas públicas, utilizando metodologia de pesquisa para que os estudantes ouvissem a comunidade escolar da qual participam,  trabalhamos o tema educação de qualidade e o que motiva a sua não realização, como o número expressivo de adolescentes que abandonam a escola no ensino médio, ou antes mesmo de acessá-lo.

A impressão geral, coletada pela pesquisa, é que as escolas são pouco atraentes e, em geral, não ouvem o seu público. E apesar de acharem a escola pouco sedutora, a boa surpresa é que gostam dessa instituição, especialmente das públicas, por as julgarem mais democráticas que as privadas. No entanto, gostariam de vê-las equipadas a contento e voltadas para um mundo próximo daquele onde vivem e de acordo com o momento que o vivenciam.

Outra questão constatada, que reforça a impressão de que parlamentares estão distantes da sociedade, é que motivos fortes da evasão escolar ancoram-se nas desigualdades de gênero, de orientação sexual e de raça. E apesar disso, retiraram do PNE a possibilidade de se enfatizar o enfrentamento a essas desigualdades e amadurecer o processo educacional como acolhedor de todas as diferenças. Infelizmente vivemos um momento de grande obscurantismo e retrocessos conservadores.

Contudo, mesmo com percalços e perdas ao longo da estrada, o balanço é positivo e este é o melhor Plano Nacional de Educação que já tivemos. Além de nos municiar de elementos para recrudescermos a velha batalha por educação de qualidade. E as aves agourentas podem dizer que isso é chavão, que os movimentos voltados à educação dizem ser esta política uma panaceia, mas verdade seja dita, é isso mesmo, educação de qualidade não resolve tudo, mas muda tudo. Muda a forma de as pessoas verem o mundo, dá a elas liberdade e independência de pensamento, promove-as.

E o PNE trata de reestruturação das redes municipais e estaduais, o que implica na qualificação dos profissionais de educação e melhora salarial, equalizando seus salários com o dos profissionais com o mesmo nível de formação. Espera-se que a União faça valer o artigo 211 da Constituição e não fuja à responsabilidade de garantir padrões mínimos de qualidade. No entanto, os municípios e estados da mesma forma devem priorizar a educação, visto que a vida real acontece no solo das cidades e não na abstrata “União”.

O PNE aborda de questões importantes e menos priorizadas pelos sistemas que é a Educação de Jovens e Adultos e o enfrentamento ao analfabetismo. É preciso políticas transformadoras desta realidade de profunda violação de direitos, que são os inúmeros analfabetos funcionais e totais que temos. As pessoas precisam ser promovidas e libertadas da pedra lascada.

A ampliação da oferta de creches públicas é, também, uma política da maior importância e deve sempre estar na área da educação, para que faça parte do processo educacional e não seja apenas uma oferenda assistencialista. Esperamos que desta vez a oferta seja mais coerente com a demanda que é enorme, especialmente, nos bairros periféricos das grandes cidades.

E vamos ao nosso papel de sociedade, a participação em todas as instâncias. Apesar de alguns críticos dizerem que temos conselhos demais, nosso nível de participação ainda está muito aquém do necessário, precisamos que a comunidade escolar de fato seja comunidade, que os pais estejam presentes no cotidiano de seus filhos e filhas e, que além de fiscalizar se as metas estão sendo atingidas, contribuamos para a democratização das escolas. Pelo fim das instituições totais e a favor do compartilhamento.


FONTE: Outras Palavras

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Crise no jornalismo estimula aumento de blogs científicos


Agência Fapesp


Por Elton Alisson



A crise pela qual passa o jornalismo mundial, causada em parte pela convergência para novas plataformas digitais, tem afetado a cobertura jornalística de ciência e estimulado o surgimento de blogs científicos em diversos países, inclusive no Brasil. A avaliação foi feita por Juliana Santos Botelho, pesquisadora e coordenadora da Coordenadoria de Comunicação Científica (CCC/Cedecom) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em um painel sobre o uso de mídias sociais na comunicação da ciência durante a 13th International Public Communication of Science and Technology(PCST), recentemente em Salvador, Estado da Bahia.

Com o tema central "Divulgação da ciência para a inclusão social e o engajamento político”, o encontro ocorreu pela primeira vez na América Latina e reuniu pesquisadores de mais de 50 países para debater práticas e estratégias de comunicação e divulgação científica adotadas em diferentes partes do globo. "Há um crescimento do número de blogs de ciências no mundo, especialmente nos países que falam inglês, e a crise no jornalismo mundial tem contribuído para esse aumento”, disse Botelho, que também mantém, o blog Diálogos com Ciência e realizou um estudo sobre 150 blogs no Brasil.

De acordo com dados apresentados pela pesquisadora, a crise no jornalismo mundial tem causado um alto número de demissões em massa e a redução do número de jornalistas em atuação nas redações dos grandes veículos de imprensa em todo o mundo, incluindo os do Brasil. Uma das principais consequências desse processo, na avaliação dela, é um número cada vez menor de jornalistas cobrindo um número cada vez maior de assuntos.

Em razão disso, a cobertura de ciência nos grandes veículos perdeu espaço editorial nas páginas dos grandes jornais e no noticiário das emissoras de rádio e de televisão. "Essas mudanças têm causado impactos na cobertura de ciência feita pelos grandes veículos de comunicação, em termos de qualidade, em todo o mundo”, avaliou Botelho.

De acordo com a pesquisadora, outra consequência sensível do impacto da crise do jornalismo na comunicação da ciência é a homogeneização cada vez maior da cobertura jornalística do assunto. Com a redução do número de jornalistas nas redações, os veículos de comunicação de diversos países têm recorrido cada vez mais a materiais jornalísticos padronizados sobre ciência produzidos por agências de notícias internacionais, apontou Botelho.

O problema é que os veículos recebem o mesmo tipo de material que seus concorrentes, que também compram das agências de notícias, e fazem pequenas adaptações. Na maioria das vezes, as matérias sobre ciência produzidas pelas agências de notícias internacionais são relacionadas à produção científica de países do hemisfério Norte, ressaltou Botelho.

"Os pesquisadores brasileiros não aparecem na maior parte das matérias sobre pesquisas científicas publicadas no Brasil, por exemplo. E, quando aparecem nas notícias sobre ciência, é para comentar os resultados de estudos que foram publicados por pesquisadores de países do hemisfério Norte”, avaliou.

Crescimento dos blogs

A fim de suplantar a perda de espaço editorial dedicado à ciência, especialmente na mídia impressa, e aumentar a divulgação de resultados de pesquisas realizadas por cientistas brasileiros, tem aumentado o número de blogs de ciência no Brasil, apontou Botelho. O número de blogs de ciência brasileiros, contudo, ainda é bem menor do que o número de blogs nos Estados Unidos e na Europa. E as políticas editoriais para os blogs ainda são muito incipientes no Brasil, destacou a pesquisadora.

"No Brasil não temos políticas editoriais muito estruturadas para blogs em geral e para os blogs científicos como as implementadas por veículos de imprensa e instituições universitárias de países como os Estados Unidos e Reino Unido”, comparou Botelho. Segundo a pesquisadora, alguns veículos de comunicação têm optado por cientistas (ou pessoas de outras áreas que nunca tinham usado blogs) para serem seus blogueiros colaboradores.

Outras especificidades dos blogs de ciência brasileiros, de acordo com Botelho, é que eles são bastante independentes. Em sua maioria, não estão ligados a empresas de comunicação ou instituições. O volume de notícias publicadas pelos blogs científicos brasileiros presentes nos veículos de comunicação também é menor do que o de outros blogs independentes no país. A publicação nos blogs da imprensa é constante, mas não é muito frequente. O que mais chama a atenção da pesquisadora nos blogs de ciência no Brasil, contudo, é a falta de interatividade. "Isso pode ser uma característica cultural do Brasil”, avaliou Botelho. "Geralmente as pessoas se sentem mais à vontade para postar seus comentários em redes sociais, como o Facebook e o Twitter, mas não nos blogs”, disse Botelho.

A pesquisadora ressaltou, no entanto, que, apesar da importância dos blogs científicos para aumentar a difusão da comunicação de ciência, eles não devem substituir a cobertura jornalística de ciência pelas mídias tradicionais, como jornal, rádio e televisão. Isso porque esses meios de comunicação já possuem público cativo e abordam assuntos científicos com maior frequência do que os blogs científicos, apontou Botelho.

"Os blogs científicos possuem um papel muito importante de experimentação de novos formatos de publicação e de estilos de escrita. Mas não devem, de forma alguma, substituir a cobertura jornalística sobre ciência e sim complementá-la”, afirmou.

Leia mais sobre as mudanças no jornalismo científico em http://agencia.fapesp.br/17649


FONTE: Adital

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