domingo, 22 de abril de 2018

Nova geopolítica do Vaticano: perto da China, longe dos EUA



Chineses saúdam o Papa na Praça São Pedro em Roma


Com Francisco, a geopolítica do Vaticano é marcada por aproximação com a China, a Rússia, a América Latina e as periferias. E distância dos EUA e dos governos de direita na Europa e no mundo. Vira-se a página tanto da visão geopolítica de João Paulo II de alinhamento com os EUA numa dinâmica anticomunista e antiesquerda como da visão do “eurocentrismo frouxo” de Bento XVI

Por Mauro Lopes


A normalização das relações entre a Igreja Católica e a China, esperada para as próximas semanas é resultado de um dos mais notáveis feitos de Francisco: a mudança radical operada na geopolítica do Vaticano. Este giro talvez possa explicar a oposição crescente ao Papa de forças poderosas, pois na esfera da geografia política está a balança do poder global.

É uma virada espetacular. Foram 70 anos de conflito que estão para ser deixados para trás. O sinal definitivo de que as negociações estão maduras para um desenlace veio em 30 de janeiro, quando o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, declarou numa entrevista ao Vatican Insider: “A esperança é poder chegar um dia, quando seja a vontade do Senhor, em que não se fale mais de bispos ‘ legítimos’ e ‘ilegítimos’, ‘clandestinos’ e ‘oficiais’ na Igreja chinesa, mas num encontro como irmãos”.

Durante décadas, a Igreja esteve dividida entre uma “patriótica”, admitida pelo governo chinês, e uma “clandestina” (na verdade, mais discreta que clandestina), alinhada ao Vaticano. Em dezembro, uma delegação vaticana esteve em Pequim e costurou um acordo para que todos os bispos, seja os da Igreja “patriótica” como os da “clandestina” passem a compor uma estrutura única.

João XXIII, João Paulo II e Bento XVI

Foram quase 40 anos, sob João Paulo II e Bento XVI, especialmente sob Karol Wojtyla, de uma geopolítica vaticana orientada pelo anticomunismo. O auge desta política foi sob João Paulo II, nos marcos da Guerra Fria. O papa polonês era um anticomunista ferrenho que ideologizou por completo as relações geopolíticas do Vaticano. Rompeu-se a lógica eurocêntrica de séculos e soterrou-se igualmente a tentativa de abertura ensaiada por João XXIII.

O “Papa bom” opôs-se vigorosamente à excomunhão de Fidel Castro, depois da vitória socialista em Cuba, mas acabou dobrando-se à exigência da Cúria em janeiro de 1963. Pouco depois, recebeu no Vaticano a filha e o genro de Kruschev, num encontro marcado por afeto e delicadezas mútuas, num gesto de grande impacto. Pouco antes, em 24 de outubro de 1962, João XXIII havia feito um histórico pronunciamento pela Rádio Vaticano, no auge da “crise dos mísseis” entre os Estados Unidos e Cuba, com frases que foram manchete em todos os jornais do mundo: “Nós suplicamos a todos os governantes que não fiquem surdos a este grito da humanidade. Que façam tudo aquilo que está em seu poder para salvar a paz. Evitarão assim ao mundo os horrores de uma guerra, da qual não se pode prever quais serão as terríveis consequências”.

O cume da visão geopolítica de João XXIII –e de seu sentido de humanidade e cristianismo- foi a publicação, em 11 de abril de 1963, da encíclica Pacem in Terris, que propugnava a superação completa da confrontação entre os blocos capitalista e socialista e uma paz fundamentada nos princípios da igualdade e da liberdade.


Ronald Reagan com João Paulo II: aliança contra a esquerda

Depois da morte de João XXIII, a ação geopolítica do Vaticano ficou imersa em idas e vindas, características do papado de Paulo VI, até que João Paulo II, a partir de sua eleição, em outubro de 1978, tornou o Vaticano em força auxiliar do capitalismo, especialmente do neoliberalismo, com uma aliança inédita com os Estados Unidos (Ronald Reagan e George Bush) e Inglaterra (Margaret Thatcher) e anatemizando a esquerda.

Para que se tenha uma ideia da relevância da ação geopolítica de Wojtyla, o general Vernon Walters, ex-vice-diretor da CIA e nomeado em 1981 como embaixador itinerante do governo Ronald Reagan, manteve encontros secretos semestrais com o Papa entre 1981 e 1988, nos quais repassava informações secretas da inteligência dos EUA sobre os países do Leste europeu e a América Latina –inclusive sobre os leigos e padres da Teologia da Libertação. Foram cerca de 20 encontros. O próprio diretor da CIA, William Casey, participou de algumas das reuniões. O Vaticano passa a receber informes específicos da CIA sobre padres e bispos vinculados à Teologia da Libertação especialmente na Nicarágua e em El Salvador, e a guiar sua ação na região por estes informes[1].

Os anos de Bento XVI, que do cardeal ativíssimo à frente da Inquisição nos anos de João Paulo II, como um Torquemada do século XX, tornou-se um Papa alquebrado e impotente, foram de ensimesmamento nas relações globais do Vaticano e uma tentativa tímida e sem sucesso de recuperar a visão eurocêntrica anterior a João XXIII.

Francisco muda tudo

Desde sua posse, em 2013, Francisco iniciou uma aproximação sigilosa com a China, a partir de iniciativas tímidas ocorridas em 2007 durante o papado de Ratzinger. O Papa encontrou um governo chinês desejoso de uma nova relação com a Igreja e o Ocidente, por conta de seu projeto de hegemonia global que pretende contrapor-se ao big stick americano com uma proposta baseada em comércio e diálogo.

As relações entre cristãos e comunistas foram muito frutíferas na Europa nos anos 1950/60, a partir de experiências como a Ação Católica ou os padres operários franceses, e na América Latina, a partir do desabrochar da Teologia da Libertação nos anos 1970 –até a interdição estabelecida por João Paulo II.

Há muita possibilidade de convergência, segundo o bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, atual chanceler da Pontifícia Academia das Ciências do Vaticano. Ele voltou a Roma, depois de uma viagem a Pequim, há dez dias, entusiasmado com o que viu e anotou: “há muitos pontos de encontro entre a China e o Vaticano”. Ele fez afirmações surpreendentes: “Neste momento, os que atendem melhor a doutrina social da Igreja são os chineses.” Ainda mais, num momento em que o Comum é tema cada vez mais relevante nas formulações de caráter pós-capitalista, o bispo indicou que a China dever ser olhada com atenção: “Eles se preocupam com o bem comum, subordinam as coisas ao bem comum”. Uma declaração ainda mais ousada causou a fúria dos conservadores católicos saudoso de Wojtyla: “Pequim está defendendo a dignidade da pessoa, seguindo mais do que os outros países, a encíclica Laudato Si” [encíclica do Papa sobre o planeta Terra e o meio ambiente].

Do lado chinês, elogios e gestos na direção do Vaticano. No início de fevereiro, o Global Times, vinculado ao Partido Comunista, escreveu que “o povo chinês respeita o Papa”, que “tem um imagem positiva entre os chineses”, que o restabelecimento das relações diplomáticas é questão de tempo, e que os problemas estão sendo superados com base na “sabedoria” de Francisco.

Um dos obstáculos ao acordo, o cardeal emérito de Hong Kong Zen Ze-kiun, anticomunista ferrenho e que tinha voz decisiva no Vaticano com Wojtyla e Bento XVI, foi colocado de lado por Parolin e Francisco. Em 30 de janeiro, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, criticou abertamente o cardeal – o que é raríssimo, em se tratando de Igreja Católica - acusando-o de “alimentar a confusão”.

EUA

O governo americano, especialmente sob Trump, está de cabelo em pé com o movimento Vaticano-Pequim, que pôs a pique a estratégia de Guerra Fria renovada da Casa Branca. Houve pressão da diplomacia americana –imediatamente rechaçada pelo Vaticano.

As relações entre o Vaticano e os EUA são como água e óleo, e isso vem desde a campanha eleitoral, quando o Papa acusou o então candidato Trump de “não ser cristão” por suas posições contra os imigrantes e refugiados. Foram seguidos confrontos públicos e nos bastidores. Trump chegou a afirmar que iria à Itália e não visitaria o Papa, mas recuou e foi ao Vaticano em maio de 2017; a foto do encontro é antológica e tornou-se simbólica do status da relação entre a Igreja e a Casa Branca.

A famosa foto do encontro de maio de 2017 com a familia Trump:
desconforto
Francisco ataca sistematicamente todos os valores defendidos pela visão capitalista de Trump. Chegou a afirmar que o capitalismo é “insuportável”, uma “ditadura sutil” e que o dinheiro, idolatrado pelo empresário-presidente americano, é o “esterco do diabo”.

Por isso, se você quiser saber onde está o Papa em qualquer questão mundial relevante, saiba onde está Trump –Francisco estará no polo oposto (e vice-versa). Outra situação notável: enquanto Trump que destruir Coreia do Norte e ameaça o país com bombas nucleares, Francisco é um dos maiores incentivadores públicos da aproximação entre as duas Coreias, qualificando os movimentos recentes entre Pyongyang e Seul de um exemplo “de um mundo no qual os conflitos se resolvem pacificamente com o diálogo e em respeito recíproco”.

Rússia

Não é só a China que está na agenda de Francisco. Ele pretende ser o primeiro Papa a visitar a Rússia. O cardeal Parolin esteve no país entre 20 a 24 de agosto, numa viagem –desde 1888 um secretário de Estado do Vaticano não pisava em solo russo; esteve com Putin e com Kirill, patriarca de Moscou e de toda a Rússia e primaz da Igreja Ortodoxa Russa.

Parolin foi chave na costura do histórico encontro entre Francisco e Kirill em Havana, em fevereiro de 2016, depois de quase mil anos sem que os chefes da Igreja Católica e Ortodoxa Russa tivessem contato, num clima de intensa afetividade.  Também com a Rússia as coisa andam rapidamente –ainda mais pensando na complexidade de relações tão marcadas por separações e traumas.

Putin com o Secretário de Estado Parolin: cardeal é figura-chave
na virada do Varicano

“O resultado é substantivamente positivo” –assim resumiu Parolin o resultado de sua viagem. De fato. O governo russo comprometeu-se a usar sua força (inclusive militar) no Oriente Médio para defender as minorias religiosas. Além disso, reafirmou-se a identidade entre Moscou e o Vaticano na visão sobre a Síria, de apoio ao governo de Bashar al-Assad e longe dos jihadistas –financiados pelos EUA.

América Latina, Europa, as periferias e o fim dos blocos

O Papa do “fim do mundo”, como ele se definiu na noite em que foi apresentado ao povo na Praça São Pedro e em quase todo o planeta tem uma visão geopolítica que não se limita à relação com as potências como China, Rússia e Estados Unidos.

Francisco mantém distância de governos de direita na América Latina –é notório que ele evita visitar seu país, a Argentina, sob a presidência do neoliberal Mauricio Macri, condenou o golpe de 2016 no Brasil e recusou-se a pisar novamente no país em 2017, mesmo com as celebrações dos 300 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora Aparecida, de quem devoto. Ao mesmo tempo, cultiva relações fraternas com o presidente boliviano Evo Morales, assim como com líderes dos movimentos sociais da região, como João Pedro Stedile –foi expressiva a presença de latino-americanos nas três edições do Encontro Mundial dos Movimentos Populares.



Evo Morales visita Francisco no Vaticano: relação calorosa

Com o Papa do “fim do mundo”, que enterrou o eurocentrismo da Igreja Católica (ao menos simbolicamente) ficou também decretada a superação da contraposição ideológica entre católicos e socialista; a contraposição agora é entre os que estão ao lado dos pobres e aqueles que defendem os ricos e os sistemas de exploração e opressão das pessoas. Para Francisco “não existem mais os blocos contrapostos” do passado –afirmou em seu discurso ao Parlamento europeu de Estrasburgo de 25 de novembro de 2014.

Há protagonismo de Francisco no Velho Continente, em especial no tema dos migrantes e refugiados. E um de seus interlocutores mais assíduos é exatamente o primeiro-ministro socialista da Grécia, Aléxis Tsípras, com quem “costurou” uma sequência de reuniões entre o Vaticano e grupos marxistas europeus.

Uma imagem possível para mudança da geopolítica da Igreja Católica: o Vaticano deixou o G-8 e agora está nos BRICS.
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1] BERNSTEIN, Carl; POLITI, Marco. Sua Santidade: João Paulo II e a História Oculta de Nosso Tempo. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996, p. 274 a 276


domingo, 15 de abril de 2018

Quem mais lucra com o bombardeio dos EUA na Síria?



Por Mário Augusto Jakobskind *


Trump deixou de lado o seu slogan "América primeiro", para ordenar
o bombardeio/ Fotos Públicas


Mídia comercial mudou da água para o vinho em relação ao presidente Trump.

De repente, não mais do que de repente, a mídia comercial conservadora mudou da água para o vinho em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Motivo foi o bombardeio dos mísseis Tomahawk, disparados do mar Mediterrâneo contra uma base militar síria. E tudo teve por base uma suposta utilização de armas químicas pelos militares sírios, tornando-se o fato uma verdade inquestionável, ou seja, de que os sírios utilizaram armas químicas – gás sarin – provocando dezenas de mortes, entre elas crianças.

O episódio de alguma forma lembra a primeira invasão norte-americana no Iraque quando o então Secretário de Defesa, Collin Powell foi ao Congresso revelar uma mentira, comprovada posteriormente, de que o Iraque de Saddam Hussein não tinha as tais armas de destruição em massa. A diferença é que hoje o mundo pôde assistir, com justa indignação, as imagens das vítimas. E que o Congresso estadunidense na época foi consultado para promover a invasão, o que não aconteceu agora.

De antemão, sem nenhum tipo de questionamento por parte dos Estados Unidos e de outros governos, Bashar Al Assada foi considerado o único culpado pela tragédia. A negativa da responsabilidade por parte do governo sírio não foi praticamente considerada, prevalecendo a única acusação, que se tornou a única verdade. Nem foi cobrada uma investigação sobre quem está correto.

Trump deixou de lado o seu slogan “América primeiro”, para ordenar o bombardeio, cujo custo não foi revelado pela mídia comercial conservadora, que visivelmente aproveitou o embalo para dar a guinada em apoio ao presidente. Há quem garanta que ele apenas cedeu aos interesses do complexo industrial militar, que exigiu a ação contra o governo sírio.

Obrigado ou não, o bombardeio foi realizado com muito poucos questionamentos, um deles por parte da Rússia, que já se prontificou a oferecer mais garantias militares aos sírios. A ação norte-americana, segundo opinam observadores independentes foi inócua em termos de resolução do conflito iniciado em 2011, não passando de mais uma jogada de puro marketing, que governos impopulares realizam para tentar reverter desgastes. Foi o que fez Trump, obrigado ou não a dar a guinada de 180 graus.

Quem pode afirmar com absoluta razão que os sírios utilizaram as armas químicas, se as mesmas já tinham sido banidas há algum tempo, inclusive com supervisão internacional? A primeira pergunta que deve ser feita: a quem interessava o uso das armas químicas e a efetivação da tragédia? O menos interessado no caso é o próprio governo de Bashar Al Assad que com a ajuda da Rússia tinha o controle da maior parte do território com o enfraquecimento dos terroristas, que, por sinal, a mídia comercial conservadora nos últimos dias não mais o designavam como terroristas, mas como rebeles. Ou seja, a al Qaeda e outras organizações do gênero passaram a ser consideradas “rebeldes”.

E assim caminha o noticiário internacional, cuja repercussão na carta dos leitores dos jornalões só acusa o governo sírio pela barbaridade acontecida. Inventadas ou não, as cartas são um dos sintomas do bombardeio midiático no sentido de queimar de vez o “ditador” Bashar Al Assad, mas colocando agora Donald Trump nas alturas.

É explicável, na medida em que ele se enquadrou ou foi enquadrado para seguir o que interessa a um segmento da indústria estadunidense, o complexo industrial militar, a imagem midiática de Trump passa a entrar em novo patamar de aprovação. No plano internacional, países europeus, entre os quais a Inglaterra, Alemanha e França já o aplaudiram tendo por base a única versão aceita, qual seja a de que a Síria usou armas químicas contra a população civil. Como comprovação de que a hipocrisia é um dos componentes da atualidade em termos de pronunciamento, vale assinalar o apoio efusivo do primeiro ministro de Israel, o belicista Benjamin Netanyahu, que provavelmente vai aproveitar o embalo no sentido de Trump apoiar uma eventual aventura bélica contra o Irã, algo que o governante extremista nunca deixou de lado.

Por estas e outras, depois do bombardeio com os mísseis lançados do Mar Mediterrâneo, a situação na região tornou-se ainda mais grave, com possibilidade até mesmo de aumento da tensão nos mais diversos quadrantes do planeta. Uma pergunta que não quer calar: quem lucra com isso? A resposta é óbvia: o complexo industrial militar que se sente contemplado com a guinada de Trump.

Desestabilização na Venezuela

Luis Almagro, o secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) que está a serviço de Washington e faz o possível e o impossível para derrubar o Presidente constitucional da Venezuela se reuniu em Brasília com o Ministro do governo golpista brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira. E mais uma vez procuraram desestabilizar o governo venezuelano. Na nota que divulgaram foi dito que a “crise” por lá se resolveria com a convocação imediata de eleições.

Que moral tem Almagro, já desmoralizado por ter feito com que a OEA voltasse a ser uma entidade gênero Ministério das colônias, por atender as pressões do Departamento de Estado norte-americano? E que moral tem Nunes Ferreira prestando serviço a um governo ilegítimo-golpista e que ao assumir depois de um golpe parlamentar não aceita convocar os eleitores imediatamente para uma eleição presidencial objetivando decidir o futuro ocupante do Palácio do Planalto? E quando se efetivou o golpe no Brasil, a mesma OEA simplesmente se calou diante do que aconteceu, na prática chancelando o acontecido.

Agora, as duas figuras mencionadas se somam ao coro das forças retrógradas em ação na América Latina para derrubar o governo bolivariano, com o respaldo integral da mídia comercial, que não se cansa em diariamente apresentar matérias encomendadas contra o Presidente Nicolas Maduro. A meta é enganar a opinião pública com o objetivo de fazer com que incautos caiam nas mentiras e meias verdades esparramadas diariamente nos jornalões e telejornalões.

Vale recordar que nestes dias completam 15 anos de uma tentativa de golpe contra o Presidente Hugo Chávez que vale lembrar voltou nos braços do povo. Um empresário golpista, Pedro Carmona, que pode ser encontrado hoje no lixo da história assumiu o governo por poucas horas, tendo sido reconhecido por Washington, então sob a Presidência de uma figura de triste memória chamada George W. Bush.

Desde então o governo venezuelano, seja nos tempos de Hugo Chávez e do atual Presidente Nicolas Maduro, tem sofrido violentas pressões, tanto seguidamente por parte dos Estados Unidos, como na atualidade por governos como o do golpista Michel Temer ou do argentino Maurício Macri, passando por Horacio Cartes, do Paraguai.

Nos últimos dias as pressões se intensificaram, inclusive com matérias com o claro objetivo de queimar a Revolução Bolivariana.

Atualmente o governo dos EUA é ocupado por Donald Trump, que com o bombardeio realizado contra a Síria está assumindo as diretrizes de Hillary Clinton, que também nunca deu sossego ao governo venezuelano em seus pronunciamentos como senadora ou quando ocupava a Secretaria de Estado.

Trocando em miúdos, Wall Street que apoiou Hillary Clinton, está agora fazendo as pazes com Trump, se é que os anteriores pronunciamentos do magnata que hoje ocupa a Casa Branca foram em algum momento para valer.

No caso da América Latina é relevante neutralizar de todas as formas possíveis as pressões externas e internas que tentam - como tentaram em 2002 - dar um golpe e colocar no governo forças defensoras dos interesses estadunidenses, inclusive sequiosas pelo petróleo que a Venezuela é grande produtora.

Em outras partes do planeta, como na Síria, o governo Trump na prática tenta fazer o mesmo que foi feito contra a Líbia pela gestão anterior de Barak Obama, que tinha durante algum tempo como Secretária de Estado nada mais nada menos que Hillary Clinton. Ela nunca escondeu sua vibração quando ocorreu o assassinato do líder Muammar Khadafi, transformando-se o pais também rico em petróleo numa região sob o controle de terroristas que ganharam espaços com os bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que alguns jornalões e telejornalões seguem denominando como aliança ocidental.

É claro que tais fatos apresentados resumidamente nesta reflexão não são divulgados pelos jornalões e telejornaloes, que se intitulam defensores da liberdade de imprensa, escondendo também a verdadeira defesa, ou seja, da liberdade de empresa.


* Mário Augusto Jakobskind é jornalista, integra o Conselho Editorial do Brasil de Fato no Rio de Janeiro, escritor e autor, entre outros livros, de Parla - As entrevistas que ainda não foram feitas; Cuba, apesar do Bloqueio; Líbia - Barrados na Fronteira e Iugoslávia - Laboratório de uma nova ordem mundial.


terça-feira, 27 de março de 2018

América Latina: as faces do novo autoritarismo


Poderia ser o Rio, mas é a Cidade do México. Lá, assim como no Brasil e Argentina, avança a
"Doutrina de Segurança Urbana".


Militares voltaram às ruas no Brasil, México e Argentina. Agora, não combatem o “comunismo”, mas o “crime” e o “terror”. E não têm projeto algum: obedecem a uma elite corrupta e aos planos dos EUA



Por Isabella Gonçalves

As democracias latino-americanas vêm passado por um processo de profunda (des)configuração após mais de uma década de experimentalismo democrático, que teve seu ápice na Venezuela e na Bolívia, onde as experiências de poder popular e reinvenção do Estado construíram transformações experimentais na organização do poder político e transformações substantivas na condição de vida das pessoas.

Golpes parlamentares, reviravoltas eleitorais à direita, legislações de exceção, intervenções militares e agora uma ameaça concreta de invasão militar na Venezuela lançam sobre o continente a sombra do militarismo e do autoritarismo.

No Brasil, o governo ilegítimo de Temer decidiu romper o pacto federativo e mudar o comando da segurança pública de todo o Estado do Rio de Janeiro, colocando-o nas mãos das Forças Armadas. Desta forma, imprime no país uma condição de estado de exceção, ajuda a conter os levantes de um Estado à beira do colapso e legitima a matança irresponsável e impune dos condenados de sempre: pretos, pobres e favelados.[1]


Na Argentina, vimos nas últimas semanas o governo Macri anunciar a criação de um aparato militar composto pelo exército, marinha e aeronáutica para atuar em todo o país no combate ao “narcotráfico e o terrorismo” e a suposta ameaça do povo indígena Mapuche. A criação dessa força militar se dá em um momento de crescimento da impopularidade das medidas aplicadas ao país, como a Reforma da Previdência.

No México, o governo assassino de Enrique Peña Nieto, marcado pelo massacre de Ayotzinapa que tirou a vida de 43 estudantes, e pela violação de mais de 26 mulheres em São Salvador Atenco pelas forças policiais, promulgou uma nova Lei de Segurança Nacional. A lei regulamenta a mobilização militar contra o “crime organizado”; porém, longe de combater os cartéis do narcotráfico, aliados de seu partido — o PRI –. serve primordialmente para garantir a “paz social” e a coerção necessária para um regime de neoliberalismo extremo.

A Venezuela é um caso a parte. Diante da solidez das forças de Estado e da força popular, que foi capaz de resistir a mais de uma década de tentativas de golpe de estado e desestabilização do governo Chaves e Maduro — tentativas até agora fracassadas –, existe uma movimentação para a ocupação militar do país promovida pelos Estados Unidos e seus aliados. Panamá e a Colômbia já concentram tropas próprias e tropas gringas nas fronteiras. A intervenção norte-americana aparece de forma mais desmascarada na Venezuela, manifestada nas próprias palavras de Rex Tillerson, secretário de Estado dos EUA e historicamente ligado às petroleiras Exxon-Mobil: “El régimen de Maduro debe rendir cuentas”. Tillerson explicitamente disse que a mudança de governo poderia ser de duas formas: intervenção militar ou a derrota eleitoral de Maduro. Diante da recusa da oposição venezuelana em participar das eleições gerais em abril deste ano, parece que a está se confirmando a tentativa de executar a primeira opção.[2]

Seria exagero dizer que podemos estar diante da instauração progressiva de uma novo ciclo de ditaduras disfarçadas de democracia no continente? Um novo autoritarismo latino americano onde os mecanismos de exceção e poder militar servem para garantir um Estado que lança mão da exceção permanente quando as regras democráticas não agradam a quem de fato governa?

A cara de uma nova ditadura não é necessariamente a dos Estados militares que dominaram a América Latina durante a Guerra Fria, onde o “inimigo interno” era fundamentalmente a ameaça comunista. A doutrina da segurança nacional, largamente difundida desde a Escola das Américas no Panamá entre os anos 60 a 80, parece ser retomada e intensificada sobre novos contornos. Vale destacar que na América Latina a orientação militar de se organizar as forças armadas para combater os “inimigos internos” nunca foi desmontada e a doutrina da segurança nacional continuou a ser difundida e praticada pelos militares, em especial no Brasil  onde ocorreu transição fria e pactuada. No entanto, o “inimigo interno” que justifica a militarização da sociedade se transmutou.

O jurista argentino Raúl Zaffaroni defende que existe uma reprodução inovada no continente da Doutrina da Segurança Nacional sob a força de Doutrina da Segurança Urbana, por trás do combate ao crime organizado, terrorismo ou da chamada “guerra às drogas”.[3] Esta doutrina recria o inimigo interno sobre o significante aberto “crime organizado”, que pode enquadrar desde a “esquerda corrupta e antidemocrática”, o “narcotráfico” ou os “movimentos sociais terroristas”

Zaffaroni destaca que a construção do inimigo interno tem seu correspondente no direito penal, que sofreu um processo de configuração e homogeneização em todo continente nos últimos anos. Externamente os Estados se organizam de forma ostensiva para combater o “crime organizado” ou o “terrorismo”. Internamente, para encarcerar ou eliminar as classes perigosas, seja por efeitos de letalidade policial seja por endocídio.[4]

Segundo ele, os conceitos de terrorismo e crime organizado são tão fluidos e abertos que possibilitam o enquadramento da mais variedade gama de crimes, em geral crimes econômicos. Não combatendo aquelas formas de crime legalizados ou as grandes empresas do crime organizado que promovem transferências maciças de recursos na globalização — os paraísos fiscais por exemplo — acabam eliminando a concorrência de empresas criminais menores ou que perderam seu poder.

Vale destacar que o novo autoritarismo latino-americano surge em um contexto específico da reconfiguração do capitalismo na região. Por um lado, o aprofundamento da dependência econômica e a extrema concentração de renda: com o desmonte e privatização das estatais, as transferência de recursos via dívida externa, a deterioração das condições de trabalho e aprofundamento da superexploração. Por outro, a subordinação política ao capital transnacional e a perda de soberania dos Estados.

A perda da soberania, longe de significar o enfraquecimento dos Estados ou do poder políticok revela-se justamente o contrário. As debilidades econômicas, a característica subordinada das classes dominantes locais e as crises sociais advindas do regime de superexploração são compensadas pelas dimensões autoritárias do Estado e do governo, mesmo que sob feições democráticas.[5] O neoliberalismo longe de produzir um Estado Mínimo, cria nas periferias um regime jurídico-político marcado pelo estado de exceção permanente.[6]

O exemplo México pode nos dizer muito sobre a configuração de um novo autoritarismo latino-americano.[7] Sujeito a décadas ininterruptas de governos neoliberais, desmonte dos direitos democráticos via acordos bilaterais com os EUA, democracia minimalista circunscrita a uma breve alternância entre representantes de um ou dois partidos com a mesma política, o país organizou um poder político violento, paramilitar e contra insurgente.

O Brasil hoje também se configura como exemplo de que não há como manter o bloco golpista no poder, colocando em prática um plano de governo com esse nível de impopularidade, apenas com base no estabelecimento de consensos. É necessária a violência e a coerção. É preciso aprofundar a permanência da exceção nas nossas “democracias”. Como denunciou no Carnaval de 2018 a escola Paraíso do Tuiuti, é preciso calar a favela para perpetuar a escravidão.

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[1]Escrevi um breve ensaio sobre a intervenção para o Brasil em 5 em que relaciono a adoção de medidas de exceção progressivas pelo país com a emergência de um novo autoritarismo: https://brasilem5.org/2018/02/20/c-de-intervencao/

[2]Veja matéria sobre as declarações de Rex Tillerson em: https://es.panampost.com/orlando-avendano/2018/02/01/discurso-secretario-tillerson-sobre-venezuela-regimen-maduro-debe-rendir-cuentas/. Também podemos ver o artigo de Carlos Fazio: http://www.jornada.unam.mx/2018/02/12/opinion/021a1pol Ambos acessados em 23 de fevereiro de 2018.

[3]Zaffaroni, E. Raúl. Globalización y Crimen Organizado. I Conferência mundial de derecho penal. El derecho penal del siglo XXI. Guadalajara, 18-23 Noviembre 2007.

[4]La violencia entre personas de los mismos sectores subalternos, al tiempo que por eliminación disminuye su número39, impide el diálogo, la toma de conciencia y la coalición y, por ende, hace que se autoexcluyan de todo protagonismo político. La neutralización y autodestrucción física y cultural de los excluidos como consecuencia de la política del segurismo interno puede denominarse endocidio.

[5]Para saber mais ler Jaime Osório, 2014, O Estado no Centro da Mundialização.

[6]Valim, Rafael. Estado de exceção: a forma jurídica do neoliberalismo. Jornal GNN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/noticia/estado-de-excecao-a-forma-juridica-do-neoliberalismo-por-rafael-valim Acessado em 18 fevereiro de 2018.

[7]Jaime Osório, 2014 no livro O Estado no Centro da Mundialização faz a defesa de que México se converteu em um Estado que abriu mão da sua legitimidade, através de sucessivas fraudes eleitorais, para instaurar mecanismos profundos de militarização da vida.


quarta-feira, 14 de março de 2018

Partidos no mundo, renovações e o PSOL



Por Jorge Antunes *



Um fenômeno interessante tem sido verificado em várias partes do mundo político. Jovens lideranças abandonam partidos e agrupamentos políticos tradicionais em que militavam, para criarem seus próprios partidos.

Em Portugal está se formando o “Iniciativa Liberal”. Na Espanha surgiu o “Podemos”. Na França foram criados o “Em Marcha” e o “França Insubmissa”. Na África do Sul a novidade é o “Lutadores da Liberdade Econômica”. Na Alemanha foi criado um novo partido nazista: o “Die Rechte”, liderado pelo neofascista Christian Worch. Na Colômbia surge o “Força Alternativa Revolucionária do Comum”(FARC). Na Argentina a ex-presidenta Cristina Kirchner organiza a criação de novo partido: o “Unidade Cidadã”. O “Movimento Cinco Estrelas”, criado em 2009, na Itália, pelo humorista Beppe Grillo, já elegeu quatro prefeitos e conquistou 26% das cadeiras na câmara dos deputados e 24% das cadeiras no senado.

No Brasil, é a direita que tem se destacado, criando partidos novos. Um deles é o “Novo”. Seu fundador é o engenheiro João Dionísio Amoêdo que defende as teses da direita, incluindo o liberalismo econômico. O TSE deferiu o registro do partido em 2015. O “Novo” defende o fim das cotas nas universidades e a flexibilização para o porte de armas.

Outro partido novo, também de direita, deverá já estar deferido pelo TSE em outubro: o “Partido da Igualdade”. Liderado pelo goiano Claudio Martins de Lisboa, esse partido combate a legalização do aborto e as drogas.

Mais de 50 outros partidos estão em formação, aguardando julgamento do TSE. Alguns deles: Partido Liberal (PL), Partido Muda Brasil (PMB), Nova Ordem Social (NOS) e Unidade Popular pelo Socialismo.

O desgaste dos partidos políticos está dando lugar à esperteza das velhas raposas, para ludibriar o eleitorado com a mera e simples mudança de nomes das agremiações. O PTdoB mudou o nome para “Avante”, o PTN agora se chama “Podemos”, o PSDC virou “Democracia Cristã” e o PMDB, agora, é MDB.

Podemos

Em 2014 foi criado, na Espanha, um novo partido de esquerda: o “Podemos”. Sua origem foi um manifesto, intitulado “Mover ficha: convertir la indignación en cambio político”, que foi publicado nas redes sociais num final de semana de janeiro de 2014. O manifesto trazia cerca de 30 signatários, entre os quais estavam personalidades da área cultural, escritores, filósofos e professores universitários.

O manifesto clamava a necessidade de se construir uma candidatura que concorresse às eleições europeias de maio de 2014, para se opor às políticas da União Europeia voltadas à crise econômica. O novo partido conquistou rapidamente milhares de seguidores e apoiadores. Foi indicado, como candidato, o analista político Pablo Iglesias, professor da Universidade Complutense de Madrid.

A participação do novo partido nas eleições europeias de 2014 teve sucesso, com a obtenção de cinco cadeiras, com 8% dos votos. Em poucos dias o Podemos superou os partidos tradicionais tais como o PSOE de centro-esquerda e o PP de direita.

Em Marcha

Em 2012 o presidente socialista da França, François Hollande, nomeou o jovem banqueiro Emmanuel Macron como secretário-adjunto da Presidência da República. Em 2014 Macron passou a ser Ministro da Economia. Em 2016 ele saiu do governo, para fundar seu próprio partido, o “La République en Marche” e lançou-se candidato à Presidência.

Na sua campanha de candidato, Emmanuel Macron logo conquistou enorme número de apoiadores e formulou os princípios que o norteariam: probidade, paridade, renovação, pluralismo político, coerência e mais mulheres na política. Macron foi eleito e é, hoje, o presidente da França. O En Marche se revela um partido de centro, social-liberal, que adota o liberalismo econômico e social.

A França Insubmissa

Em 2016, também na França, Jean-Luc Mélenchon fundou um novo partido de esquerda: La France Insoumise (França Insubmissa). A pretensão de Mélenchon era ser eleito presidente da República em 2017. O novo partido não conseguiu fazer acordo com o Partido Comunista Francês e, assim, não houve aliança.

O partido La France Insoumise se reivindica socialista, comunista, ecossocialista, marxista, anticapitalista e defende um populismo e um nacionalismo de esquerda.

Atualmente o partido conta com 17 deputados na Assembleia Nacional e um deputado no Parlamento Europeu.

Lutadores da Liberdade Econômica

Em julho de 2013 o líder sul-africano Julius Malema, então com 31 anos de idade, foi expulso da Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano, agremiação da qual tinha sido presidente. Logo em seguida, Malema criou um novo partido: o Economic Freedom Fighters (Lutadores da Liberdade Econômica). Atualmente o EFF é o terceiro maior partido da África do Sul. Em 2014 o partido de Malema recebeu mais de um milhão de votos.

Malema e seu partido têm ideologia comunista, pan-africana, marxista-leninista, anti-imperialista e anticapitalista. Sua plataforma é bastante arrojada, defendendo a expropriação de terras da África do Sul sem indenização, a nacionalização de minas e bancos, desenvolvimento industrial, educação, saúde e moradia de qualidade e gratuita. Em uma de suas manifestações recentes, Julius Malema disse que 2018 vai ficar na história como o ano em que os negros voltaram à política.

Recentemente o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acusado de corrupção, renunciou. Em seu lugar assumiu o vice Cyril Ramaphosa, eleito pelo Parlamento. Mas sua eleição não agradou a Julius Malema e a seu partido Lutadores da Liberdade Econômica. A bancada abandonou o Parlamento, acusando a eleição de ilegítima, defendendo a dissolução do Parlamento e a convocação de eleições. Novas eleições presidenciais serão realizadas em 2019.

Psol

Pelos relatos acima, em que resumimos a história de novos partidos surgidos neste início do século XXI, observamos a coincidência do fenômeno: um jovem político resolve criar um partido novo “para chamar de seu”, e se dá bem. Tudo dá certo, o partido cresce e ganha o poder das massas.

No Brasil aconteceu algo parecido, agora, com pequena diferença. O Psol convidou um jovem político, não filiado ao partido, para ser candidato à presidência da República, e o jovem político aceitou. O Psol ofereceu, ao jovem político recém-filiado, um partido “para chamar de dele”.

Isso vai dar certo? Sim, claro, vai dar certo provisoriamente. Juntaram-se a fome e a vontade de comer. Nenhuma das figuras públicas do partido queria se desgastar, aceitando a missão inglória de se candidatar à presidência da República, sabendo antecipadamente da derrota. Colocar um dos atuais vereadores ou deputados do partido nessa aventura, seria condená-lo à não reeleição para o mandato de parlamentar. Essa justificativa fica escondida nas recônditas conjecturas, porque outra maior justificativa se apresenta: o partido precisa manter ou aumentar sua bancada, para não ser penalizado pela “cláusula de barreira”. Pouco importa, no momento, se a base do Psol se divide. Vale o sacrifício. Logo logo tudo se ajeita. Alguns militantes gritam, esperneiam, abandonam o partido, mas em poucos meses tudo se recompõe.

Da parte do jovem político, tudo é também satisfatório. Com os dois ou três por cento que ele receberá nas urnas, em outubro deste ano, ele se cacifará para seguir os passos de Macron, Malema, Iglesias e Mélenchon. Tomo a liberdade futuróloga para vaticinar: em 2020 ou 2021 ele abandonará o Psol, para fundar um partido novo “para chamar de seu”. Esse partido novo poderá receber o nome de “Vamos”. Ou, então, poderá também receber um nome mais contestador, como, por exemplo, “Movimento dos Trabalhadores Sem Teto”. Mas, para isso, será preciso que a desgraça brasileira continue a existir por mais dois ou três anos, e que todos os sem-teto continuem sem-teto por mais tempo, e que cresça ainda mais a quantidade de sem-teto. Caso contrário o novo partido não terá seguidores.



* Jorge Antunes é Doutor em Esthetique Musicale – Universite de Paris 8; é presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacustica; professor titular aposentado da Universidade de Brasília; Pesquisador Colaborador Sênior da Universidade de Brasília e Membro da Academia Brasileira de Música.



domingo, 4 de março de 2018

Crise Silenciosa Da Educação






Por Gabriel Grabowski     


De modo progressivo e muito preocupante, o Estado começou a se desonerar de encargos econômicos nas áreas da educação e da pesquisa básica.

Recentemente, a filósofa americana Martha Nussbaum, em sua obra Sem fins lucrativos, fez uma constatação e um alerta preocupante: “estamos em meio a uma crise de enormes proporções e de grave significado global. Não, não me refiro à crise econômica global de 2008… Refiro-me a uma crise, que, como o câncer, passa em grande parte despercebida: uma crise mundial da educação. Uma crise silenciosa, indolor, imperceptível num primeiro momento, como o câncer, que a maioria de nós não está diagnosticando. Nussbaum afirma que estão ocorrendo transformações radicais no que as sociedades democráticas ensinam a seus jovens e tais mudanças não têm sido bem pensadas, nem analisadas, e pouco debatidas. Obcecados pelo Produto Nacional Bruto (PNB), a maioria dos países e de seus sistemas de educação está descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter viva a democracia. Persistindo essa tendência, brevemente, os países estarão produzindo gerações de máquinas produtivas, em vez de produzirem cidadãos íntegros.

Quase a maioria dos países europeus, bem como as universidades americanas, segundo o filósofo italiano Nuccio Ordine, estão orientadas para a redução dos níveis de dificuldades a fim de permitir que os estudantes passem nos exames com maior facilidade. “Parece que ninguém se preocupa, como deveria, com a qualidade da pesquisa e do ensino. Estudar e preparar as aulas já se tornou um luxo que é preciso negociar todos os dias com a hierarquia universitária ou na gestão escolar”, complementa.

Tanto Martha Nussbaum (Universidade de Chicago), quanto Nuccio Ordine (Universidade da Calábria) não colocam em dúvida a importância da preparação profissional nos objetivos das escolas e das universidades, mas destacam que a função da educação não pode ser reduzida à formação profissional de médicos, engenheiros, advogados, tecnólogos e demais profissionais, imprescindíveis para o desenvolvimento das nações. Eles alertam que privilegiar, exclusivamente, a profissionalização dos estudantes significa perder de vista uma dimensão universal da função formativa da educação: nenhuma profissão poderia ser exercida de modo consciente se as competências técnicas que ela exige não estivessem subordinadas a uma formação cultural mais ampla, capaz de encorajar os estudantes a cultivarem autonomamente seu espírito e a possibilitar que expressem livremente sua curiosidade e criatividade.

De modo progressivo e muito preocupante, o Estado começou a se desonerar de encargos econômicos nas áreas da educação e da pesquisa básica. Este processo de decadência do mundo universitário, a exemplo de algumas universidades canadenses, bem como brasileiras, americanas e inglesas, tem transformado os estudantes em clientes. “E o que fazem os clientes? Compram diplomas”, afirma Nuccio Ordine. Isso é um erro terrível.

Já as instituições de ensino estão sendo transformadas em empresas, produtoras de diplomados e titulados para inseri-los no mundo do mercado. Também os professores estão transformando-se cada vez mais em simples burocratas à serviço da gestão comercial das empresas universitárias, passando dias a preencher formulários e produzir relatórios. No Brasil, com a expansão da Educação à Distância, até as aulas estão preparadas, programadas, homogeneizadas e, qualquer um, pode substituir o colega e aplicar o conteúdo aos jovens clientes.

Este foco míope nas competências lucrativas corrói nossa capacidade de criticar a autoridade, reduz nossa simpatia pelos marginalizados e pelos diferentes de nós e prejudica nossa competência para lidar com problemas globais complexos. Por esta linha de raciocínio que a filósofa americana defende conectar a educação às humanidades.

Para Ordine, hoje assistimos a uma ditadura do mercado. “Em qualquer âmbito, em qualquer situação, em qualquer momento de nossa vida é preciso levar sempre em consideração a que serve, quanto se ganha, qual é o proveito disto. Penso que está lógica destruirá a humanidade”. Com tal perspectiva, damos aos jovens outras indicações. Dizemos: “Pense no seu egoísmo. Pense em fazer dinheiro. Matricule-se na universidade não para aprender, mas para apresentar um diploma ao mercado. Escolha a faculdade que vai lhe fazer ganhar dinheiro”. É assim que estamos corrompendo nossos jovens.

Nossas escolas precisam ter mais consciência do mundo em que nossos alunos vão viver. O pragmatismo e utilitarismo, tanto do mercado, como da educação para a economia, estão produzindo uma sociedade moderna que, segundo o sociólogo e historiador norte-americano Richard Sennett, desabilita as pessoas na condução da vida cotidiana. Dispomos de muito mais máquinas do que nossos antepassados, mas de menos ideias sobre a melhor maneira de usá-las; temos mais canais entre as pessoas, graças às modernas formas de comunicação, mas menor compreensão sobre como nos comunicar bem. A destreza prática é uma ferramenta, e não uma salvação, a ela as questões de Significado e Valor não passam de abstrações.

O problema central hoje, para professor português António Nóvoa, é reequilibrar as missões universitárias, entre as funções econômicas e as funções sociais e culturais. Em vez da empregabilidade, é preciso compreender o sentido de uma formação universitária que vá para além de um ciclo inicial de estudos e que forneça as bases para percursos de vida, que integram a relação com o trabalho, mas que não se esgotem nesta dimensão. Em vez da eficiência, no seu sentido mais limitado, é preciso repensar o todo universitário, conseguindo que não se perca o sentido de universalidade e tudo o que nele protege uma vida acadêmica que tem de prestar contas, mas não o deve fazer unicamente com base no seu “valor económico imediato”; e, em vez da inovação como simples prolongamento tecnológico, é preciso que a universidade se constitua como um ambiente aberto e estimulante, criativo, capaz de promover nos estudantes uma cultura de descoberta e de responsabilidade, que se projete numa nova relação com a sociedade.

A educação deve ser concebida não somente como fornecedora de competências e habilidades técnicas úteis, mas, principalmente, como um meio de enriquecimento geral da pessoa através da informação, do pensamento crítico, da imaginação e do conhecimento científico para uma vida com sabedoria. Os tempos atuais requerem que a educação escolar cumpra sua missão de educar os humanos – através de uma formação integral –, para viverem juntos neste mundo, acolhendo os diferentes, promovendo espaços comuns de aprendizagem, consolidando uma cidadania global, com democracia e liberdade.

Enquanto estas ideias e reflexões ganham força e credibilidade em muitos países, transformando-se em políticas públicas de Estado, o governo vigente do Brasil, assume a perspectiva neoliberal e subordina a educação à lógica do desenvolvimento econômico, do mercado e do ajuste fiscal. A indução a profissionalização precoce com o “novo ensino médio”, a expansão dos cursos superiores de tecnologia de curta duração, a ampliação da oferta na modalidade de educação à distância e uma Base Nacional Comum Curricular baseadas nas competências e habilidades escancara a opção oficial do MEC.



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O triste fim de um projeto de conciliação de classes



EDITORIAL   A NOVA DEMOCRACIA


A polarização que se gerou em torno do processo movido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e recebido pelo judiciário na figura do juiz Sérgio Moro terminou contribuindo para que as paixões falassem mais alto do que os fatos. Por certo, isto não se tratou de uma estupidez que fez de Luiz Inácio e do PT vítimas de perseguição política, como querem alguns analistas. Muito ao contrário, obedece ao plano desesperado de um establishment dividido, que busca viabilizar a eleição de um presidente mais confiável, pela sigla do Partido Único, preferencialmente do PSDB.

Qual plano? Manter sobre ataque Luiz Inácio e o PT para dar-lhes palanque, fortalecendo-os como um perigo e uma ameaça de seu retorno à presidência do país. Para que? Para produzir o voto útil num candidato do PSDB. Caso a candidatura de Luiz Inácio cresça a ponto de ameaçar ir com muita força para o segundo turno, farão como fizeram com o impeachment de Dilma e com a condenação de Luiz Inácio em questão, inviabilizando sua candidatura. As classes dominantes exploradoras e opressoras exibem seu “Estado Democrático de Direito” para violar seu marco constitucional, legal, quando se apresenta necessário fazê-lo.

Para se demonstrar o caráter farsesco deste julgamento, sem efetivamente entrarmos no mérito e muito menos nas responsabilidades do PT e de Luiz Inácio nos casos de corrupção envolvendo a Petrobrás e empreiteiras, temos que voltar a 2002 quando da sua primeira eleição ao gerenciamento do Estado brasileiro.

Depois de três disputas malsucedidas levantando bandeiras de históricas reivindicações do povo brasileiro, tal como a reforma agrária, além da retórica do radicalismo pequeno-burguês, o PT resolve elaborar um projeto de declarada conciliação de classes, aproveitando do crescente descontentamento popular com as péssimas condições de vida. Essa situação foi agravada pela crise cambial resultante de oito anos de gerenciamento do PSDB, abalando sua viabilidade eleitoral.

Em primeiro lugar, montou uma chapa tendo como vice um representante da grande burguesia, na sua fração burocrática, José de Alencar. Num segundo momento, para tranquilizar o “mercado” e a Embaixada ianque, assinou a “Carta aos brasileiros”, expressando seu acordo à política de subjugação nacional imposta pelo imperialismo, principalmente ianque. Daí para frente autodenominando-se “lulinha paz e amor”.

Foi eleito e cumpriu com o juramento, respeitando todos os contratos firmados pelo gerenciamento de Cardoso com o FMI, Banco Mundial e a Casa Branca. Colocou um latifundiário no Ministério da Agricultura, agraciou o mercado com a raposa Henrique Meirelles, recém-eleito deputado federal pelo PSDB, a tomar conta do galinheiro, ou seja, do Banco Central.

Luiz Inácio, já pela metade de seu gerenciamento, se vangloriava de que jamais na história do Brasil os bancos e os ricos, em geral, haviam ganho tanto dinheiro. Para tal, ele abriu as portas do BNDES e ampliou o crédito escancaradamente.

Como parte do projeto de conciliação de classes, as classes dominantes, afeitas ao lucro máximo, tiveram que engolir o programa do Banco Mundial, o fracassado “fome zero”, depois transformado em Bolsa Família, como consolo aos mais pobres do país. Isso, ao mesmo tempo, deu ao PT e à sua frente oportunista eleitoreira a base de onde criou a clientela de curral eleitoral, além de cooptar as organizações sindicais e populares.

Com o passar do tempo, a relação entre o oportunismo e seus amos foi chegando a um patamar que exigia redefinição do acordo. A crise econômica mundial de 2008 cobrava das colônias e semicolônias cobrir os prejuízos do imperialismo.

Já no gerenciamento de Dilma Rousseff, o “mercado” exigia a implementação de um programa liberal que significava, principalmente, retirar direitos dos trabalhadores e avançar sobre a renda dos mesmos por meio do desemprego e arrocho salarial.

Com sua política de cooptação e corporativização das organizações dos trabalhadores, o PT desarmou o proletariado e os servidores públicos para o enfrentamento contra o inimigo de classe (cooptando as centrais sindicais), usou a Contag e MST em suas estruturas burocráticas, mudando suas ações para apoiar o governo, enquanto organizou a repressão mais covarde, como todos os gerenciamentos anteriores, contra o movimento camponês combativo por meio de sua genocida Operação “Paz no Campo”. Assim consolidou sua aliança com os setores mais retrógrados da sociedade dentro da velha política do “é dando que se recebe”.

Chegada a segunda eleição de Dilma Rousseff, numa campanha em que esta negava a retirada de direitos dos trabalhadores, chegando a declarar que, sob seu gerenciamento, isso não ocorreria “nem que a vaca tussa”, bastou pôr-se eleita para chamar um banqueiro (Joaquim Levy) para implementar o programa defendido pelo seu principal concorrente Aécio Neves/PSDB. Diante do boicote de parte dos militantes do PT, o banqueiro não conseguiu implementar as medidas pretendidas. Aí a crise se instalou com todas as vicissitudes que ela pode trazer: impeachment, cassação, “Lava Jato” e crise econômica, social, política e moral em que se afundou o país.

Como advertimos na época, a instalação da Operação “Lava Jato”, manejada pela Embaixada ianque e Rede Globo, tem o objetivo de lavar a fachada do sistema para reverter a séria crise de credibilidade e legitimidade das carcomidas instituições do velho Estado. Para fazer-se crer verdadeira, atacou um amplo espectro das cúpulas partidárias para alcançar os políticos envolvidos em corrupções e propinas vindas de empreiteiras e da Petrobrás. Mas, direcionando-se especialmente para representantes do PT, simplesmente por terem sido um dia de esquerda – com destaque para os dirigentes como José Dirceu e Luiz Inácio, dentre outros – teve o objetivo de queimar a esquerda como corrupta e com isto debilitar qualquer perspectiva verdadeiramente revolucionária, em meio da grave crise de dominação que se abriu no país.

Americanófilos instalados na PGR, nas esferas do Judiciário e no Alto Comando das Forças Armadas, instigando a deduragem promovida com o instituto da delação premiada, jogaram a rede ao mar arrastando peixes de todos os tamanhos, porém, recolhendo preferencialmente petistas.

A atuação dos tribunais, neste caso, não passa de jogo de cena para conduzir no fim da linha o manejo já traçado pelo imperialismo e seus sabujos.

Mesmo renovando juras à fração burocrática da grande burguesia, o oportunismo petista não poderá reeditar seu projeto de conciliação de classes baseado no assistencialismo e arremedos de desenvolvimentismo, pois que já foram usados – e desempenharam o papel de sabujos – para cumprir os propósitos pretendidos pelas classes dominantes no gerenciamento do velho Estado. Agora só lhes está reservado um papel secundário como força auxiliar da velha ordem.

Não é a primeira vez na história que o oportunismo dá com os burros n’água, dando lugar ao assanhamento da velha direita, aos setores mais reacionários e entreguistas das classes dominantes. Como em um dia, já remoto, foram de esquerda e seguem posando como se fossem, são chamados até de comunistas pela direita fascista energúmena e, manhosamente, de esquerda populista pelo PSDB e outros. Nada disto! Rigorosamente, o PT sequer pode ser considerado socialista burguês. Contudo, seu miserável destino é o de ser tão somente sócio menor na administração do Estado burguês, latifundiário, serviçal do imperialismo.


Como desmontar a Ciência e Tecnologia brasileiras

CNPq, entidade essencial ao desenvolvimento nacional, é o alvo da vez. Série de cortes brutais em Educação e Ciência escancara um Brasil q...