sábado, 26 de agosto de 2017

Tempos idos e vividos X


Por Aluizio Moreira


Apesar de ter uma participação no movimento estudantil enquanto graduando, na UNICAP, minha atividade política não sofreu solução de continuidade, por alguma incompatibilidade com a atividade de docente, ao contrário de amigos ultra-esquerdistas quando estudantes de curso superior, mas uma vez portador de um diploma, a verve revolucionária simplesmente desaparecera.

Por indicação do professor José Ernani do Departamento de História da Unicap, fui contratado em 1979 pela Fundação do Ensino Superior de Olinda – Funeso. 

E embora minha atividade política enquanto graduando tivesse ocorrido grande parte na Unicap, em 1980 fui admitido no Departamento de História desta Universidade por indicação da Chefe de Departamento Profa. Alda Simonetti. 

Tive livre acesso à Revista Symposium que se editava na Instituição, onde publiquei alguns artigos: “A greve geral de 1917 no Recife (v.23, nº 1, 1981), “O Nordeste na Primeira República” (v. 24, nº 1, 1982), “As ideias socialistas de classes sociais em Pernambuco na República Velha” (v. 25, nº 1, 1983), “A questão teórica da transição: problematizações” (v.25, nº 2, 1983). 

Naquele mesmo ano de 1980, a profa. Maria José (Zeza) Chefe do Departamento de História da UNICAP indicava-me para assumir a docência na Faculdade de Formação de Professores de Goiana, mantida pela Autarquia do Ensino Superior de Goiana, tendo participado da criação da Associação de Docentes da Faculdade de Goiana – ADESGO e de sua lª Diretoria.

Em 1983 conclui Mestrado em História do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) com a dissertação As ideias politicas e outras ideias de dois quarante-huitards pernambucanos: Abreu e Lima e Antonio Pedro de Figueiredo, onde discuti a influência do socialismo utópico nestes dois pensadores pernambucanos. 

Neste mesmo ano fiz parte da Comissão da Diretoria Provisória da ADOF (Associação de Docentes da Funeso), como representante do Departamento de Estudos Sociais.


                                                                Publicação comemorativa dos 30 anos da ADOF - 2013


Minha participação nas Associações de Docentes nas duas Instituições motivaram minha demissão em 1984 na Funeso (ADOF), e em 1990 na Faculdade de Formação de Professores de Goiana (ADESGO).

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Na Funeso, no início de 1984 solicitaram minha disponibilidade para o 2º semestre daquele ano, e embora tivesse oferecido três dias na semana para assumir as aulas de História Moderna e Contemporânea, sob a alegação que não havia horário disponível para mim, desligaram-me da Faculdade. 

No caso da Faculdade de Goiana, as vésperas do carnaval de 1990, recebi um telegrama comunicando-me que não fazia mais parte do corpo docente. Na quinta feira após o carnaval um outro telegrama despedia minha esposa que também lecionava naquela Instituição. Ao procurar saber o motivo de minha demissão, o presidente da Autarquia Municipal da gestão Oswaldo Rabelo, argumentou que por ser militante do PCB, não poderia continuar lecionando na Faculdade. E ao indagar o motivo da demissão da minha esposa, a resposta foi “porque ela é mulher de um comunista”. Na verdade a motivação não fora só esta: é que éramos membros da Diretoria da Associação de Docentes que ajudamos a criar na Faculdade. Como houve mobilização de alguns professores e alunos contra o ato do Prefeito, fomos reintegrados, mas dois dias depois nos davam uma justa causa.

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Resoluções do VIIIº Congresso
do PCB - 1987
O PCB volta à legalidade em 1985, e no ano seguinte (maio de 1986) surgia a necessidade de se promover Conferencias preparatórias com vistas à realização do VIII Congresso com data a ser definida. As Conferencias se realizaram no segundo semestre de 1986, fazendo parte de sua pauta a discussão sobre as eleições que ocorreriam no país para governadores, senadores, deputados federais e estaduais.

Neste mesmo ano de 1985 com o PCB de volta à legalidade, a situação do socialismo no mundo se transformava. Na URSS, desde a Revolução de Outubro influenciou “corações e mentes”, com reflexos não só na Europa como na América Latina As mudanças acontecidas a partir de 1985 a 1991, com a chamada Era Gorbachiov, que fez desaparecer a URSS neste último ano, repercutiria da mesma forma no comunismo internacional, inclusive no nosso PCB. Alguns partidos comunistas europeus riscaram de suas siglas a palavra comunista, alteraram seus programas adequando-os à social-democracia. 

No Recife, em 1985, reunidos nas dependências da Assembleia Legislativa do Estado, polarizaram-se as posições entre a opção pela aliança política com a esquerda (fiz parte desse tendência), na época representada pelo PT, e as posições que defendiam alianças ampla com outros partidos (Freire, Jungman, e Sarinho), sobretudo com o PMDB. Lembro-me que as divergências do PCB que terminariam com a cisão que levaria à formação do PPS em 1992, se delineava, já a partir das Conferências pelo menos em Pernambuco.

Durante essa Conferencia de 1986, o PCB no Estado escolheria o ingresso de novos membros na organização, o que levaria a uma composição dos dois grupos.  Entre os que apoiavam a tendência de aliança ampla, figuravam Roberto Freire, Raul Jungman e Byron Sarinho. Na nova configuração, fui escolhido para o Secretariado da Educação a nível de município e o camarada professor James, para o Secretariado da Educação a nível de Estado, nas quais procuramos desenvolver cursos de iniciação ao comunismo e uma breve história do PCB para os novos militantes, que tinham ingressado no Partido.

Foi a partir daí que sentimos uma grande dificuldade na nossa organização local: grande parte das reuniões foram boicotadas pelos adeptos de Freire, simplesmente faltando em bloco às reuniões, o que inviabilizava nossa atuação. Fui criticado por que passei a defender a expulsão dos militantes das células que boicotassem as reuniões.

Sem solução para o impasse, deixei o Secretariado de Educação no município o mesmo acontecendo com o camarada James. Ausentei-me do Partido, embora mantivesse minha filiação partidária, voltando-me quase que exclusivamente para a área de minha formação profissional.

Finalmente em junho de 1987 o PCB realizaria o VIII Congresso (Extraordinário) a fim de discutir as orientações nos anos seguintes e eleger uma nova direção nacional, sendo eleitos Salomão Malina (presidente) e Roberto Freire (Vice-presidente). Quanto a orientação do Partido, optou-se pela luta em defesa da democracia, como parte da luta pelo socialismo.

Cinco anos depois no X Congresso realizado em 1992, cria-se o PPS (Partido Popular Socialista) declarando-se extinto o PCB, no entanto em 1996, o Partido conseguia seu registro definitivo junto ao TSE O PCB continuaria existindo.


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Publicação do Centro de Estudos
Políticos Olga Benário Prestes

Em 1991, classificado em Concurso Público, transferi-me para a Universidade Federal da Paraíba-Campus II, atual Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Naquela cidade aproximei-me do Centro de Estudos Políticos Olga Benário Prestes, organizado e dirigido pelo Prof. Waldomiro Cavalcanti de quem fui aluno de graduação no Departamento de História da UNICAP. Surpreendi-me ao encontrar o prof. Waldomiro pertencendo aos quadros de docentes da ex-UFPB-Campus II.

Aposentei-me da Universidade, no ano de 1996, tendo regressado para o Recife naquele mesmo ano, onde continuaria minhas atividades de docente em Cursos de Graduação e Pós-Graduação em algumas Faculdades locais, sem que as salas de aula tivessem modificado minha concepção de mundo.

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Toda esta minha vivência política deixou-me a convicção de que não há qualquer possibilidade de transformação, no sentido radical do termo, nos quadros do sistema capitalista. O que me parece claro, é que a chamada democracia representativa, tem seus limites impostos pelo capital, e não será por este caminho que a sociedade conquistará a “verdadeira democracia”, cuja base será a constituição do poder popular, representado por Conselhos organizados nos vários setores da sociedade. A era da democracia burguesa caminha para seu fim.

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