quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Indústria da seca, poder político e pobreza


Por Liliana Peixinho 

Seca castiga rebanhos de gado/Foto: Liliana Peixinho
O cenário da seca no Nordeste é de descaso, abandono e dor. As gestões municipais desconsideram estudos, previsões e diagnósticos já realizados. Resultados de pesquisas científicas, com indicadores de ciclos climáticos, servem mais para justificar a captação de recursos para elaboração de projetos e programas que não saem do papel, do que para ações reais de prevenção e cuidado com a vida. A falta de planejamento fortalece articulações políticas para a liberação de recursos emergenciais alocados em rubricas que deveriam potencializar a riqueza local para a auto-sustentação comunitária. Mas, em campo, a lógica é perversa. Parece ter sido calculada para manter sistemas que não funcionam, como a Saúde, a Educação, a Moradia e a Segurança.

A miséria é alimentada em períodos longos. Programas de benefícios de combate à fome e à miséria absoluta funcionam no curto prazo, mas ao longo dos anos os efeitos são preocupantes, pois inibem a proatividade e a sustentabilidade comunitária. O plantio diminui, os pastos aumentam, a mata some, o lixo aparece, os leitos dos rios somem e o povo, em agonia, faz de conta que vive. A informação circula rápido, de boca em boca, para cultuar valores descartáveis, incentivados por um modelo econômico que confunde crescimento com desenvolvimento a qualquer custo.

É exatamente sobre esse verdadeiro flagelo social e suas consequências que vai tratar a série de oito reportagens especiais Sertão Adentro, realizada pela jornalista e ativista Liliana Peixinho especialmente para o Mercado Ético.

TOMA LÁ, DÁ CÁ

“Nunca vi tanto dinheiro solto como nessas eleições! Os caras chegavam era com os pacotes de mil reais, para conversar com os contatos das negociações de voto”. Ouvi essa frase de um senhor, numa conversa informal, com a cara mais cínica do mundo, sorriso largo de quem sabe que não está agindo certo, mas que parecia se justificar na máxima: “oxe, quem está melhorzinho faz assim. Por que eu ficaria de fora?”

Quem entra na conversa com discurso ético é logo cotado como besta e ingênuo. O que as pessoas dizem nas ruas é que não adianta nada pensar assim, porque se um não faz, tem outro, logo alí, já esperando a oportunidade pra fazer, pois a “necessidade é grande e os filhos, aos montes, esperam comida”.

Sobrevivendo mesmo diante das dificuldades
Foto: Liliana Peixinho
A miséria mantém seus elos com a insegurança alimentar, fome, sede, degradação de ambientes… Estão casadas com a falta de aplicação de recursos no combate aos efeitos perversos da indústria da seca. A falta de acesso à água para sanar problemas de perdas na agricultura, comércio e manter as cadeias de produção em torno da Vida é histórica e não basta denunciar, é preciso fechar o ciclo de crimes impunes.

O cidadão, que fortalece o poder político, continua sendo controlado através de contrapartidas eleitoreiras de enganação. E o Sertão é alvo histórico nesse processo. É o bolsa familia e outros sistemas de manutenção da miséria que indica a relação direta entre a falta de produção de feijão, milho, mandioca e outras culturas tradicionais de roças em cidades Nordeste adentro e afora.

“Faz mais de cinco anos que a gente não consegue mais plantar e colher como antes. Agora temos que comprar tudo na cidade: o feijão, a farinha, o milho e até a mandioca, que a gente sempre fez a tapioca, e agora compramos o polvilho, já refinado“, diz Eroncio Porciono, pequeno agricultor de 54 anos, dois filhos, que recebe o benefício do governo e usa para comprar a cesta básica na cidade. Mesmo assim, ele tem muita dificuldade com tudo, inclusive para manter os filhos na escola, distante do local onde mora.

O Sertão está sedento de cuidados, Justiça, atenção, respeito ao seu povo. Na Bahia, por exemplo, dos 417 municípios do estado, mais da metade, cerca de 240 prefeituras, solicitaram o “decreto de estado de emergência”. Usado mais como ato político eleitoreiro, na criminosa compra de votos, do que para aquilo que o povo necessita, espera, merece e tem direito. As comunidades rurais continuam sofrendo muito com a falta d’àgua e todos os seus ciclos produtivos, interrompidos.

PERDAS EM CADEIAS

Um olhar contextualizado sertão adentro revela que a àgua é utilizada como moeda forte de troca. No curto tempo, na emergência de socorrer a vida, banaliza-se os meios políticos utilizados para, a longo prazo, aumentar o sofrimento nordestino, registrado em lentes ampliadas. Essa resistência aos efeitos negativos da seca alimenta a injeção gorda de recursos em programas como Água pra Todos, Combate à pobreza, miséria dentre outros, espalhados em Ministérios. Os desvios e desperdícios agem rápido no agravamento do quadro de miséria, capitalizado pela velha e perversa política coronelista, que só mudou de nome, como herança maldita entre gerações, de avô pra neto, de patrão para empregado, para a garantia de votos.

As perdas, essas sim, são transversais, e acumulam saldos culturais, pessoais e psicológicas, em cadeias sucessivas. Nesse cenário, mais de dois milhões de pessoas fragilizadas, sem saídas, engrossam as filas para se curvar e receber migalhas, em forma de cestas básicas, remédios, jogos de camisas de futebol, consultas médicas apressadas, para fazer de conta que cuidam da Vida, pendurada em cabides de subemprego.

O grande projeto político é a capitalização dos votos, em sistemas históricos de exploração, herdados do clientelismo, travestido em política inclusiva. Associações, sindicatos, ONGs e coletivos diversos integram um engendrado sistema de captação de recursos, construídos em representações de cargos políticos, para disputar editais forjados, processos seletivos escamoteados, contratação de consultorias técnicas, empregos/cargos arranjados por indicação, num sistema de controle total dos recursos.

O uso da água como moeda de troca é histórico. A capitalização política da miséria nordestina foi exposta por Josué de Castro como “Nordeste inventado”, na obra Geografia da Fome (Castro, 1984). Ao inserirmos a discussão sobre o acesso à água e outros direitos básicos não assegurados, a Bahia, por exemplo, se destaca entre os menores índices de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Manifestações populares de peso como a mobilização contra projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, apoiada por ambientalistas, jornalistas, ribeirinhos, parlamentares, estudantes, igreja e representações comunitárias diversas, vindas em romarias, de todo o Brasil, em outubro de 2005, chamaram atenção internacional sobre o valor e importância da água nas comunidades historicamente excluídas desse direito.

O paradoxo entre o que se diz e que está sendo feito como discurso político empresarial e a realidade apresentada pela falta da ação concreta, in loco, não interessa detalhar, investigar e punir, para não se repetir. É nesse cenário que o sofrimento do nordestino vira tese de mestrado, doutorado, roteiro de filme, peças teatrais, letra de música, enredo de escola de samba, livros, onde a estética está mais para capitalizar a dor do que para encontrar saídas de fato.


FONTE: Mercado Ético

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O mito do capitalismo “natural”


Por Rafael Azzi

Há séculos, ideia de que o ser  humano é "em essência"
egoísta-competitivo justifica relações capitalistas.
Descobertas recentes estão derrubando tal crença.

O modelo capitalista de sociedade premia e estimula o comportamento individualista, utilitário e egoísta. Diversos pensadores, como o economista Alan Greespan, acreditam que tal comportamento apenas reflete a verdadeira essência da natureza humana e, portanto, não há muito a fazer a respeito. Entretanto, essa visão do ser humano foi moldada ao longo da história e, na verdade, os estudos de hoje discordam da noção de que somos essencialmente individualistas e agressivos.

Alguns filósofos, como Thomas Hobbes, John Locke e Adam Smith, contribuíram para a consolidação da ideia de que o ser humano é, por natureza, racional, autônomo, utilitário e voltado principalmente para a satisfação egoísta de seus próprios interesses. As principais instituições políticas e econômicas que hoje moldam a sociedade foram fundadas a partir desses preceitos sobre a natureza humana.

O modelo social adotado pelos princípios capitalistas põe em cena uma perspectiva de Estado-Nação que tem como objetivo estimular as forças do livre mercado e proteger a propriedade privada. O homem é então considerado um indivíduo autônomo e racional que, ao optar por viver em sociedade, acredita que esta é a melhor forma de proteger seus próprios interesses, evitando assim um estado de selvageria natural representado pela expressão hobbesiana “guerra de todos contra todos”.

Da mesma forma que os indivíduos proclamam sua autossuficiência, os Estados são vistos na política internacional como autônomos na busca do próprio interesse. Sob tal perspectiva, as nações encontram-se em eterna batalha em busca de poder e de bens materiais. A narrativa histórica é construída a partir de uma constante dicotomia estabelecida entre Estados e indivíduos isolados, público e privado, termos ocasionalmente unidos apenas por razões de utilidade ou de lucro.

O mito do homem que sobrevive como indivíduo é difundido na literatura universal em heróis como Robinson Crusoé: o homem que consegue, sozinho, através do uso da razão, utilizar a natureza a seu favor e sobrevive sem o auxílio de outras pessoas. Porém, o que não está dito é que Crusoé é um homem adulto, que cresceu em uma sociedade complexa, na qual dependia diretamente de outras pessoas. Além disso, ele apenas aprendeu os conhecimentos necessários para a sua sobrevivência na ilha deserta através do contato com experiências de outras pessoas e outras gerações.

Essa visão filosófica, que se transformou em política, foi naturalizada por um conjunto de teorias científicas. O darwinismo social é uma interpretação estreita da teoria de Darwin aplicada à sociedade humana. Tal teoria enfatiza a ideia de que a evolução se relaciona à competição e à sobrevivência do mais forte, pondo-a em prática na sociedade humana. Dessa forma, características como individualismo, agressividade e competição seriam os agentes naturais da evolução. Argumenta-se que a competição pela sobrevivência fundamenta a evolução humana, a fim de justificar a sociedade capitalista como o modelo natural a ser adotado.

Atualmente, tal noção é considerada bastante reducionista. Já se observou, por exemplo, que não apenas a competição mas também a cooperação entre os indivíduos são fatores de extrema importância na sobrevivência de espécies sociais. Recentes estudos de sociobiologia vêm comprovando a hipótese de que o ser humano é, na verdade, um dos animais mais sociais que existe. Não é difícil comprovar esse fato: vivemos em grupos cada vez maiores, em sociedades cada vez mais complexas com indivíduos interdependentes. Temos a necessidade constante de nos sentir conectados a outras pessoas e de pertencer a um grupo, em um sentimento que remonta às ideias ancestrais de coletividade e de comunidade.

Uma descoberta biológica recente vem corroborar essa ideia. Os neurônios-espelhos fazem parte de um importante sistema cerebral que atua diretamente em nossa conexão com outros indivíduos. Esse conjunto de neurônios é mobilizado quando vemos outra pessoa fazendo algo. Pesquisadores constataram que, quando uma pessoa observa outra realizando uma ação, no cérebro do observador são estimuladas as mesmas áreas que normalmente regem a ação observada. Portanto, ao que tudo indica, nossa percepção visual inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos de outros.

Os neurônios-espelhos são a base do aprendizado e da aquisição da linguagem humana. Mais do que isso, eles tornam fluida a fronteira entre nós e os outros; são a origem da empatia, que é a capacidade de nos colocar no lugar de outra pessoa. Pode-se dizer que, ao observar alguém sorrindo, imediatamente nos sentimos impelidos a sorrir também. Quando percebemos alguém que está em uma situação que causa dor, a reação natural é partilhar o sentimento de dor alheia.

A capacidade empática e a necessidade de fazer parte de um grupo formam as bases, por assim dizer, das religiões organizadas e do sentimento de nacionalismo. O problema é que, ao mesmo tempo em que fomentam a empatia coletiva, estas instituições limitam o sentimento empático pelos indivíduos que não fazem parte do mesmo grupo. Assim, o indivíduo que faz parte de outra ordem — seja ela uma nação, uma religião, uma etnia ou uma classe social — é considerado diferente, distante e, eventualmente, intolerável. Tais rótulos limitam a capacidade empática e impedem de ver o outro como um semelhante na partilha de sentimentos, desejos e angústias intrínsecos à natureza humana.

Um exemplo de que a empatia é natural ao ser humano é a forma como ela ocorre de maneira livre e instintiva nas crianças. Quando uma criança observa outra pessoa em situação desfavorável, como a mendicância e a falta de moradia, a primeira reação é o questionamento. Invariavelmente, as respostas que fazem uso de rótulos auxiliam a explicar a situação: “é apenas um mendigo” ou “é só um menino de rua”. Com frases assim, está-se afirmando que o outro não é alguém como nós; trata-se apenas de alguém diferente, em uma realidade distante da nossa. Portanto, ao estimular constantemente o egoísmo e o interesse individualista, a sociedade baseada no modelo atual desestimula a capacidade empática existente em cada um.

Dessa forma, pode-se afirmar que o desafio do nosso tempo é desnaturalizar o egoísmo social que foi imposto e recuperar nossa empatia natural, não apenas em relação aos grupos de pertencimento, mas sobretudo ampliada em relação a toda nossa espécie.

FONTE: Outras Palavras

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Há métodos & métodos em pesquisa cientifica


Por Aluizio Moreira

João Álvaro Ruiz, em sua obra: “Metodologia cientifica: guia para eficiência nos estudos” (2006, p.95), ao abordar a questão do conhecimento vulgar e conhecimento cientifico, afirma que “o que distingue e caracteriza as diversas espécies de conhecimento são o modo de conhecer e os instrumentos do conhecer”. Ou seja, cada tipo de conhecimento (cientifico, teológico, vulgar, filosófico) se diferencia entre si pelos modos e instrumentos utilizados por cada um deles. É evidente que os instrumentos e modos do conhecer utilizados pela ciência não são os mesmos modos e  instrumentos utilizados pela filosofia ou pela teologia. 

Por outro lado, continua o Autor,  “O mesmo ‘objeto’  de conhecimento pode ser atingido por diversas vias e diferentes modos”. Quer dizer: os estudos sobre um mesmo objeto do conhecimento, podem utilizar modos e instrumentos diferentes do conhecer. Portanto, podemos estudar a espécie humana, utilizando os instrumentos e modos da ciência, ou da teologia, ou da filosofia, cujos resultados jamais serão os mesmos, considerando que a problematização que cada um deles formulará, também não será a mesma.

Estas considerações que fazemos aqui, não surgiram sem mais nem menos. Decorreram de uma discussão com professores de outras áreas do conhecimento, quando uma professora, diga-se de passagem, graduada e especialista em História,  candidatou-se a um curso de mestrado na área de tecnologia, e foi “aconselhada” mudar seu tema de pesquisa, para que seu projeto fosse “executável”.

Consideramos nós, que um mesmo objeto de estudo, por exemplo, o meio ambiente, pode ser trabalhado utilizando-se modos e instrumentos diferentes, se estudado  por um agrônomo ou por um historiador, uma vez que os problemas criados pelo agrônomo e pelo historiador frente àquele objeto, obviamente serão diferentes. Na mesma medida, se utilizarão de métodos e instrumentos próprios de suas especialidades, pois necessariamente abordarão de formas diferentes aquele objeto de estudo, sem que possamos considerar um  mais “executável” do que o outro. 

Ao se debruçar sobre a cultura da cana no nordeste brasileiro ao agrônomo poderia interessar pesquisar o tipo de solo existente naquela área litorânea, que possibilitasse a expansão daquela cultura, ou do porquê a cana tipo crioula deveria substituir  a de tipo caiana. Óbvio que os instrumentos e modos a serem utilizados pelo agrônomo em um ou outro caso, se definiria pela utilização de equipamentos mecânicos, pelo teste de medição do potencial hídrico (pH) do solo, ou ainda pela coleta de amostras para análise química, física ou mineralógica, considerando-se as variáveis.

O historiador, primeiramente, por certo, levaria a sua problematização  para outro tipo de indagação: diante de um quadro de tanta diversidade da flora nativa da região, por que o explorador lusitano teria que criar/implantar uma cultura própria de outras regiões neste espaço geográfico? Assim, seus modos e instrumentos de pesquisa com certeza não seriam os mesmos do nosso agrônomo pesquisador.

A não ser que se exija do agrônomo não ser agrônomo, e ao historiador deixar de sê-lo, ambos podem conduzir com sucesso suas pesquisas cientificas.

Conclusão: os nossos cursos de pós-graduação, embora abram espaço para o acesso de graduados de várias áreas do conhecimento, no momento de analisarem as propostas de Projetos de Pesquisa, exigem dos seus pós-graduandos “projetos executáveis”, sob a ótica das Coordenações dos Cursos de pós-graduação.