sábado, 19 de agosto de 2017

O desmonte da universidade pública e branqueamento cultural: outra estratégia do genocídio


O branqueamento cultural como complemento do genocídio é um ponto de partida interessante para compreender os ataques ao direito à educação materializados pela operação de desmonte das universidades públicas estaduais e federais em curso e cujas consequências já são sentidas com maior intensidade pelos setores mais excluídos


Por Andréia Moassab, Marcos de Jesus e Vico Melo




Sem dúvida, as contribuições de Abdias Nascimento, intelectual e político negro brasileiro, são de fundamental importância à formulação de um quadro mais geral de interpretação a respeito dos retrocessos sociais acelerados pelo golpe civil-parlamentar travestido de impeachment em 2016. Abdias não se limitou a constatar o mais óbvio da violência que recai sobre grupos historicamente marginalizados como o das pessoas negras, a seletividade do direito penal ou sua exclusão do mercado de trabalho, por exemplo, mas almejou descrever e teorizar as artimanhas e as nuances de um poder cujas engrenagens se plasmam em diferentes estratégias de exclusão simbólica e cultural dos sujeitos por ele subalternizados. Algo assim tornou possível discutir, já nos finais da década de 1970 e em plena ditadura militar, o extermínio físico da população negra, afrodescendente e indígena atrelado ao embranquecimento cultural como a face oculta ou pouco debatida desse extermínio, sua condição de possibilidade. Nisso parece estar sua contribuição maior: o reconhecimento da estreita e íntima relação entre a modernidade capitalista e a racionalidade do extermínio (colonialismo), sendo aquela alimentada por esta.

O branqueamento cultural como complemento do genocídio é um ponto de partida interessante para compreender os ataques ao direito à educação materializados pela operação de desmonte das universidades públicas estaduais e federais em curso e cujas consequências já são sentidas com maior intensidade pelos setores mais excluídos. Como se sabe, as universidades públicas no Brasil surgem no segundo quartel do século XX como espaços para a formação das elites governamentais, da “nobreza de Estado”, como diria Pierre Bourdieu, em consonância com a necessidade de inserir o país no marco da modernidade capitalista ocidental. Por conta da própria formação histórica brasileira, as elites que frequentavam a universidade sempre tiveram um padrão bastante específico: amiúde homens brancos cristãos, proprietários, heterossexuais, de cultura urbana e liberal, cujo capital social, político e econômico se transmite ao longo das décadas a seus herdeiros, reproduzindo a ordem social violenta marcada pelo genocídio físico e cultural das populações negras, afrodescendentes e indígenas tomadas como o “outro” da nação.

Nos últimos anos, houve, a partir do incremento de uma série de políticas públicas, uma progressiva entrada de setores excluídos, marginalizados e pauperizados da sociedade brasileira nos espaços universitários, fissurando os privilégios históricos desse sujeito branco. As políticas de ações afirmativas, a lei de cotas, o aumento expressivo do número de universidades públicas e a interiorização dos campi, em que pese o reconhecimento de seus limites, são representativas de uma real possibilidade de inserção de sujeitos alijados desses espaços cujo ingresso forçado é resultado de suas lutas históricas. A entrada trouxe consigo outras cartografias corporais e, portanto, também epistêmicas, que passam a disputar com o conhecimento hegemonicamente produzido do ponto de vista branco europeu ou do das elites brasileiras subservientes a este padrão de poder, em benefício próprio. Algo assim exigiu a construção de outras agendas de pesquisa, de outras relações entre universidade e sociedade bem como a emergência de debates políticos mais incisivos acerca das desigualdades raciais que separam brancos e não brancos na sociedade brasileira.

O cenário de desmonte da educação pública e gratuita hoje representa, em alguma medida, uma espécie de “reação da elite branca proprietária do poder” cujo objetivo parece orientado por um desejo em restaurar sua hegemonia dentro desses espaços, já que o lugar próprio dos negros é a senzala – como demonstrou Lélia Gonzalez – e o dos indígenas, a floresta. Não que a entrada ainda tímida de setores periféricos na universidade pública nos últimos anos tenha conseguido romper com a hegemonia da branquitude, mas certamente gerou inúmeros pontos de tensão, conflito e disputa em um espaço historicamente a ela reservado, obrigando-a a rever alguns dos seus privilégios, ou melhor, a se perceber como sujeito de inúmeros privilégios apesar de sua reivindicação de estar ali por meritocracia. Evidenciar algo assim implica dizer que a defesa da universidade pública precisa incorporar em sua gramática um vocabulário que diga as desigualdades raciais e o genocídio operado pelas estratégias de embranquecimento cultural, além de, obviamente, denunciar suas cumplicidades com a acumulação do capital e com a dominação patriarcal. Nesse espectro de desmonte das universidades públicas, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) se tornaram os alvos preferidos de discursos de ódio, de racismo e de xenofobia por parte dos “donos do poder” e de seus cães de guarda.

Esse ódio crescente endereçado à educação em geral e às duas instituições em particular se alimenta do capitalismo/colonialismo que, como sistema histórico, sempre necessitou promover classificações e hierarquizações entre entidades humanas como meios de facilitar o processo de acumulação incessante de capital, a exemplo da escravidão ameríndia e africana e da “domesticação das mulheres” para a vida e o trabalho no marco de uma conjugalidade monogâmica heterossexual e cristã dominadora. A tais grupos foi imposta uma lógica de que serviam exclusivamente ao trabalho (forçado/escravo) e à reprodução, esvaziando-os de qualquer sentido de humanidade e sendo, portanto, tratados como exteriores às instituições de ensino. O Brasil se encaixa inteiramente no processo neocolonial (de imposições de fora para dentro) e de colonialismo interno (imposições promovidas internamente) de “codificação paranoica da vida social”, levado a cabo por uma elite que se via fora do poder por vias democráticas há mais de uma década. É importante ressaltar que, mesmo fora do poder, as elites nacionais tiveram um acúmulo de riqueza sem comparação na história democrática brasileira, graças à alta das commodities no mercado internacional, impulsionada principalmente pelo mercado chinês em plena expansão, somado a volumosos empréstimos a fundo perdido concedidos pelos governos de Lula e Dilma ao agronegócio.

Entretanto, em momentos de crise o grande capital não aceita pagar a conta de sua própria crise, jogando o ônus nas costas de toda a sociedade brasileira, com maior peso para as populações marginalizadas historicamente no país. O governo Temer representa toda essa estrutura de expropriação e exploração contra uma grande parcela da população, vista exclusivamente como corpo-máquina. É nesse sentido que se baseiam as tão aclamadas reformas trabalhistas, previdenciárias, educacionais e sociais pelas elites brasileiras – dos meios de comunicação, empresariais e financistas – com intuito de impor esse “espaço-tempo vazio homogêneo” do capital colonial à sociedade como um todo. A ausência de uma leitura de raça e de gênero por parte da esquerda “acomodada” no poder a fez acreditar que, com a crise de 2007-2008, o capitalismo entrava num processo histórico de decadência e de contestação no sistema internacional. A escalada de violência brutal do capitalismo/colonialismo global contra qualquer direito social constituído não é fortuita ou aleatória, mas resultado da necessidade do aumento incessante da acumulação de riqueza do capital cuja história é inseparável de práticas racistas, sexistas e classistas colonizadoras.

Com a mudança das correlações de força no cenário nacional e a ascensão do capital colonial que trata latinos/as e africanos/as como Outro, a Unilab e a Unila se tornaram alvos prediletos desses ataques, por se apresentarem como projetos institucionais de luta pela redução das desigualdades regionais, raciais, sociais e de gênero. O Art. 2º, da Lei n.º 12.289/2010 que criou a Unilab, traz explicitamente que sua missão é a formação de “recursos humanos para contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, especialmente os países africanos” além da promoção do “desenvolvimento regional e o intercâmbio cultural, científico e educacional”. Some-se a isso o fato de a Unilab estar localizada no Nordeste, no interior do Ceará e da Bahia, proporcionando a democratização da educação para a população dessas regiões que, até então, sempre foram invisibilizadas e/ou consideradas subalternas perante os centros decisórios e de poder no país – no Sudeste –, além de contar com uma forte presença de estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) e do Timor Leste, que representam 30% do número total de estudantes. Mesmo esse número estando aquém do projeto inicial da Unilab, de 50% de alunos/as estrangeiros/as e 50% de brasileiros/as, a universidade representa um incômodo às elites pelo fato de propor uma estrutura curricular crítica e contestatória ao status quo, buscando abarcar as diferenças e a pluralidade de saberes existentes nas sociedades africanas e brasileiras.

De igual modo, a Unila pauta-se por um ensino multiétnico, diverso e plural, que se propõe a um giro epistemológico ao estabelecer outras redes de conhecimento, menos dependentes do eurocentrismo tão caro à formação elegante das elites nacionais. Num cenário de profunda racialização geopolítica, o/a latino-americano/a é subalternizado. A América Latina dos/as brancos/as (sic) – correspondente às elites crioulas governantes – é o lugar do civilizado, do urbano, do progresso, do elegante, do intelectual, do “querer-ser europeu”. A outra América Latina é atrasada, rural, pobre, subalterna, onde está a mão-de-obra para trabalhos mal pagos e não intelectual. Esta América Latina, a elite dominante brasileira ou ignora ou explora.

Os discursos do historiador Marco Antonio Villa, comentarista da rádio Jovem Pan, e do deputado federal Sérgio Souza (PMDB/PR), sobre as estruturas curriculares e a “necessidade” de extinção da Unila, além da tentativa de cancelamento dos auxílios financeiros aos novos/as estudantes estrangeiros/as na Unilab, demonstra claramente o racismo e a xenofobia que tais grupos sempre tiveram em relação à presença de corpos que sucessivamente foram excluídos dessas estruturas de poder/conhecimento. Em tempos de ataques sucessivos contra esses grupos historicamente invisibilizados e/ou excluídos, se faz necessário assumirmos uma posição de defesa a projetos como da Unila e Unilab que visam a democratização do conhecimento e possibilidades de alternativas que rompam com a lógica monocultural própria do capitalismo/colonialismo. Contudo, para isso, devemos sair de nossas zonas de conforto e promover uma profunda autocrítica, recolocando na agenda a possibilidade de nos reabilitarmos em nossa humanidade. Como afirmou Frantz Fanon (2008), “é pela tensão permanente de sua liberdade que os homens [e mulheres] podem criar as condições de existência ideais em um mundo humano […] sensibilizando o outro, sentindo o outro e revelando-me outro”.

A autonomia universitária na produção de conhecimento sempre incomoda aqueles interessados na manutenção das estruturas de poder. O pensamento crítico nunca é bem-vindo quando privilégios de uma elite são questionados. Apesar de refletir apenas uma parcela da população e dos interesses regionais, num contexto de golpe no país, que vive o congresso mais conservador dos últimos anos, junto a um cenário internacional de retrocesso, trata-se de uma ameaça concreta e preocupante. A extinção de universidades como a Unila e a Unilab representa uma afronta aos avanços nos debates internacionais sobre direitos, autonomia e autodeterminação dos povos, respeito à diversidade, justiça social e radicalização da democracia. É um silenciamento brutal da luta por um mundo melhor.



*Andréia Moassab e Marcos de Jesus são docentes na Unila. Vico Melo é docente na Unilab


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A pior classe média


Por Marino Boeira 



A classe média brasileira, que a Marilena Chauí  diz odiar, não é um grupo homogêneo de pessoas que pensa politicamente da mesma maneira. Ela tem varias subdivisões, mas o que me interessa, até para provocar uma discussão, é a sua macro divisão em dois grandes grupos.

Existe a classe média tradicional, politicamente alienada, religiosa, ignorante, anticomunista; que se informa apenas vendo a Rede Globo e lendo a Revista Veja e jornais como O Globo, Estadão , Folha e Zero Hora; que é admiradora do Moro e batedora de panelas; que faz discursos moralista contra corrupção; que diz odiar todos os políticos;  que votou na Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciais e depois no Aécio; que diz não gostar do Bolsonaro, mas admite votar nele se seu único adversário for o Lula.

Mas existe outra classe média que talvez seja pior que a primeira. É uma classe média que passou pelos bancos universitários; que é contra qualquer tipo de preconceito, de classe, de raça ou de gênero; que gosta de citar Marx e Trotski, embora tenha lido pouco de cada um deles, que não sabe ainda o que pensar de Lenin, mas abomina Stalin; que vota sempre nos candidatos do PT; que está engajado em campanhas tipo "Fora Temer" ou "Volta Dilma", mas que tem um defeito crucial porque sonha chegar ao paraíso consumista do mundo moderno como uma concessão da burguesia e não como um direito arrancado a força.

A maneira mais fácil de distinguir essa nova classe média daquela tradicional e ignorante é ouvi-la se apresentar como "socialista democrata" ou suas variantes, como "esquerda democrática", "esquerda não comunista"ou "socialista anti- stalinista". O uso do adjetivo que restringe o caráter de luta de classe, que devia ser inerente a opção pelo socialismo, é o cartão de visita que identifica esse segmento de público.

Para completar a apresentação desse componente das nossas esquerdas, que segundo Zizek e Bandiou, representam o maior entrave para uma revolução socialista, alguns dos seus integrantes podem se apresentar apenas como marxistas, o que além do glamour pelo título, justifica condenar qualquer tentativa de romper o quadro de dominação do capitalismo através de movimentos não ortodoxos, como por exemplo a chamada "revolução boliviariana".

Não foi sem uma boa dose de ironia, que Aldo Fornangieri, na apresentação do seu livro "A Crise das Esquerdas", recomendou que elas fossem menos marxistas e mais maquiavélicos.

Enquanto as esquerdas criam cursos universitários de pós graduação para entender seu futuro (As Esquerdas no século XXI, curso oferecido em Chapecó pela Universidade da Fronteira Sul) e se preparam para disputar uma eleição, onde mais uma vez serão derrotadas, a direita não perde tempo em reforçar seu poder.

Essa semana, um dos mais inteligentes pensadores do neoliberalismo brasileiro  (até porque no passado  foi também um homem de esquerda)  o banqueiro Armínio Fraga ( Presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique) disse que  "se a mudança na direção da política econômica for mantida, consolida uma coisa muito boa. Pode acontecer o contrário, uma guinada populista e ir tudo para o brejo"

Enquanto as esquerdas pensam num possível retorno ao poder por via eleitoral,  Armínio Fraga deixa bem claro o que os novos donos do poder pensam sobre 2018.

"Se Lula for candidato, vai voltar ao mesmo padrão de mentiras e promessas de antes. Ele declarou outro dia que nunca o Brasil  precisou tanto do PT quanto hoje. Para quê? Para quebrar de novo? Para enriquecer todos esses que estão aí mamando há tanto tempo? "

As esquerdas são sonhadoras (o que em si não é um mal, desde que seus sonhos sejam factíveis) a direita é pragmática e dispõe de um arsenal de medidas jurídicas e parlamentares para impedir que a experiência reformista de Lula possa se repetir por via eleitoral.

Uma delas, a malfadada experiência parlamentarista, tentada em 1961, já está sendo novamente aventada para impedir qualquer volta do PT ao poder.

Caso nada dê certo para a direita, ela vai chamar a Cavalaria novamente.


Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS


FONTE: Pravda.ru

sábado, 5 de agosto de 2017

8 mulheres negras cientistas brasileiras que você precisa conhecer


Acadêmicas das áreas de humanas, exatas e biológicas que superaram machismo acadêmico e o racismo


Por Norma Odara



Sonia Guimarães no lançamento do filme "Estrelas além do tempo"
Reprodução/Norma Odara

No Brasil, 54% da população se autodeclara preta ou parda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2015. No entanto, no mesmo ano, somente 12,8% dos jovens negros de 18 a 24 anos (considerando homens e mulheres) chegaram ao nível superior, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Os números mostram que o espaço acadêmico ainda é pouco ocupado por mulheres negras e, as poucas que alcançam destaque, o conseguem com muito esforço e resistência.

Diante deste cenário adverso, o Brasil de Fato elaborou uma lista reconhecendo o talento e o sucesso de cientistas negras brasileiras do ramo das exatas, humanas e biológicas, que superaram o machismo acadêmico e o racismo. Confira:

1. Enedina Alves 

Enedina Alves Marques foi a primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil. Nascida em 1913, de família pobre, ela cursou engenharia e se formou aos 30 anos no Instituto de Engenharia do Paraná (IEP). Em agosto de 1981, foi vítima de um infarte.

O cineasta Paulo Munhoz e o historiador Sandro Luis Fernando pesquisaram a vida de Enedina e pretendem lançar um documentário sobre sua vida pessoal e acadêmica.


Enedina Alves/Arquivo


2.  Viviane dos Santos Barbosa

A baiana Viviane dos Santos Barbosa cursou bacharelado em engenharia química e bioquímica pela Delft University of Technology, na Holanda, e se formou em mestre em nanotecnologia na mesma instituição.

Ela cursou química industrial por dois anos na Universidade Federal da Bahia, mas, nos anos 90, decidiu ir para Holanda. Lá desenvolveu uma pesquisa com catalisadores (que aceleram reações) através da mistura de Paladium e Platina.

O projeto foi premiado em 2010, durante a conferência científica internacional, na cidade de Helsinki, na Finlândia, onde competiu com outros 800 trabalhos.

Viviane dos Santos Babosa/Arquivo Fapesp


3. Maria Beatriz do Nascimento

Nasceu em Aracaju (SE) em 1942, e migrou com seus dez irmãos e seus pais para o Rio de Janeiro, na década de 50. Cursou história na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aos 28 anos de idade. Fez pós-graduação na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1981.

Beatriz dedicou sua vida para que a temática étnico-racial ganhasse visibilidade no Brasil. Foi responsável por formar um grupo de ativistas negras e negros chamado Grupo de Trabalho André Rebouças (GTAR), na Universidade Federal Fluminense, em meados dos anos 1983, almejando o envolvimento do corpo docente nos estudos sobre África.

Seus artigos foram publicados na Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de diversas entrevistas e depoimentos à grande mídia.


Maria Beatriz do Nascimento/Arquivo


4. Sonia Guimarães

Sonia sonhava em ser engenheira, mas foi em sua última opção do vestibular, em 1970. Na época, ela prestou física no Mapofei, um vestibular criado em 1969 para a área de exatas nas universidades Instituto Mauá de Tecnologia, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), e se apaixonou.

Hoje, Sonia é a primeira negra brasileira doutora em física pela University of Manchester Institute of Science and Technology e compõe, há 24 anos, o corpo docente do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Ela atua na área de física aplicada, com ênfase em Propriedade Eletróticas de Ligas Semicondutoras Crescidas Epitaxialmente, e já conduziu pesquisas sobre sensores de radiação infravermelha.



Sonia Guimarães

5. Simone Maia Evaristo

A bióloga e citotecnologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Simone Maia é presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (Anacito). É a única brasileira no quadro de membros ativo, como membro diretor da Academia Internacional de Citologia (IAC).

Atualmente é supervisora na área de ensino técnico do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e sua missão tem sido divulgar o papel do controle do câncer.

Simone Maria Evaristo, à esquerda, de camisa branca
Reprodução/Facdebook

6. Luiza Bairros

Luiza Bairros foi uma das vozes mais respeitadas no combate à discriminação racial no Brasil e compôs o Movimento Negro Unificado (MNU). A ativista negra foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) durante o segundo governo Dilma Rousseff (PT), e faleceu em julho do ano passado, enquanto ainda tramitava o processo de impeachment da presidenta.

Luiza era mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em sociologia pela Michigan State University (EUA). Sua graduação foi em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGS) e especializou-se em Planejamento Regional pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Luiza Bairros
Valter Campanato/Agencia Brasil


7. Anita Canavarro

É professora de química na Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Ciências pela Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). Fundou, em 2009, o grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências (CIATA) do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (CIATA-LPEQI/UFG) com a proposta de “ descolonizar” o estudo de ciências.

Além disso é presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), que busca promover a superação do racismo por meio da educação, defendendo e zelando pela manutenção de pesquisas com financiamento público.


Anitta Cavarro/Foto: Portal Catarinas


8. Katemari Rosa

Desde criança, a gaúcha Katemari Rosa foi apaixonada por física, observava as estrelas e sonhava em alçá-las. Hoje, é formada em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em filosofia e em história das ciências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Ciências pela Universidade de Columbia, em Nova York.

Ao longo de sua trajetória, Katemari começou a reparar no racismo dentro de seu campo de atuação e, em 2015, iniciou a pesquisa “Contando nossa história: negras e negros nas ciências, tecnologias e engenharias no Brasil”, com o intuito de criar um banco de histórias de negros e negras cientistas brasileiros.

Atualmente é professora na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e se preocupa com a formação de professores que inspirem jovens negros para área das ciências.


                             Katemari Rosa/Foto: Divulgação/Página pessoal




sexta-feira, 28 de julho de 2017

Cortes na ciência geram êxodo de cérebros, congelam pesquisas e vão punir Brasil por décadas, diz presidente da academia






Julia Carneiro – Êxodo de pesquisadores se agrava com corte de investimentos devido à crise econômica do Brasil

Os pesados cortes de recursos para a área de ciência e tecnologia feitos pelo governo federal estão levando a produção científica brasileira a um “estado terminal”, interrompendo pesquisas, acelerando o êxodo de cérebros e gerando uma lacuna que “vai penalizar o Brasil por décadas”, afirma o presidente da Academia Brasileira da Ciências (ABC), Luiz Davidovich.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o físico carioca alerta para as grandes perdas trazidas pelo corte dramático imposto pelo governo Temer ao orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e Comunicações em março deste ano, levando a verba para ciência ao patamar de 12 anos atrás.

O corte de 44% no orçamento para 2017, de R$ 5,8 bilhões para R$ 3,2 bilhões, repercutiu internacionalmente, deixando cientistas brasileiros “horrorizados”, segundo artigo na prestigiosa revista científica Nature.

“Espanta-me que justamente em uma época de crise tão grave, não se dê atenção à porta de saída da crise, já descoberta por outros países há muito tempo. É pesquisa e desenvolvimento, é ciência e inovação tecnológica. Nós estamos indo na contramão dessa consciência internacional”, afirma Davidovich, citando países como China, Cingapura, Coreia do Sul e membros da União Europeia como exemplos.

Em entrevista à BBC Brasil, o físico disse que laboratórios estão sendo forçados a interromper pesquisas por falta de dinheiro, que a fuga de cérebros está se acelerando e que o cenário sombrio é um desestímulo para jovens que cogitam ou poderiam cogitar uma carreira científica.

Davidovich ressalta que a produção científica depende de continuidade e envolve uma corrida constante com outros países.

“Se você quer construir uma estrada e o país enfrenta uma crise financeira, você pode atrasar a obra. Ciência e tecnologia você não pode atrasar, porque perde a corrida. Você não tem como recuperar o atraso”, alerta.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil: O senhor tem sido muito enfático em relação aos danos causados pelos cortes no orçamento científico do país. Qual foi a dimensão desses cortes?

Luiz Davidovich – A crise está geral no Brasil, mas na parte de ciência e inovação tecnológica houve um corte muito grande em cima de orçamento que já era pequeno. Em 2013, tivemos um pico no orçamento, mas desde então começou a haver cortes sucessivos.

Em março, houve um corte de 44% em todos os ministérios, exceto nos da Educação e Saúde, que têm seus orçamentos protegidos pela Constituição.

Um governo que aplica um corte linear em todas as áreas mostra que não tem prioridade, não tem agenda nacional. Isso contrasta com a posição de outros governos, de países com grande ímpeto desenvolvimentista, como China, EUA, Israel, União Europeia, Coreia do Sul.

BBC Brasil – Qual é a posição adotada por esses países?

Davidovich – Em épocas de crise, eles aumentam o investimento em pesquisa e desenvolvimento. A União Europeia chegou a um acordo pelo qual pretende destinar 3% do PIB a pesquisa e desenvolvimento (P&D) até 2020. Nos EUA, até o ano passado, se aplicava em torno de 2,7% do PIB em P&D. A China está com crescimento desacelerado, mas ao mesmo tempo está investindo mais em pesquisa. Em plena crise, o primeiro-ministro (Li Keqiang) anuncia que vai aumentar o investimento em pesquisa básica em 26%.

O que isso significa? Esses países entendem que o investimento em pesquisa é a melhor maneira de sair da crise de forma sustentável. Contribui para aumentar o valor agregado de seus produtos e aumentar seu protagonismo.

Enquanto isso, o Brasil está fazendo o quê? Está retraindo os investimentos, cortando violentamente. A ponto que chegamos a um estado terminal. É S.O.S. para a ciência no Brasil. Chegamos a um ponto em que equipes estão sendo fechadas e encerrando os seus trabalhos.

Espanta-me que justamente em uma época de crise tão grave, não se dê atenção à porta de saída da crise, já descoberto por outros países há muito tempo. Nós estamos indo na contramão dessa consciência internacional.

BBC Brasil – Mas o Brasil está tentando sair da recessão mais grave em décadas. Dá mesmo para comparar a situação aqui com países como China, Coreia do Sul ou Israel?

Davidovich – Nos anos 1990, a Coreia do Sul era considerada mais atrasada que o Brasil. Mas o país investiu pesadamente em ensino básico, ensino técnico e pesquisa e desenvolvimento, apoiando grandes empresas, e passou à nossa frente. Eles têm cinco escolas nacionais para formar professores de ensino fundamental. A profissão de professor é valorizada, com salário compatível com o de outras profissões graduadas.

A Eslováquia, nos anos 1990, passou por problemas políticos e econômicos tremendos. Eles fizeram reformas econômicas importantes, mas ao mesmo tempo resolveram apostar na inovação. Hoje estão muito à nossa frente no Índice Global de Inovação.

O Brasil está em 69º lugar no índice, atrás do México, da Rússia, da Índia e da África do Sul. A Eslováquia está em 34º lugar. Decidiu investir no que se chama hoje de deep tech – as tecnologias profundas, que revolucionam nosso cotidiano – e se tornou um polo de inovação. Em muito pouco tempo, superou a crise de maneira inteligente, e hoje está aí, concorrendo no mercado global.

BBC Brasil – Mas vemos no Brasil uma crise generalizada, com falta de recursos para todas as áreas, seja ciência ou cultura. O senhor defende que a ciência e tecnologia mereçam tratamento diferente?

Davidovich – Essa questão de não ter dinheiro é discutível, porque se você olha para os acordos que estão sendo costurados no Congresso, para que os deputados votem a favor da reforma da Previdência, eles vão custar muito caro. O BNDES já está revendo a política de parar de conceder créditos subsidiados para empresas. Mesmo no auge dessa crise, os lucros dos bancos continuam aumentando.

Há recursos no sistema. A questão é como eles estão sendo usados. A questão é de escolha de prioridades.

Agora, por quê empregar recursos em ciência e tecnologia e não em outras áreas? Por que essa área merece uma atenção especial? Porque investir em ciência e tecnologia permite mudar o padrão de produtos de um país. Permite que países que sobrevivem da exportação de commodities, como o Brasil, passem a contar com uma pauta de exportação com produtos de alto valor agregado. É uma opção que permite gerar mais recursos para o país, para dar a volta por cima da crise.

BBC Brasil – Onde a situação é mais grave?

Davidovich – Nos Estados que enfrentam crises financeiras, como o Rio, porque neles as fundações estaduais de amparo a pesquisa também estão com problemas. Nesses Estados, a situação é de terror.

No Rio, por exemplo, você tem laboratórios que fazem trabalhos extremamente importantes e de repercussão internacional, como as pesquisas feitas na UFRJ sobre o vírus Zika e microcefalia. As contribuições foram publicadas nas melhores revistas internacionais e estão no caminho correto de encontrar meios de debelar essas doenças, mas os pesquisadores estão enfrentando problemas. Há pesquisas muito importantes sobre doença de Alzheimer que também estão com sérios problemas.

Esses grupos precisam de insumos biológicos para fazer seus experimentos, mas não há mais recursos para esses insumos. Com isso, os laboratórios estão parando. E param também as teses que estão sendo desenvolvidas, os trabalhos de mestrado e de doutorado que se destinam a formar os pesquisadores de amanhã, aqueles que, no futuro, vão combater as epidemias emergentes, como a zika, ou agora a febre amarela.

O risco que o país está correndo é de termos um gap na formação de cientistas e de não termos pesquisadores que possam atacar problemas que afetam a saúde da população nos próximos dez, 15 anos.

BBC Brasil – Já há um claro impacto da crise econômica e do corte de recursos sobre a fuga de cérebros, motivando pesquisadores a deixar o país e buscar refúgio em países e universidades onde consigam verba para desenvolver seus trabalhos?

Davidovich – Esse processo está muito acelerado. Há dois meses, quando jornalistas me perguntavam se estava havendo êxodo de cérebros, eu dizia: “Tem um ou outro caso, mas as pessoas ainda estão esperando para ver se melhora”. Há apenas dois meses.

Agora não. As pessoas estão claramente optando por sair do Brasil. Estou em contato com equipes do Rio que estão perdendo metade de seus pesquisadores. Colegas estão dizendo que vão sair porque não têm mais condições de continuar a pesquisa. Até aqui, usavam insumos que tinham comprado antes. Agora, acabaram os insumos.

Quem trabalha com física, por exemplo, que é a minha área, usa laser nos laboratórios. Laser tem uma vida média. Se ele queima, acabou o experimento. E aí acabam as teses realizadas nesses laboratórios. Isso já está acontecendo.

BBC Brasil – Que efeitos o senhor acha que isso trará para o país no futuro?

Davidovich – Talvez o problema mais sério, e que já estamos detectando, é como isso afeta os jovens. Quando alunos veem que seus professores, como os da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), duramente afetada pela crise estadual, estão sem receber salários e com dificuldade de pagar as contas mensais, eles começam a pensar: “Essa profissão é complicada. O pessoal não tem recursos. Não vou querer ser professor universitário ou pesquisador. Vou procurar outra coisa”. Passam a considerar que a área é pouco prestigiada e que o governo não se interessa por ciência.

Isso está dificultando a atração de jovens para a pesquisa. E o Brasil precisa muito desses jovens. Porque temos grandes desafios. Temos uma matriz energética que é uma das mais limpas do mundo, temos sol, temos água, temos biomas que têm produtos de biodiversidade a descobrir.

Conhecemos apenas 5% de nossa biodiversidade. Explorar isso significa poder fazer remédios e usar uma capacidade e uma vantagem competitiva do Brasil. Nós temos essa biodiversidade, os outros não têm. E precisamos usá-la de forma sustentável, sem destruir a floresta, de modo a fazer medicamentos e produtos de alto poder agregado. Para isso precisamos de mais pesquisadores.

BBC Brasil – O Brasil passou por um momento de euforia na última década que foi acompanhada por um aumento expressivo nos investimentos na área de pesquisa e ciência. Quando a situação começou a se deteriorar?

Davidovich – Os cortes começaram já no governo da Dilma (Rousseff). Nós protestamos contra, a ABC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Quando o governo mudou (e o presidente Michel Temer assumiu), os cortes continuaram. Com o agravante de que houve a agregação do antigo Ministério de Comunicações ao Ministério de Ciência & Tecnologia. Na época, foi dito que isso traria mais recursos, pela importância política da pasta das Comunicações, mas o efeito foi o contrário.

Depois dos últimos cortes, o orçamento do novo MCTIC passou a ser de R$ 3,2 bilhões de reais. Muito bem. Destes, R$ 700 milhões são para a parte de Comunicações, e que deixa R$ 2,5 bilhões para ciência e tecnologia.

Em 2010, o orçamento do ministério, corrigido pela inflação, equivalia a cerca de R$ 10 bilhões. Ou seja, o orçamento de hoje é da ordem de ? do que tínhamos em 2010.

Isso mostra uma falta de rumo do governo, ou então um rumo que está na contramão do que está acontecendo internacionalmente. Isso vai penalizar o Brasil nas próximas décadas.

BBC Brasil – Qual é o efeito da ruptura gerada pelos cortes sobre a produção científica? A dinâmica de uma pesquisa permite que seja interrompida e retomada?

Davidovich – A produção científica depende de continuidade. No mundo de hoje, se você para, você perde a corrida, porque os outros não estão parando. Aliás, não basta nem correr, você precisa correr mais rápido que os outros.

Se você quer construir uma estrada e o país enfrenta uma crise financeira, você pode atrasar a obra. Ciência e tecnologia você não pode atrasar, porque perde a corrida. Você não tem como recuperar o atraso. Por isso que, em plena crise, esses países que mencionei aumentam investimento em pesquisa. A China está aumentando. E com isso está ganhando protagonismo internacional, o que nós estamos perdendo. O quadro é dramático.

Se você interrompe uma pesquisa de biologia, você perde a prioridade. Outros países vão obter a patente. E depois nós vamos pagar pelas patentes que eles estão obtendo.

BBC Brasil – Mas o Brasil nunca conseguiu ser uma potência na área científica. O país tem condições de disputar dessa corrida mundial? Nos momentos de maior euforia, quais foram os principais avanços nessa disputa?

Davidovich – Já tivemos momentos melhores. Os primeiros dez anos do século 21 foram auspiciosos, com mais verba para pesquisa. Mas sempre enfrentamentos altos e baixos. Sempre enfrentamos descontinuidade no apoio à pesquisa. E mesmo com esse apoio bastante incerto, flutuante, sujeito a interrupções, a ciência brasileira conseguiu coisas fantásticas no cenário mundial.

A Petrobras ganhou prêmios internacionais na exploração de petróleo em águas profundas, isso através de uma cooperação muito forte com várias universidades brasileiras, envolvendo um grande leque de profissionais. A Embraer ocupa um nicho importante no mercado internacional de aviões. Uma empresa nascida em Santa Catarina, em cooperação com o departamento de engenharia mecânica da UFSC, transformou-se na maior empresa de compressores do mundo. São muitos exemplos de sucesso de empresas brasileiras com base científica.

Apesar de todas essas interrupções e dificuldades, isso demonstra a capacidade de invenção e a criatividade da ciência brasileira. Imagine o que não poderíamos fazer se houvesse uma política de estado de apoio à pesquisa e desenvolvimento, um fluxo contínuo que não sofresse altos e baixos dependendo de quem está no poder. Nós poderíamos ter ido muito mais longe.

BBC Brasil – E essa falta de continuidade gera prejuízos para a economia do país no futuro, a seu ver?

Davidovich – É importante o país ter uma dianteira em pesquisas para fazer economia no futuro. Faremos economia por não ter que pagar pelas patentes e ganharemos mais recursos porque teremos qualificado a nossa pauta de exportações.

É questão até de soberania nacional e econômica. Quando você aumenta o valor agregado dos produtos exportados, você passa a ter mais controle sobre a sua própria economia.

Se você considera, por exemplo, a agricultura, que é uma fonte de riqueza tão grande para o país. Parte disso é graças à ciência brasileira, que descobriu um processo para aumentar a produtividade da soja em quatro vezes. Na mesma superfície de terra, você colhe quatro vezes mais grãos. Algumas décadas atrás, soja não florescia no Mato Grosso. Com a ciência brasileira, passou a ser uma das grandes riquezas do Estado.

Mas hoje, centros de pesquisa de prestígio nessa área, como a Universidade de Viçosa e a Embrapa, estão com dificuldades. Há duas décadas, a Embrapa contava com equipamentos para pesquisa que eram o estado da arte. Hoje estão defasados, e a própria agricultura está ameaçada pela falta de renovação de equipamentos e de investimentos em pesquisa.

Na África os avanços brasileiros na produção de soja já são conhecidos, e a China está comprando muita terra no continente. E se passarem importar soja de lá, que é muito mais perto?

Se não houver inovação constante até na área de commodities, estamos jogando um jogo muito arriscado. Se você para de atualizar a produção com ciência e tecnologia, ela fica obsoleta. Porque é uma corrida, e temos que nos atualizar sempre.

BBC Brasil – Como o senhor vê o impacto da aprovação da emenda constitucional que estabelece um teto de gastos públicos para o governo federal ao longo dos próximos 20 anos? Que impacto terá para a ciência?

Davidovich – É um grande equívoco, um trágico equívoco, considerar que recursos para ciência são gastos. Eles são investimentos. É muito importante fazer essa diferenciação. Se você considera que são gastos, corre o risco de o país ficar paralisado. Você estabelece o teto de gastos, mas não consegue mais aumentar o PIB, porque ele dependeria de investimentos que você não poderá fazer.

É muito preocupante que a ciência esteja dentro do teto de gastos. Pior ainda, o orçamento enviado pela equipe econômica para o Congresso para 2018 agrava ainda mais a situação do ano que vem, com ainda menos recursos para ciência e tecnologia.

Isso reflete a ignorância de quem está conduzindo a política econômica em relação ao papel da ciência e tecnologia para o desenvolvimento do país. Essa é a saída, essa é a luz no final do túnel.

BBC Brasil – O senhor vê alguma perspectiva de melhora no momento atual?

Davidovich – Está difícil ver a luz no fim do túnel. É claro que a gente considera que a saída para o Brasil está na ciência, na inovação tecnológica e na educação de qualidade para todos. Esse foi o segredo da Coreia, de Israel, de Cingapura.

Não existe um milagre coreano. Existe uma política que eles implementaram dando uma importância muito grande para educação básica, formando técnicos e promovendo inovação tecnológica. É isso. Não tem mistério.



https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2017/07/11/presidente-da-academia-de-ciencias-diz-que-cortes-geram-exodo-de-cerebros-congelam-pesquisas-e-penalizarao-brasil-por-decadas.htm


FONTE:  Controversia

sexta-feira, 21 de julho de 2017

É preciso um programa mínimo para mudar o país e a vida das pessoas

O Cais Estelita, foco e centro de uma mobilização histórica no Recife,
para que o que é do povo sirva a ele e não aos ricos.
Foto de Gilmar Moreira/2014

O Brasil está metido numa das maiores enrascadas de sua história. O golpe que levou os ricos ao governo está destruindo o Brasil em ritmo vertiginoso.

O desemprego massacra quase 15 milhões de pessoas, a fome voltou a rondar o dia a dia dos mais pobres e estima-se que 20 milhões de pessoas terão renda inferior a 5 reais/dia até o final de 2017, o fim da CLT ameaça o retorno a termos contratuais para o trabalho similares aos do período da escravidão, os gastos com saúde e educação para os mais pobres estão em queda livre, e ronda a ameaça do fim da aposentadoria para os mais frágeis.

É uma verdadeira hecatombe econômica e social detonada por uma elite sem projeto para o país e que vive às custas dos juros que o Estado lhes paga –a única despesa governamental que não foi cortada depois do golpe.

Como superar a crise de maneira positiva para o povo, num cenário de derrotas sucessivas de seus representantes, dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais? Como retomar o diálogo entre a esquerda/segmentos progressistas e a grande e sofrida massa da população, que vive um momento de apatia, encolhimento e entorpecimento pelo massacre midiático promovido pelos meios de comunicação de propriedade e a serviço dos ricos?

Como mudar a maré em favor dos mais pobres?

É preciso um programa que dialogue com as pessoas, que faça sentido para suas vidas cotidianas, que de fato abra perspectivas de um futuro melhor.

É hora de apresentar uma agenda compacta, factível, inteligível, que deve ser apresentada ao povo brasileiro de maneira massiva, insistente, que se torne conversa nas famílias, nas escolas, nos bares, nas ruas.

Uma plataforma para mobilizar, para vencer eleições, para unificar a reivindicação dos movimentos sociais. Um projeto para o país.

Poucas medidas. Linguagem simples. Que fale ao coração das pessoas e desperte um sentimento, uma expressão de “ah, mas é isso mesmo!”.

Aqui está uma sugestão para esta plataforma. Cinco pontos apenas. Não pode ter mais. Tem que ser simples, capaz de ser recitado de cabeça e coração.

Este programa não elide a possibilidade de outros projetos, para outras áreas, sobre temas diversos. Mas eles devem ser subordinados aos cinco que são a oferta da esquerda e dos progressistas para o país.

Que pontos podem compor este programa? Segue um rascunho, que deve ser conversado, dialogado, pensado. Só tem uma regra: pode ficar menor e mais enxuto, nunca maior.

O que fazer para que o Brasil seja apropriado por seu povo?

Plebiscito para todas as medidas aprovadas pelo Congresso durante o governo Temer –o povo deve decidir sobre seu futuro. A Constituição de 1988 é a referência institucional do país.

Retomada do crescimento e combate ao desemprego com programa de renda cidadã para toda a população, investimentos públicos prioritários em educação pública e no SUS.

Limites para o pagamento de juros aos ricos e redução da taxa de juros para favorecer investimentos produtivos.

Reforma agrária e urbana, para garantir terra, moradia e transporte barato.

Combate incansável à corrupção e a todo o desvio de dinheiro que é do povo e deve ser destinado a ele.

A situação é dramática. Mas não é uma condenação eterna, não é uma sentença de morte, não é o fim do caminho.

É possível abrir um novo caminho, regar a esperança, fazer a hora.

[Texto coletivo rascunhado por Mauro Lopes, depois de uma conversa/aprendizado com Antônio Martins, Artur Araújo, Gilberto Maringoni e Igor Fuser]

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