sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O analfabetismo juvenil e o ensino superior

  Por Otaviano Helene (*)


Para saber que nível educacional é o necessário para cada um e para a sociedade como um todo, em um determinado momento histórico e em um determinado país, há que se responder a algumas perguntas. O nível educacional mínimo oferecido para a população permite, a todos, a plena conquista dos direitos de cidadania? Os quadros profissionais formados respondem às necessidades do país? O sistema educacional é um instrumento para superar as desigualdades, objetivo especialmente relevante para países com altos níveis de desigualdades como o nosso, ou está, ao contrário, sendo usado para mantê-las? A evolução da educação formal ao longo do tempo é adequada? O nível educacional médio da população é suficiente para garantir a soberania nacional frente às demais nações?

Vamos examinar esse último ponto, em especial, vamos ver como nos comparamos com os demais países. Não vamos nos estender em análises muito detalhadas. Vamos examinar apenas dois indicadores que revelam o desempenho recente nos dois extremos do sistema educacional, a alfabetização juvenil e a taxa de matrícula no ensino superior. Esses dois indicadores são suficientes para uma avaliação ampla, embora não detalhada, do nosso sistema educacional. Afinal, a alfabetização juvenil reflete o desempenho do sistema educacional em períodos recentes e a taxa de inclusão no ensino superior reflete tanto as possibilidades do país no que diz respeito à formação de uma força de trabalho mais sofisticada como as possibilidades de progressão de um estudante ao longo do sistema educacional. Vamos, também, nos restringir aos países da América do Sul, participantes da mesma realidade geopolítica.

Na tabela aparecem as taxas de alfabetização juvenil e as taxas brutas de matrícula (1) no ensino superior dos países sul-americanos segundo dados sistematizados e divulgados pela Unesco.

País
Taxa de alfabetização de jovens entre 15 e 24 anos. Ano de referência: 2009
              (%)
Taxa bruta de matrícula no ensino superior (graduação e pós‑graduação). Ano de referência: 2010
                (%)
Argentina
     99,2
71
Bolívia
       99,1b
  39a
Brasil
       97,8b
 36
Chile
      98,9
 59
Colômbia
      97,9
 37
Equador
      96,8
   40b
Guiana
      ...
 11
Paraguai
        98,8a
 37
Peru
        97,4a
   35c
Suriname
         99,4b
   12d
Uruguai
         99,0b
 63
Venezuela
         98,4a
  78
Fonte dos dados: Unesco Institute for Statistics, consultada em fevereiro/2012.
a: 2007; b: 2008; c: 2006; d: 2002; ... não há dados recentes disponíveis.

No que diz respeito à alfabetização juvenil, o Brasil ocupa a terceira pior posição entre os países sul-americanos, apenas melhor do que o Peru e o Equador. Devemos observar que esses dois países apresentam realidades populacionais bem diferentes das nossas: entre 20% (Equador) e 45% (Peru) da população desses países falam línguas diferentes, têm hábitos, valores, tradições culturais e atividades econômicas também bastante diferentes daqueles da maioria da população e se concentram, ainda, em regiões específicas do país. Assim, não apenas escolarizá‑los e alfabetizá‑los é mais difícil, como as conseqüências do analfabetismo (como as possibilidades de inserção econômica e social no meio em que vivem) são menos graves (2). O Brasil não tem essas características: nossa população, embora seja uma composição de diferentes povos originários de várias partes do Mundo, com a exceção de cerca de 800 mil indígenas (0,4 % da população e parte deles integrada ao restante da população), fala a mesma língua e tem basicamente os mesmos valores culturais, ou pelo menos não tão diversificados como as populações daqueles outros dois países. Além disso, a porcentagem da população urbana é bem maior no Brasil (82%) do que no Equador (63%) e no Peru (73%) (3), fator que certamente facilita a escolarização. Como praticamente a totalidade da população brasileira está inserida na mesma realidade de produção e relações econômicas, o analfabetismo juvenil entre nós tem conseqüências sociais muito graves: dos jovens analfabetos entre 15 e 24 anos, muitos são analfabetos urbanos, que disputam posições de trabalho com o restante da população, e todos precisam interpretar a mesma realidade.

Quanto aos indicadores quantitativos do ensino superior, estamos em melhor posição, no que diz respeito às taxas de matrícula e entre os países sul‑americanos, apenas do que Guiana, Suriname e Peru. Vale lembrar que Guiana (antiga Guiana Inglesa) e Suriname (antiga Guiana Holandesa) são países cujas independências ocorreram apenas no final do século XX, carregando, assim, uma carga histórica pesada do mesmo tipo daquela carregada pelas ex‑colônias africanas recentemente independentes e que estão entre os países mais pobres do mundo (4). Ainda como comparação, nossa taxa de matrícula no ensino superior, de 36%, é cerca da metade daquelas encontradas na Argentina (71%) ou na Venezuela (78%). Além disso, devemos observar, esses dois últimos países apresentam taxas de privatização do ensino superior menores do que as nossas.

Esse breve balanço mostra que, mesmo comparado com países que ocupam o mesmo espaço geopolítico que nós, nossa situação é bastante preocupante. Evidentemente, uma análise apenas quantitativa é insuficiente para uma visão ampla do problema. Entretanto, os dois índices analisados mostram a dimensão dos problemas que teremos que enfrentar para construir uma real democracia.

Notas:
(1) A taxa bruta de matrícula é a relação entre a população matriculada em um determinado nível educacional, independentemente da idade, e a totalidade da população na idade correspondente àquele nível educacional.
(2) Essas observações não pretendem, evidentemente, minimizar as conseqüências do analfabetismo, mas, sim, estabelecer parâmetros referenciais que permitam comparar países diferentes.
(3) http://www.nationmaster.com/, consultada em fevereiro de 2012
(4) A taxa de alfabetização juvenil do Suriname, relativamente alta, sugere que esse país pode estar enfrentando seu atraso educacional a partir dos níveis iniciais.

(*) Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da USP, foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
  

    FONTE: Correio da Cidadania

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Por uma Constituição baseada nos bens comuns

A tradição constitucional liberal protege o proprietário privado do Estado construtor ao prever uma indenização por expropriação, enquanto nenhum dispositivo jurídico, e muito menos constitucional, protege o cidadão do Estado neoliberal quando ele transfere para a esfera privada os bens da coletividade


Por Ugo Mattei 

Como proteger a propriedade coletiva enquanto os governos liquidam os serviços públicos a preço de banana e dilapidam os recursos naturais para, por exemplo, “equilibrar” o orçamento? Forjada no mundo anglo-saxão e desenvolvida em países em que o Estado é pouco centralizado, como a Itália, a noção de “bem comum” propõe superar a antinomia entre propriedade pública e propriedade privada.

Quando um Estado privatiza uma ferrovia, uma linha de transporte aéreo ou um hospital, gera concessões para a distribuição de água potável ou vende universidades, ele está expropriando a comunidade de uma parte de seus bens – expropriação análoga realizada sobre a propriedade privada quando o Estado deseja construir uma estrada ou qualquer outra obra pública. Nos processos de privatização, o governo vende algo que não pertence ao Estado, e sim a cada membro da comunidade, da mesma forma que, quando desapropria um terreno para construir uma estrada, adquire por coerção uma propriedade que não é sua. Isso quer dizer que qualquer privatização empreendida pelo poder público – representado pela autoridade do momento – priva cada cidadão de sua cota do bem comum, exatamente como no caso de uma desapropriação de bem privado. Porém, com uma diferença de escala: a tradição constitucional liberal protege o proprietário privado do Estado construtor ao prever uma indenização por expropriação, enquanto nenhum dispositivo jurídico, e muito menos constitucional, protege o cidadão do Estado neoliberal quando ele transfere para a esfera privada os bens da coletividade.

Em função da evolução atual das relações de força entre os Estados e as grandes empresas transnacionais, essa assimetria representa um anacronismo jurídico e político. Tal irresponsabilidade constitucional autoriza os governos da situação a vender livremente os bens comuns para financiar suas políticas econômicas. Esse desvio também oblitera o fato de que os poderes políticos deveriam estar a serviço do povo soberano, e não o contrário. É certo que o servidor (o governo) deve dispor dos bens de seus governados (os cidadãos) para executar corretamente seu serviço; contudo, seu papel é o de administrador de confiança, e não de proprietário livre para abusar do patrimônio coletivo. Uma vez alienados, danificados ou destruídos, os bens comuns passam a não existir mais para a coletividade, pois não são reproduzíveis e dificilmente podem ser recuperados, seja pela geração presente – supondo que ela se dê conta de que escolheu, por maioria, um servidor desonesto – ou pelas seguintes, que nem sequer podem ser responsabilizadas pelas escolhas que não fizeram. A questão dos bens comuns passa antes por uma forma constitucional, porque é na Constituição que os sistemas políticos fixam as escolhas de longo prazo que devem ser preservadas da arbitrariedade de sucessivos governos.

Proteção da propriedade pública

É necessário, portanto, desenvolver uma elaboração teórica – acompanhada de uma defesa militante – que trate os “bens comuns” como uma categoria dotada de autonomia jurídica e figure como solução alternativa tanto para a propriedade privada como para a pública. Essa tarefa se revela necessária na medida em que o servidor sofre, hoje, do vício mortal do jogo (suas atividades são financiadas antes pelo crédito que pelos impostos), o que o fez cair nas mãos de usurários mais fortes que ele. Na grande maioria dos Estados, os governos – submetidos de várias formas aos interesses financeiros globais – dissipam os bens comuns fora de qualquer controle, avançando sob a justificativa da necessidade de pagar suas dívidas de jogo. Essa lógica faz passar por natural e obrigatório um conjunto de fatores que, na verdade, é resultado de escolhas políticas constantes e deliberadas.

A consciência dos bens comuns, ou seja, o fato de considerá-los ferramentas de satisfação das necessidades e dos direitos fundamentais da coletividade, não provém dos papéis: forma-se em todos os âmbitos das lutas – nem sempre vitoriosas, porém sempre emancipatórias – empreendidas no mundo inteiro. Em muitos casos, os inimigos são justamente os Estados que deveriam ser seus guardiões fiéis. Assim, a expropriação de bens comuns em favor dos interesses privados – de transnacionais, por exemplo – gera cada vez mais dependência dos governos (o que os coloca em uma posição vulnerável) perante empresas que ditam as políticas de privatização, de consumo e exploração do território. A situação da Grécia e da Irlanda é particularmente emblemática nesse sentido.

A tradição ocidental moderna se desenvolveu no quadro da dialética Estado/propriedade privada, em um momento da história em que apenas esta última parecia necessitar de proteção diante de governos autoritários e onipotentes. Desse processo, originaram-se garantias constitucionais, como a utilidade pública, o domínio reservado à lei (que garante ao legislador o monopólio de certas questões, excluindo a intervenção de outros poderes do Estado sob a forma de decretos e regulamentos) e a indenização. Mas agora que a relação de forças entre Estado e setor privado se transformou, a propriedade pública também necessita de proteção e garantias a longo prazo. Contudo, é difícil conceber quais seriam esses dispositivos no interior do cenário tradicional, em que a ideia de coisa pública se restringe ao Estado. Por essa razão, a proteção liberal clássica do privado em relação ao Estado não é suficiente.

A consciência política da expropriação ou do saqueio dos bens comuns no âmbito das lutas em curso (pelo acesso à água, pela universidade pública, pela alimentação, contra as grandes obras que degradam o meio ambiente) emerge, em geral, de maneira difusa, o que não impede a elaboração de novas ferramentas teóricas capazes de representar e indicar uma direção comum a essas mobilizações. A categoria de bens comuns é convocada a cumprir essa nova função constitucional de proteção do público perante o Estado neoliberal e o poder privado.

A tragédia dos bens comuns

Essa noção conheceu um salto qualitativo quando, em 2009, a economista norte-americana Elinor Ostrom recebeu o Prêmio Nobel de Economia por seus trabalhos sobre os “comuns”, em particular por seu livro La gouvernance des biens communs [A governança dos bens comuns]. Ela tornou-se, também, um nome-chave do cenário internacional. Contudo, essa consagração comprometeu seu potencial crítico. Na comunidade científica, a obra de Elinor não foi plenamente reconhecida quanto às consequências revolucionárias de colocar os bens comuns na posição central entre as categorias do jurídico e do político.

A “tragédia dos bens comuns” – a ideia segundo a qual o livre acesso dos indivíduos aos recursos naturais leva à superexploração e ameaça sua existência – levou a corrente universitária dominante a considerar o comum como o lugar do não direito por excelência. Nessa óptica, muitos economistas e especialistas das ciências sociais terminaram por fundar suas teorias a partir da imagem de uma pessoa que, convidada a um jantar com bufê em que há grande quantidade de comida à disposição, se lança a acumular o máximo de calorias possível à custa dos outros. O Homoeconomicusglutão consumiria o máximo de comida no menor espaço de tempo. Elinor mostrou como esse modelo de comportamento descreve mal a relação do homem de carne e osso com o mundo real.

Contudo, ela não identificou que o modelo descreve muito bem a conduta das duas instituições mais importantes que regem nosso mundo. Em relação aos bens comuns, tanto as empresas como o Estado neoliberal tendem a agir exatamente como o glutão convidado para o jantar: buscam adquirir o máximo de recursos à custa dos outros. Ambas – a primeira a partir da nação e seus dirigentes políticos, e a segunda impulsionada pelos interesses dos diretores e acionistas – adotam comportamentos míopes e egoístas, protegidos por uma grossa camada de névoa ideológica.

Privatização natural

Uma vez absorvido pela corrente científica e acadêmica dominante, o discurso sobre o comum corre o risco de cair em algum dos dois registros da moda: a “sustentabilidade” ou a “economia verde”. As gerações posteriores à “revolução científica” de fato encontraram a maneira de abrir o cofre onde estavam conservadas imensas fortunas que as gerações precedentes ignoravam possuir e não tinham os meios para explorá-las. A primeira modernidade (séculos XVI-XVIII), a partir da aliança entre a técnica, o direito e a economia, forjou um imaginário que apresenta como “ciência” o fato de aproveitar, ao dissipá-las, as riquezas contidas nesse cofre (carvão, petróleo, gás, água doce profunda) – recursos naturais que não podemos produzir e não se renovam naturalmente, ou demoram milhões de anos para serem repostos na natureza. Nesse imaginário se funda a ciência da exploração rápida e eficaz do tesouro que, após trezentos anos, chamamos de economia.

Na mentalidade moderna, explorar os bens comuns – por um consumo que inevitavelmente leva à privatização dos recursos a favor daqueles que conseguem aproveitá-los para lucrar da forma mais eficaz – tornou-se natural. O processo de acumulação leva à mercantilização, cujos pressupostos são a moeda, a propriedade privada do solo e o trabalho assalariado, invenções humanas que direcionam valores qualitativos únicos e não reprodutíveis – como a terra, o tempo de vida e a troca qualitativa – para fins comerciais.

Karl Marx descreveu o processo de acumulação primitiva – principalmente a espoliação das terras comuns da Inglaterra no século XVI – como a etapa inicial do desenvolvimento capitalista e que permitiu o avanço suficiente do capital para fazer deslanchar a Revolução Industrial. Contudo, a definição de acumulação primitiva pela conquista de bens poderia ser ampliada e incorporar também a privatização dos bens comuns construídos graças à poupança geral, fruto do trabalho de todos: transportes e serviços públicos, telecomunicações, planejamento urbano, bens culturais e paisagísticos, escolas (e de forma mais geral tudo o que se refere à cultura e ao conhecimento), hospitais; em suma, todas as estruturas que governam a vida social, até a defesa e as prisões.

Uma mudança geral de sensibilidade que conduzisse o bem comum ao centro da perspectiva seria a base para uma alteração profunda do âmbito técnico-jurídico. Trata-se, portanto, de revelar, denunciar e superar o paradoxo herdado da tradição constitucional liberal: o da propriedade privada mais protegida que a propriedade comum.


Ugo Mattei 
Professor de Direito Internacional Comparado do Hasting College of the Law da Universidade da Califórnia e autor de Beni Comuni, um manifesti, Laterza, Bari-Roma, 2011


FONTE: Le Monde Diplomatique Brasil

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Ensino, a Pesquisa e a Extensão: limitações dos Cursos Superiores

Por Aluizio Moreira

Geralmente quando discutimos questões relacionadas de um modo geral ao Ensino Superior, vem sempre a nossa mente as atividades consideradas fundamentais/definidoras e indissociáveis: o ensino, a pesquisa e a extensão. 

O que na realidade se verifica, é que estas três atividades ou não acontecem, ou acontecem deficitariamente.

Esclareçamos nossa posição como pontos iniciais para discussões mais aprofundadas.

Aluno com a cabeça cheia 
O ensino na maioria dos Cursos Superiores é limitado pela prioridade dada  à  transmissão de conhecimentos, que devem ser acumulados na cabeça do estudante e expelidos durante as avaliações. Não há a preocupação dos professores (com exceções, evidentemente), de contribuir para que o aluno pense por si próprio. Não há o incentivo às discussões, nem se prepara o aluno para uma reflexão crítica sobre os conteúdos transmitidos. E aí entra na polêmica, se o objetivo do Curso é apenas formar uma mão-de-obra especializada para o mercado de trabalho como qualquer Curso Técnico, ou se além disso se pretende formar também homens de ciência.

A pesquisa na graduação, é tratada de maneira tão fora da realidade, que não compreendemos como  se insiste em falar numa atividade tão mal compreendida, inexpressiva  e raramente praticada. Dois grandes obstáculos se antepõem à sua prática: pesquisa requer tempo, pesquisa requer preparo. Não se pode fazer pesquisa nos intervalos das aulas. Só um pequeno  número de alunos têm disponibilidade para dedicar-se à pesquisa. E os professores têm tal disponibilidade?

Pesquisa cientifica não se improvisa. A preparação do aluno, forçosamente deve ir desde a escolha do tema com sua devida problematização e hipótese à definição dos métodos e técnicas de pesquisa; do levantamento bibliográfico e/ou documentais à coleta de dados; da organização dos  fichamentos à crítica dos dados, sem esquecermos que tudo isto, exige, por sua vez, conhecimentos de algumas normas da ABNT quanto à referência e às citações. Como preparar o aluno-pesquisador cujos únicos horários que dispõem aluno e professor são as 2 ou 4 horas de aulas semanais de disciplinas realmente voltadas para a pesquisa?

Se o ensino é deficiente e a pesquisa é impraticável, o que dizer da extensão enquanto atividade indissociável e integrada às duas primeiras? Ora, se são indissociáveis mas o ensino é deficiente e a pesquisa inexistente, consequência lógica: não há lugar para a extensão. 

Mais ainda: Qual sua natureza organizacional e operacional? Pode-se reduzir a extensão universitária à prestação de serviços assistenciais? Na verdade não se parte do diagnóstico das reais carências das comunidades locais para a integração Instituição-comunidade. Em algumas Instituições religiosas que atuam no Ensino Superior, os alunos dos vários Cursos de graduação praticam atividades consideradas extencionistas junto às comunidades, pelo caráter cristão-missionário da própria Instituição de ensino.

Voltaremos ao assunto.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Castells, sobre Internet e Rebelião: “É só o começo”

Por Jordi Rovira (Universitad Oberta de Catalunya)


Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali e na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.

Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial — em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.

Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?

Na verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente.

As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.

Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como conseqüência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?

As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.

A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõem de acesso a internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre “conectados” e “desconectados” – ainda maior que a que se da nos países desenvolvidos?

O dado já esta antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet — se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%.

Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas uma número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos, e pudessem derrotar o ditador.

A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.

Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?

Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a numero no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em twetts e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alta que tiveram que restaurá-la rapidamente.

Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Bem Ali não caii tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no Youtube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.

A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernéticos no Egito — como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?

O importante das “wikirrevoluções” (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos. Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria, eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças — ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68, ele era um autêntico anarquista: Rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea.

Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.

A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro, para enfrentar com êxito os grandes desafios?

Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou aliam-se com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. Sem Al Jazeera não teria havido revolução na Tunísia.

Em um artigo intitulado “Comunicação e Revolução”, você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na Internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que esta percorrendo o mundo árabe?

Não, porque 72% do chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários — ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China — encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais, porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.

Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre se da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais, à nossa disposição?

Já tranformou. Ninguém que esta inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo exotérico: há uma inter-relação online/off-line.

Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.

Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?

Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tama um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra.

É o espaço social do nosso mundo, um lugar hibrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação, e sobretudo, pela comunicação na internet

Tradução: Cauê Seigne Ameni

FONTE: Outras Palavras