sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Eleições para além dos limites dos Municípios


Por Aluizio Moreira



Estamos próximos das eleições para o Executivo e Legislativo Municipais neste ano de 2016. A maioria dos eleitores ou não dão muita importância à eleição para vereadores, ou admitem que o papel do vereador é além de “acompanhar s ações do poder executivo”, procura apenas defender os interesses do município e ao bem-estar da população local, preocupando-se exclusivamente com o saneamento básico, educação fundamental, saúde, transporte coletivo, moradia, coleta de lixo, iluminação pública, proteção ambiental, etc. 

É evidente que tudo que traga melhorias para as condições de vida é importante para a população local. Mas é necessário também que o cidadão em sua cidade, compreenda que muitas dos serviços diretamente ligados ao município, têm relação direta com o que acontece na esfera dos poderes políticos no Estado, como da politica adotada a partir do Congresso Nacional e pelo direcionamento político e econômico dado pelo Governo Federal. 

Daí a importância que devemos empreender, não só acompanhando as decisões e acontecimentos ao nível do Estado e do Município, como acompanhando as decisões e os acontecimentos ao nível de Governo Federal. Os fatos que acontecem a nível de Governo Federal, trazem graves consequências para a população local. Ou seja, o cidadão não deve apenas se limitar a reivindicar melhorias para seu município, mas também voltar sua atenção para as políticas traçadas pelo Governo Federal,  apoiando-as ou não. 

Está aí o Governo de Michel Temer, acenando para “mudanças” que fatalmente atingirão todo o cidadão comum nas cidades mais afastadas dos centros de decisões politicas. As alterações que se farão relativas à lei da aposentadoria, à saúde publica, ao sistema de ensino (Fundamental e Superior), às questões das mulheres, aos movimentos sociais e das minorias excluídas (negras, indígenas, LGBT), aos Direitos Humanos, trarão sérias consequências, obviamente, para todo e qualquer cidadão, onde quer que ele habite.

Por outro lado não podemos nos limitar apenas em defender um Governo nos marcos de uma democracia, cada vez mais exclusiva, que começa e termina nas eleições. 

As conquistas que o povo brasileiro conseguiu alcançar pela luta das forças democráticas e populares, estão sempre ao sabor dos interesses das tendências da classe burguesa no poder: ora avançando por influencia da corrente liberal chamada progressista, ora retroagindo por imposição da corrente conservadora.

Até quando nosso povo viveremos, ao sabor das forças burguesas hegemônicas no poder? Quando teremos nossas conquistas asseguradas e constantemente avaliadas e aperfeiçoadas em beneficio da maioria da população sem o perigo de retrocessos? Na medida em que o povo conquiste a verdadeira democracia, com a instituição do Poder Popular, que ponha um fim ao Governo Representativo, que se foi um avanço com a instituição do voto universal e secreto, tornou-se um seu oposto, cujos representantes não representam os interesses dos representados. 

Bem que a Câmara de Vereadores poderia ser um dos espaços de uma verdadeira representação popular, juntamente com os diversos setores das populações nos sindicatos, nas comunidades, nas organizações étnico-raciais, nas sedes do movimento LGBT.  

Tudo vai depender da vontade e da organização popular, a começar pela renovação da Câmara que não deve se limitar a uma simples troca de nomes, mas eleger aqueles que apresentem uma proposta socialmente mais igualitária, mais humana.
  

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Eleições 2016: O Contexto



Selvino Heck (*)


As eleições municipais de 2 de outubro são, no momento em que escrevo, 29 de julho, imprevisíveis. Ninguém sabe o que vai acontecer. Escrevo como alguém que participa de eleições desde 1978, 38 anos atrás, foi candidato seis vezes, a primeira vez em 1982, coordenou inúmeras campanhas, como a de Lula no Rio Grande do Sul em 1989, ou a de Tarso Genro, prefeito eleito de Porto Alegre em 1992. Até chegar a esta de 2016, onde estarei na coordenação de campanha de Cesar Schumacher, candidato a prefeito do PT de Venâncio Aires, minha terra.

Pergunto às pessoas em quem vão votar e por que. Quase ninguém sabe. Quando sabe, vota numa pessoa da qual ouviu falar ou já conhecia, e nada mais. Quase ninguém está ligado às eleições, por enquanto. Pergunto aos candidatos como vão tratar os temas do impeachment, do golpe e da democracia e há muitas dúvidas. Pergunto sobre o quadro econômico e social previsível em 2 de outubro, e as respostas são múltiplas ou vagas.

Estas eleições, mesmo sendo municipais, são especialmente importantes, por acontecerem no momento em que estão acontecendo, por possibilitarem o levantamento de temas antes quase proibidos em eleições municipais, por exigirem dos candidatos majoritários e proporcionais posicionamentos e respostas sobre assuntos que vão além da questão local, obrigando a discutir o micro e o macro, políticas públicas, a democracia e assim por diante.

Agosto é um mês marcado na história no Brasil, a começar pelo suicídio de Getúlio em 24 de agosto de 1954. Em agosto de 2016, o Senado da República decidirá sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Agosto será o mês de inéditas Olimpíadas no Brasil e na América Latina, que deveriam/deverão envolver e empolgar toda sociedade brasileira e ter repercussão mundial. Agosto será um mês de grandes manifestações sociais e de rua, talvez com uma greve geral há muito tempo não vista.

Como o Brasil chegará no final de agosto? Como estará em setembro? Ninguém sabe, ninguém pode/consegue prever.

Recentes pesquisas, algumas inclusive fraudadas, como a do Datafolha, dão conta que está acontecendo uma mudança no humor popular de brasileiras e brasileiros. Cai a aprovação do governo interino golpista, sobe a aprovação da presidente legítima, Dilma, diminuem os favoráveis ao seu impeachment, cresce o número dos que querem eleições gerais.

No campo econômico e social, não se vê crescimento econômico no horizonte, aumenta a taxa de desemprego e as pessoas reclamam da inflação que corrói seus ganhos. Cresce, portanto, a insatisfação popular com a máxima do `Estado mínimo, mercado absoluto`. O desmonte das políticas públicas existentes, promovido pelo governo interino, começa a ser sentido na vida cotidiana do povo e dos trabalhadores.

Cresce o descrédito da política em geral, dos políticos e partidos em particular, ainda mais com as últimas medidas do governo interino chanceladas pelo Congresso Nacional, favorecendo minorias e não ao conjunto da população: reajuste dos servidores do Poder Judiciário e Legislativo, aceleração de privatizações, previsão de reformas na previdência e nas leis trabalhistas. E ainda há as denúncias de corrupção, a parcialidade de setores do Poder Judiciário e Ministério Público nas apurações, novidades que poderão surgir.

Há forte criminalização da política, especialmente do Partido dos Trabalhadores, e de alguns movimentos sociais, como o MST. Crescem o ódio a intolerância com quem é diferente ou pensa diferente da maioria, com quem professa determinadas crenças, com quem não professa a `lei e a ordem`. Os valores da solidariedade, da igualdade andam em baixa, a grande mídia colaborando expressivamente com seu esvaziamento e perda de sentido.

Como tudo isso se refletirá no voto daqui a dois meses? Ou os eleitores vão continuar com o olhar apenas no plano local, votando em nomes em vez de programas e partidos, sem atentar para as questões globais e nacionais? Quem o sabe?

Neste contexto, é de se imaginar que nesta eleição não haverá como escapar da disputa de projetos de sociedade e de desenvolvimento, haverá confronto de ideias, haverá embates programáticos, haverá debate sobre o futuro, não só do município, mas também do país. Ou todos fugirão de temas como a democracia, políticas públicas com participação social, papel do Estado e da sociedade civil em tempos de crise?

É de se lembrar ainda que, pela primeira vez, está proibido o financiamento empresarial de campanhas, levando a militância voluntária à rua, uma campanha pé no chão e no barro.

As eleições municipais de 2016, embora ainda imprevisíveis no resultado, são especialmente importantes no atual contexto brasileiro e no futuro do Brasil como Nação. Dois meses que entrarão para a história. Cabe a candidatas e candidatos, a militantes, à população em geral preocupada com o futuro de seus filhos e netos transformar estas eleições numa vitória da democracia e do resgate da política como serviço ao bem comum.



(*) Diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã e Secretaria Geral da Presidência da República. Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO)


FONTE: Adital

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A lógica do sistema de poder brasileiro



O que fazer após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff, concretizado no dia 12 de maio? O Le Monde Diplomatique Brasil convidou pensadores e lutadores sociais de diversos matizes para debater como lidar com a crise e trabalhar com certos elementos, como a guerra das ideias, as eleições municipais de outubro. 


Por Carlos Humberto Campos





As primeiras medidas do governo ilegítimo de Temer revelam a desconstrução e a negação dos direitos e conquistas das classes trabalhadoras e das comunidades tradicionais, bem como da luta por uma justa reforma agrária.

Construir os caminhos da resistência vai exigir maior politização e mobilização dos setores sociais. Vai demandar também o retorno e o restabelecimento da capacidade do trabalho político de base, exigindo uma verdadeira reforma política, cujo modelo atual se configura como um perverso sistema de poder, sustentado pelos grandes meios de comunicação corporativos que historicamente criminalizam os movimentos sociais e a política.

A luta dos movimentos sociais precisa incorporar e assumir o debate da comunicação de forma mais efetiva, para além dos produtos de informação e visibilidade. A comunicação necessita ser reconhecida como instrumento de mobilização e educação política e elemento fundamental na garantia de outros direitos e consciência da cidadania. Democratizar a comunicação é democratizar o sentido da vida, da luta e da resistência dos povos. A comunicação é um alimento básico da democracia.

O momento sociopolítico que a sociedade brasileira atravessa é delicado, sobretudo porque é também de construção das eleições municipais de outubro. Vivemos uma conjuntura pré-eleitoral, que tem um papel importantíssimo na rearticulação das forças políticas sociais nos municípios, base definidora e receptora das políticas públicas. Cabe ao município organizar o atendimento à população na área de saúde, educação, saneamento básico, água e esgoto, lazer, geração de trabalho, assistência social, moradia e transporte coletivo.

As eleições municipais que se aproximam não podem ser vistas apenas como um processo de escolha dos novos prefeitos e vereadores. Elas devem motivar a discussão de alternativas e projetos que garantam melhor qualidade de vida às pessoas. São importantes, pois trazem em seu bojo possibilidades de reencontro das forças políticas locais para a construção do debate, suscitando alternativas de administração pública mais próxima dos cidadãos e criando oportunidades de resgatar a importância do município como base na construção de um novo projeto para o país, onde todas as pessoas possam viver com dignidade. Temos de oxigenar e nutrir o processo das eleições municipais, na perspectiva de superação da crise política de hoje, pois é o município a base da organização política.

Resolver a crise sociopolítica atual passa pela superação de vários aspectos. Não é uma tarefa fácil. Inexoravelmente, exige uma renovação de todos os sujeitos, eleitos e eleitores, mudanças de atitudes, comportamentos pessoais e coletivos. A crise é estrutural, tem suas raízes no projeto de Brasil construído historicamente com estruturas injustas, viciadas e alimentadas pela prática do patrimonialismo corporativista e oligárquico. O vírus oportunista e corruptível reside no conjunto da obra.

Esta crise desnuda a lógica de um sistema de poder, de um paradigma que não dá mais conta de recompor-se e reabilitar-se. É preciso extirpar o modelo com uma autêntica reforma política, sair da democracia representativa para a participativa direta, o povo votando sobre todas as decisões importantes diretamente. É outra lógica, outro olhar, outra imagem de fazer política como a arte do bem comum.

A superação da atual crise política não virá por decreto ou medidas unilaterais; ela nascerá da capacidade de reconstrução de formas de convivência e de explicitação de vivências solidárias e respeitosas, até então pouco valorizadas.

É dessa perspectiva que surgem possibilidades de reações que nos impelem a desconstruir o “velho”, o “arcaico”, que sempre justifica a ordem estabelecida, e construir o “novo”, a nova ordem. Isso requer um processo longo de desenvolvimento humano e social, mas é uma condição necessária para as pessoas crescerem na consciência humana, social, política e econômica. A ação política é humana, por isso ela tem de ser humanizada!



Carlos Humberto Campos é sociólogo, assessor da Cáritas Brasileira Regional Piauí, coordenador da ASA pelo estado do Piauí e da coordenação do Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido.



Ilustração: Daniel Kondo


quinta-feira, 28 de julho de 2016

A farsa do ‘Estado Democrático de Direito’


Por Fausto Arruda   


O sistema político vigente no Brasil, baseado na farsa eleitoral e na corrupção endêmica, chega aos seus estertores. Mantido até a exaustão pelo caráter retrógrado das classes dominantes brasileiras, incapazes até mesmo de entrarem em correspondência com o espírito democrático burguês, agoniza na decomposição mais pútrida a céu aberto enquanto, desesperados, seus criadores buscam um soro capaz de lhe dar uma sobrevida.

Sob o esfarrapado manto do “Estado Democrático de Direito” as classes dominantes vão cortando na própria carne, embora muito longe de extrair o carnegão da condição semicolonial e semifeudal de seu velho Estado genocida alicerçado no capitalismo burocrático em crise terminal.

Preparam-se para lançar mão de um arsenal de remendos a serem colados sobre o manchão, denominado de Constituição brasileira, e a isto darão o nome de “reforma política”.

DIREITO PARA QUEM?

O que parecia um interminável novelo, denominado de “Operação Lava Jato”, ao aproximar-se de impolutas figuras dos três “podres poderes” dá lugar a maquinações engenhosas e ensaios na opinião pública de como pôr um ponto final.

O instituto da delação premiada e dos acordos de leniência, de repente, vão escancarando o caráter de classe do Judiciário, senão vejamos (com informações do Jornal O Tempo): “Os delatores da Operação Lava Jato, como Fernando Baiano, Sérgio Machado e Nestor Cerveró, tem tido uma vida de luxo após firmarem acordos de colaboração premiada e receberam o benefício da prisão domiciliar.

Machado, ex-presidente da Transpetro, cumpre pena em sua casa, uma mansão no litoral de Fortaleza, Ceará. Ele admitiu que recebeu R$ 75 milhões em propina e, após o acordo com o Ministério Público Federal, cumprirá três anos de prisão domiciliar.

Ex-diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró cumpre sua pena em um sítio em Itaipava (RJ), após ter sido preso em Curitiba (PR). Localizado em um condomínio de luxo, o sítio tem 2.700 metros quadrados e Cerveró não pode deixar o perímetro de sua residência por um ano e meio, exceto em caso de emergências médicas.

Já Fernando Baiano, lobista condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, cumpre pena desde novembro de 2015 em uma cobertura na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, avaliada em R$ 12 milhões. Apesar de não poder sair do prédio, o condomínio oferece piscina, quadra de tênis, churrasqueira e salão de beleza.

O ex-diretor Paulo Roberto Costa e o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco também estão presos em apartamentos de luxo no Rio. Em uma casa de alto padrão, em São Paulo, está Júlio Camargo”.

O outro lado da moeda podemos verificar nas páginas do AND edição 172 ao denunciar o Estado policial e a escalada fascista: “Ademais da brutal repressão contra as massas do campo que, com o concurso dos bandos de pistoleiros associados às forças policiais, criminaliza, persegue, prende, tortura e assassina dirigentes e ativistas do movimento camponês, indígenas e remanescentes de quilombolas; e nas cidades persegue, com seus aparatos repressivo e jurídico, os movimentos populares classistas e a juventude combatente, a escalada fascista se aprofunda mais e mais na medida em que se acirra a luta de classes”.


DENUNCIAR A FARSA

Se o caráter das pessoas, dos partidos e dos Estados não pode ser definido pelo que eles dizem de si mesmo e sim pela sua prática, por sua ação concreta, o “Estado Democrático de Direito” consagrado nas páginas da Constituição brasileira não passa de letra morta para as massas, enquanto que, para as classes dominantes exploradoras e opressoras mantém o princípio da velha política: “para os amigos tudo; para os indiferentes a lei; e, para os inimigos os rigores da lei”.

Este Estado, cuja base se reproduz através da farsa eleitoral, viverá este ano mais um episódio em que as oligarquias municipais e regionais encenarão mais uma farsa, para alçar ao poder local os filhos, netos e cupinchas dos velhos oligarcas.

É muito provável que pela primeira vez na história deste país a plateia não permita que a encenação se proceda com a mesma tranquilidade de outros tempos. A revolta popular já expressa em movimentos como o de junho/julho de 2013 e nas cotidianas e pulverizadas manifestações das populações no campo e na periferia das grandes cidades, nas favelas e bairros proletários; nas ocupações de escolas por parte da Juventude Combatente; tudo isso, é um indicativo de que os políticos e seus partidos eleitoreiros de todos os matizes serão como nunca antes rechaçados nas ruas e nas urnas.

Comícios e manifestações contra a farsa eleitoral e pelo boicote deverão se multiplicar aos montes, levando a que a massa de eleitores, pelo temor de ameaças, não se abstenha, realize seu protesto pela anulação do voto e pelo voto em branco.

PREPARANDO A REVOLUÇÃO

É neste terreno e nestas condições que se expandirá e se propagará entre as massas do campo e da cidade a necessidade da Revolução Democrática, através das mobilizações em defesa de seus interesses imediatos por terra, saúde, educação, transporte, moradias, emprego, saneamento básico e do entendimento de que isto deverá ser arrancado aos gerenciamentos de turno pelo grau crescente de sua politização e organização transformada em luta política aberta pelo Poder.

A mobilização, politização e organização de camponeses, operários, professores, profissionais liberais honestos, pequenos e médios proprietários rurais, comerciais e industriais, das mulheres e da Juventude Combatente desaguará, inevitavelmente na compreensão de que fora o poder, tudo é ilusão e que somente com a guia revolucionária, o partido revolucionário, poderão avançar para a derrubada do velho e construção do novo.

Urge, portanto, que as forças populares revolucionárias e democráticas passem a explicitar ao nível das minúcias o Programa da Revolução de Nova Democracia, aglutinando em torno do mesmo a revolta das massas e fazendo girar com velocidade a roda da História.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Razão neoliberal, dissolução da democracia e alternativas





Hoje, evitar o impeachment. Mas em seguida, inventar lógicas que recuperem a política como projeto coletivo, resgatem a esfera pública e reabilitem a potência da ação coletiva

Por Tatiana Roque


Defender a democracia. Esse é o mote que tem reunido ações de diferentes correntes político-partidárias. Há um sentimento de que há algo em risco, algo bem maior que o governo. Mas parece exagero pensar, por outro lado, que uma ditadura nos espreita, nem mesmo um projeto coordenado de usar meios autoritários que ameacem a liberdade do cidadão comum. A percepção de que a democracia está fragilizada é real, mas, ao invés de representar um retorno ao passado, pode ser explicada por uma compreensão aguda da atual fase do capitalismo neoliberal. Lembremos que, no pedido de impeachment, o suposto crime de responsabilidade seria um desrespeito à austeridade fiscal. Ou seja, se julgado procedente, representará uma criminalização da política econômica.

O neoliberalismo está muito além, contudo, de uma orientação da economia. Trata-se de uma racionalidade política que envolve um tipo preciso de organização social, um modelo de Estado e mecanismos eficazes de produção de subjetividade. Práticas de governança, nos termos de Foucault, que se traduzem como uma razão política normativa que abarca muitos campos para além daqueles ligados ao mercado.

Entendido desse modo, o neoliberalismo implica uma desativação de diversos princípios que regem a democracia liberal. Só para dar alguns exemplos de fenômenos em curso:

- suspensão da separação entre esfera pública e esfera privada;

- tratamento de opções políticas como ofertas concorrentes que o cidadão-consumidor deve escolher;

- conformação da ação pública aos critérios da produtividade e da rentabilidade;

- exacerbação dos poderes de polícia, que deixa de estar submetida a qualquer controle;

- desvalorização simbólica da lei, considerada mais tática do que princípio, com consequente fragilização do sistema jurídico;

- confusão entre as esferas política e econômica;

- centralidade dos temas da gestão para a avaliação da boa governança.

A democracia liberal, diante desse quadro, segue operando como esfera política ideal, mas perde sua face normativa. Wendy Brown1 chega a denominar des-democratização a desativação atual de fundamentos como: igualdade, universalidade, laicidade, autonomia política, liberdades civis, cidadania, regras ditadas pela lei e imprensa livre. Pierre Dardot e Christian Laval2 ressaltam que o neoliberalismo é distinto do liberalismo clássico justamente pela função proeminente do Estado que deve, ao mesmo tempo, construir o mercado e se construir segundo as normas do mercado. As leis do mercado deixam de ser concebidas, portanto, como leis naturais e cabe ao Estado garantir o bom funcionamento da concorrência. Seu papel é deslocado, assim, da esfera da justiça e das garantias ao cidadão para a esfera da gestão, cuja função é gerar um ambiente propício para a ação das empresas. A partir dessa lógica, podemos entender que seja mais importante respeitar a meta fiscal do que garantir o pagamento dos programas sociais, ou o financiamento da universidade pública. A lei adquire um papel tático que pode ser flexibilizado em prol da performance: uma legalidade de resultados.

Essas mudanças impõem-se gradativamente em um ambiente social degradado, em um mundo no qual a participação política é percebida como inócua: só nos resta cuidar de nossas vidas, pois a ação coletiva não tem consequência e não dá retorno algum. O indivíduo deve ser empresário de si, ficando responsável pela sua sorte, pelo investimento em si mesmo, como um capital que deve render frutos, mantendo-se produtivo e empregável. Além disso, a racionalidade liberal responsabiliza o indivíduo pela solução de problemas tipicamente sociais, como educação e saúde. Como consequência, os direitos do cidadão seguem cada vez uma lógica de direitos do consumidor.

Compreende-se, assim, o esvaziamento da política: o desinteresse do cidadão pela esfera pública, a desvalorização do bem público e da ordem jurídica. No momento em que vivemos, a dissolução da democracia corresponde ao esgotamento desses pressupostos. Mais do que o risco de qualquer regime autoritário, estamos diante de uma indiferenciação dos regimes políticos: não importam os partidos, não importam os governos, as práticas de gestão e as políticas de austeridade serão as mesmas.

Diante da dificuldade desse quadro, a esquerda se vê frequentemente na posição desconfortável de defender um regime em declínio. Defender a democracia liberal é o que temos para hoje, mas depois de amanhã precisaremos de diagnósticos mais eficazes. O desafio é inventar racionalidades políticas à altura do que o neoliberalismo tem de inédito e, sobretudo, do que tem de operacional em todas as esferas da existência.


1 Wendy Brown, “American Nightmare: Neoliberalism, Neoconservatism, and De-Democratization”. Political Theory, Vol. 34, No. 6, 2006, pp. 690-714.

2 Christian Laval ePierre Dardot, A nova razão do mundo: Ensaios sobre a sociedade neoliberal. Boitempo Editorial, Coleção Estado de Sítio, 2016.


Tatiana Roque Professora da Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, presidente do sindicato dos docentes dessa mesma universidade.



sábado, 16 de julho de 2016

Desmonte do Brasil


Por Frei Betto


O documento Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, definido no governo Obama, assinala que o Brasil representa uma enorme reserva de riquezas naturais estratégicas, essenciais ao desenvolvimento das novas tecnologias. Acrescenta que apenas o nosso país possui o potencial de exercer, na América do Sul, um grau de influência capaz de competir com os interesses hegemônicos dos EUA.

Obama foi explícito: “temos que ter clareza sobre os desafios presentes e futuros, e reconhecer que o nosso país conta com a capacidade única de mobilizar e guiar a comunidade internacional para enfrentá-los”.

É a cultura unilateralista e xenofóbica de “destino manifesto” impregnada na mentalidade de muitos estadunidenses. Expressada em 1994 por Henry Kissinger em seu livro En Diplomacy: “os impérios não têm necessidade de equilíbrio de poder. Não têm interesse de operar dentro de um sistema internacional. Aspiram a ser o sistema internacional. Esta é a forma com que os EUA têm conduzido sua política externa em relação à América Latina”.

Tão logo foram descobertas as riquezas do Pré-Sal, potenciando o Brasil a se tornar grande produtor de petróleo e gás, a IV Frota da marinha estadunidense iniciou atividades no Atlântico Sul. Agora, graças ao governo Temer, se inicia o processo de desnacionalização do Pré-Sal e da Petrobras. A aviação comercial brasileira já está legalmente autorizada a ser 100% controlada pelo capital estrangeiro.

A ideia de que privatizar significa aprimorar não encontra respaldo na prática. A VASP faliu ao ser privatizada. A Vale definha e, hoje, encontra-se atolada no lamaçal onde se afunda a Samarco. O sistema telefônico, todo em mãos estrangeiras, é o que recebe mais reclamações dos consumidores. Os planos de saúde privados cobram caro de 50 milhões de brasileiros e, na hora da precisão, atendem mal, como se o cliente cometesse o crime de ficar doente…

O desenvolvimento capitalista dos EUA sabe que não pode prescindir dos recursos naturais do Brasil, como a água. Nas próximas décadas se prevê que quem controla a água terá o controle da economia mundial. Hoje, apenas 3% da água na superfície do nosso planeta é potável. No entanto, há 94% de água potável subterrânea.

A Europa e os EUA enfrentam escassez de água. No Velho Continente, dos 55 rios importantes somente cinco não estão contaminados. Nos EUA, 40% de seus rios e lagos se encontram contaminados. Calcula-se que o país tenha um déficit de 13,6 bilhões de metros cúbicos de água.

Já a América do Sul possui 47% das reservas superficiais e subterrâneas de água do mundo. A maior parte no Brasil, na região amazônica e no aquífero Guarani. É um mar de água potável de 55 mil km cúbicos, contendo elementos químicos essenciais às indústrias de tecnologia e bélica.

Não é à toa que os EUA, depois de abrirem uma base militar no Paraguai, agora recebem da Argentina de Macri o sinal verde para mais duas bases, uma na Patagônia e outra na Tríplice Fronteira.

Se o povo brasileiro não reagir, em breve teremos tropas ianques acantonadas em nosso país e humilhando o que nos resta de soberania.


sábado, 9 de julho de 2016

Paulo Freire é terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo





Por Vitor Paiva – O educador, pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire é considerado, mundo a fora, um dos mais notáveis pensadores da história da pedagogia. Patrono da educação brasileira, Freire é simplesmente o brasileiro mais homenageado em todos os tempos, com 29 títulos de Doutor Honoris Causa por universidades da Europa e da América, e centenas de outras menções e prêmios, como Educação pela Paz, da UNESCO, que Freire recebeu em 1986.

O criador da Pedagogia de Oprimido agora é citado em um novo e impressionante título de reconhecimento: Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado do mundo em universidades da área de humanas. O levantamento foi feito através do Google Scholar – ferramenta de pesquisa para literatura acadêmica – por Elliot Green, professor associado da London School of Economics. Segundo ela, Freire é citado 72.359 vezes, atrás somente do filósofo americano Thomas Kuhn (81.311) e do sociólogo, também americano, Everett Rogers (72.780).

PAULO FREIRE

Outro ponto de reconhecimento da obra do educador pernambucano foi a menção da obra Pedagogia do Oprimido entre os 100 livros mais pedidos em universidades de língua inglesa pelo mundo. Reunindo mais de 1 milhão de ementas de estudos universitários americanos, ingleses, australianos e neozelandeses, o livro de Freire foi o único brasileiro a entrar no top 100 da lista. No campo de Educação, ele ficou em segundo lugar entre os mais pedidos. O levantamento foi realizado pelo projeto Open Syllabus, e traz ainda outras 20 obras de Paulo na lista geral.

Em momento de intenso debate sobre educação no Brasil e sobre o legado do educador, a obra de Freire segue unânime pelo mundo. Na década de 1960, Paulo desenvolveu uma metodologia que realizou o feito de alfabetizar 300 cortadores de cana no Rio Grande do Norte em 45 dias. Paulo então foi convidado para preparar o Plano Nacional de Alfabetização, no governo João Goulart, que previa a formação de educadores em massa. O Golpe Militar, porém, interrompeu o plano e expulsou Paulo do país.

Paulo Freire é referencia em países diversos pelo mundo, e sua teoria visa aproximar o conteúdo acadêmico da vida cotidiana dos estudantes, oferecendo a possibilidade de que estes se apropriassem de suas próprias educações. Para ele, estudar não era um ato de “consumir ideias, mas sim de cria-las e recria-las”.

“[É necessário] Criticar a arrogância, o autoritarismo de intelectuais de esquerda ou de direita – no fundo, da mesma forma reacionários – que se julgam proprietários: os primeiros do saber revolucionário, os segundos do saber conservador; criticar o comportamento de universitários que pretendem conscientizar trabalhadores rurais e urbanos sem com eles se conscientizar também; […] buscam impor a superioridade de seu saber acadêmico às massas ‘incultas’”. Assim escreve Paulo, em sua obra mais reconhecida,Pedagogia Do Oprimido.

Ignorar ou mesmo negar a importância, a originalidade e a inovação contida na obra de Paulo Freire é junto ignorar a necessidade e o potencial de renovação na educação brasileira – coisa que o resto do mundo, que não é bobo nem nada, jamais fez, e segue estudando e se aprofundando no legado desse que é um dos maiores nomes da história da educação mundial.

Se você quiser conhecer melhor a obra de Paulo Freire, acesse a página do seu instituto – ou visite qualquer universidade importante pelo mundo.


Como desmontar a Ciência e Tecnologia brasileiras

CNPq, entidade essencial ao desenvolvimento nacional, é o alvo da vez. Série de cortes brutais em Educação e Ciência escancara um Brasil q...